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Já é realidade! UFF começa a produzir seus primeiros ventiladores mecânicosNum esforço coletivo de propor ações de mitigação do impacto da pandemia de COVID-19 no Brasil, uma ação liderada pelo coordenador do curso de Engenharia Elétrica da UFF, Daniel Henrique Nogueira Dias, lança até o final dessa semana um primeiro protótipo de ventilador mecânico. O projeto faz parte da “FRENTE UFF”, iniciativa que reúne professores, alunos, colaboradores da comunidade interna e externa, com o objetivo de combater os efeitos do novo coronavírus, antes, durante e após a pandemia. De acordo com Daniel, o projeto de produção do ventilador mecânico somou-se a outro que já estava em andamento, de confecção de equipamentos de proteção individual (EPIs), desde máscaras do tipo “faceshields” até as de tecido, assim como roupas de proteção dos agentes de saúde que estão na linha de frente no combate ao COVID-19. “Desde a emergência da pandemia, surgiu a ideia de trabalhar na construção de algum modelo de ventilador, visto ser este o principal equipamento utilizado para casos graves da doença, e que, inclusive, estava em falta no mercado internacional. Mas após algumas conversas com equipes médicas, principalmente do Hospital Universitário Antonio Pedro (HUAP), fomos alertados de que, naquele momento, o mais urgente seria produzir EPIs, a fim de evitar que os profissionais da saúde fossem contaminados e se transformassem em potenciais vetores do vírus”, destaca. Paralelamente à produção do primeiro protótipo de ventilação mecânica, segundo informa o coordenador, já está começando a ser fabricado um segundo protótipo, que contém modificações estruturais que irão facilitar sua montagem em larga escala, conferindo mais agilidade a todo esse processo. A finalização desses ventiladores, segundo Daniel, é essencial para que testes mais específicos possam ser realizados. “Basicamente estes equipamentos devem seguir uma série de normas antes de estarem disponíveis para uso comercial. É fato que, durante este período de crise, os critérios necessários para sua validação estão um pouco mais flexíveis. Ainda assim, precisa-se de uma bateria de testes clínicos. Após esta etapa, um pedido de homologação deve ser feito junto à ANVISA, para que, após a análise e aprovação pelo órgão, o equipamento seja utilizado de forma operacional pelos médicos. Esses ainda necessitam de um pequeno treinamento para utilização do equipamento”, explica. Os prazos são curtos, mas as metas são grandes. O intuito da iniciativa é o de produzir o maior número de equipamentos no tempo mais breve possível, de acordo com as necessidades que forem se apresentando. Para isso, de acordo com Daniel, o projeto está sendo desenvolvido pensando em peças e componentes que sejam de fácil acesso no mercado nacional. “Assim que o ventilador estiver disponível para uso em hospitais, faremos um cadastro das instituições (como estamos fazendo com os EPIs) e teremos uma melhor ideia de quantas unidades serão necessárias não só para agora, mas para o futuro também”. Nada disso seria possível, ressalta Daniel, se o interesse que une as pessoas não fosse comum. Segundo ele, construir e disponibilizar projetos complexos para a sociedade de forma rápida e eficiente, a exemplo de um ventilador, faz parte do compromisso que as universidades públicas possuem com o mundo que as cerca: “as iniciativas realizadas por estas instituições não estão vinculadas ao lucro de uma única pessoa ou entidade. No meu pensamento, este é um princípio que faz a diferença em um momento como este que estamos passando. A ausência de instituições públicas, quaisquer que sejam elas, poderiam comprometer o direcionamento de suas ações, favorecendo a desigualdade e concentração de renda”, finaliza. 
A solidão das superpopulosas favelas no combate à maior crise sanitária do séculoMuitas são as projeções científicas advindas de centros de pesquisa referenciados em todo o mundo sobre a evolução da pandemia de COVID-19 no Brasil nos próximos meses. Em nenhuma delas, no entanto, faz-se uma análise profunda da realidade das favelas, radicalmente diferente dos demais territórios urbanos por não contar de forma integral com os serviços fundamentais para o cuidado com a vida. Ignorada por pesquisadores, pela população e também pelos governos, a favela continua a ser vista majoritariamente a partir dos perigos que supostamente oferece. Se antes era território de criminalidade, hoje, em meio à pandemia, ela é o lugar onde a doença pode se alastrar de forma descontrolada. Segundo Regina Bienenstein, professora do Programa de Pós-graduação em Arquitetura e Urbanismo da UFF e coautora, juntamente com Glauco Bienenstein e Daniel Sousa, de um dos capítulos do livro recém-lançado O Coronavírus e as Cidades no Brasil - Reflexões durante a Pandemia, organizado pelas arquitetas Andrea Borges e Leila Marques, a favela é a expressão de como o trabalhador de baixa renda é tratado em nossas cidades. Essa realidade tem origem no processo de industrialização do país, que se deu, explica a docente, “em um contexto de salários insuficientes para a reprodução da força de trabalho, que não comportam gastos com moradia adequada. Somado a isso, a terra e a moradia, em cidades capitalistas como as nossas, são mercadorias. Assim, só tem acesso a elas aqueles com recursos suficientes para comprá-las no mercado privado. Sem renda e sem resposta do Estado, a ocupação de alguns terrenos vazios impróprios para a moradia, e ignorados pelo mercado imobiliário, passa a ser o único caminho”. A pesquisadora, que também coordena o Núcleo de Estudos e Projetos Habitacionais e Urbanos (NEPHU), onde realiza atividades de extensão voltadas para a assessoria técnica ao movimento popular em sua luta pelo direito à moradia e à cidade, destaca que esse processo de ocupação nunca ocorreu sem revezes. O pacto de “tolerância” do poder público e do capital imobiliário em relação a esse tipo de moradia era ameaçado sempre que os terrenos passassem a interessar ao mercado imobiliário, vindo acompanhadas de propostas de remoção, inclusive através de políticas públicas. “Na década de 1960, tal proposta proliferou no Rio de Janeiro e, mais recentemente, voltou à pauta no período de realização dos megaeventos, como as Olimpíadas. Muitas famílias foram removidas do novo eixo de avanço do capital imobiliário na cidade”, ressalta. As cidades brasileiras já nasceram, como constata Regina, com essa marca, que demarca espaços e corpos, e produz formas de exclusão em muitos e profundos níveis. Segundo ela, “seu modo de gestão e produção resultou num padrão de urbanização que se expressa social e espacialmente em dois tipos de territórios articulados e desiguais: um provido do que há de mais moderno em termos de serviços e infraestrutura, onde residem os setores com rendas mais altas de nossa sociedade e outro, a cidade popular, desprovida de todos os elementos que significam o bônus que a vida urbana pode oferecer”. Esse grande território “à margem”, onde reside parcela significativa da população e que é “precarizado, denso, insalubre, sujeito a diferentes tipos de risco e onde frequentemente não há abastecimento de água, rede de esgotamento sanitário e coleta regular de resíduos sólidos”, é um ambiente fértil para a contaminação de uma variedade de doenças. E não seria diferente com a COVID-19. Nesses territórios, como é possível acompanhar muito explicitamente no último mês no Brasil, as ações públicas têm se restringido às recomendações de cuidados básicos, como fazer o isolamento social, mantendo as casas ventiladas e higienizar as mãos com regularidade. Mas será que essas ações são possíveis, dadas as particularidades desses espaços? “A pergunta que fica é: como estar em quarentena se as pessoas que vivem nas favelas raramente têm trabalho formal, se a taxa de trabalho autônomo é alta e o biscate é única saída para sobreviver? Como ventilar as casas? Estamos falando de moradias frequentemente congestionadas, com janelas pequenas e insuficientes para uma boa ventilação. Como lavar as mãos em casas onde o abastecimento de água potável é intermitente e até inexistente?”, sublinha Regina. Na prática, para os moradores das favelas, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. A luta cotidiana pela sobrevivência é parte de sua realidade, com ou sem pandemia. “Essa luta se faz na maior parte das vezes através de atividades informais nas esquinas e nas ruas de nossas cidades. Estar impedido de exercê-las tem como consequência imediata a sombra da fome. Se somam a isso, ainda, as condições insalubres e de falta de saneamento e a insegurança na posse da terra”. A arquiteta destaca que atualmente, no estado do Rio de Janeiro, continuam a ocorrer despejos e remoções forçadas. “Isto acontece apesar da Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro ter entrado com ações visando suspender tais iniciativas até que passe a fase crítica da pandemia. Tais condições tornam o cenário vivido por essa população extremamente complexo”, denuncia.  A luta também tem se traduzido nas formas de obtenção da ajuda emergencial que os governos se dispuseram a oferecer no contexto da pandemia. Os moradores de favelas têm se deparado, por exemplo, com as penosas exigências burocráticas dos auxílios emergenciais para se ter acesso a um mínimo de recursos que, como lembra Regina, não chegam sequer ao que atualmente se considera um “salário mínimo”. Neste contexto, enfatiza a professora, “fica difícil, senão impossível, ficar em casa. Trata-se de uma escolha penosa e cruel!”. Como se não bastassem todas essas situações adversas, “ainda há aqueles que dentro dos seus carros, ou seja, protegidos do COVID-19, saem em passeata exigindo a volta ao trabalho dos trabalhadores que também terão que enfrentar viagens diárias em transportes públicos sem as devidas medidas de proteção”, denuncia a coordenadora do NEPHU. E uma vez contaminados, o que resta a essa população é enfrentar o esvaziamento da saúde pública, tanto em termos de hospitais, como de equipamentos, infraestrutura e recursos humanos adequadamente remunerados no SUS. “O COVID-19 evidenciou e potencializou a crise na saúde. A classe média, caso venha a ser infectada, consegue pagar planos de saúde e garantir uma vaga em hospital, mas o pobre, morador das favelas, dificilmente terá acesso ao que precisa”, enfatiza. Para fazer frente a esse cenário desolador, de ausência quase completa de recursos, parte da população que habita as favelas tem se articulado para se proteger e tentar atender às necessidades básicas dos moradores em situação emergencial. Segundo Regina, “na construção da defesa desses territórios está sendo fundamental a constituição de redes de apoio, já que o suporte do poder público está claramente aquém das necessidades expressas, principalmente para a população informal que não tem cadastro ou registro nas plataformas oficiais. E o NEPHU, em parceria com a Pró-Reitoria de Extensão da UFF, vem desenvolvendo um trabalho importante diante desse cenário”. Palloma Valle Menezes, professora do Departamento de Ciências Sociais da UFF e integrante do Dicionário de Favelas Marielle Franco, uma plataforma virtual de acesso público para a coleção e produção de conhecimentos sobre favelas, também relata uma grande quantidade de iniciativas coletivas para combate ao COVID-19 proveniente desses territórios. O Dicionário, desenvolvido por um grupo de moradores de favela e de pesquisadores, em uma parceria idealizada por Sonia Fleury (FIOCRUZ) e que inclui representantes do Morro Santa Marta, da Cidade de Deus, do Complexo do Alemão, articula uma rede de produção de conhecimento dentro e fora dos espaços acadêmicos. Como coordenadora da produção de verbetes do Dicionário, Palloma informa que recentemente começaram a chegar pedidos de divulgação das iniciativas de combate ao coronavírus nesses territórios. Diante disso, segundo a professora, “começou-se a focar todos os esforços para se fazer um amplo mapeamento das formas de ajuda às favelas. Foram mapeadas notícias sobre coronavírus nesses territórios, os materiais sobre a doença que estavam sendo produzidos pela e para favelas, além de relatos sobre o que moradores e coletivos locais estão pensando sobre o assunto. Mais recentemente, começou-se a divulgar editais e fundos que vêm surgindo para apoiar grupos atuantes no combate ao COVID-19”, destaca. A título de exemplo, Palloma ressalta a mobilização gerada em diferentes comunidades a partir de ações preventivas de desinfecção contra a propagação do novo coronavírus realizadas em uma favela de Niterói, na Central do Brasil, nas barcas, no metrô e em áreas com maior circulação de pessoas na cidade do Rio de Janeiro. “Moradores do Morro Santa Marta começaram a defender que esse processo de sanitização fosse realizado em todas as favelas. Mas sabiam que, se fossem esperar o poder público para isso, poderia ser tarde demais. Como eles têm plena consciência de que a luta contra o COVID-19 é urgente, tiveram a ideia de fazer o processo de sanitização da favela por eles mesmos. Conseguiram doações e já organizaram voluntários para dar início ao processo, munidos dos devidos equipamentos de segurança”. As iniciativas são muitas e podem ser acompanhadas acessando o Dicionário. Mesmo com a reunião de tantos esforços, as condições precárias do espaço das favelas por vezes impedem os coletivos de serem bem-sucedidos em suas iniciativas. Palloma enfatiza que, nas favelas, cada vez mais moradores têm lamentado a morte de vizinhos, parentes e amigos. “Os relatos postados por eles nas redes sociais mostram como não estamos tratando apenas números, mas das histórias de pessoas reais que, infelizmente, não estão tendo o tratamento adequado”.  Diante de uma quantidade crescente e assustadora desses números, que escondem histórias e vidas de pessoas reais, no contexto das favelas, torna-se cada vez mais inadiável a responsabilidade com o isolamento social, reforçam as pesquisadoras. Comprometida com seu objeto de estudo, para muito além dos livros, Regina Bienenstein aponta a urgência de se ficar em casa nesse momento, assim como a necessidade de participação de toda a sociedade em redes de apoio, com ações emergenciais, e medidas práticas demandadas pelos moradores das favelas e outros territórios populares. Além disso, destaca ela, “é preciso reinventar uma política urbana que articule mobilidade, saneamento, habitação, uso e ocupação do solo, de forma a privilegiar a construção de uma cidade democrática e justa, no lugar do paradigma adotado nos últimos tempos e voltado para a cidade como mercadoria. Claro está que, nesta (re)construção, a universidade pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada, terá papel importante, colocando à disposição da sociedade seu conhecimento e reforçando trabalhos que hoje são desenvolvidos lado a lado com a população”, finaliza. 
Novo canal de comunicação do HUAP reduz risco de contágio por COVID-19O Hospital Universitário Antonio Pedro (HUAP) anuncia a inauguração de um dispositivo de comunicação que promete facilitar o contato entre médicos e pacientes com quadros de saúde mais simples, no contexto de pandemia de COVID-19. Trata-se do HUAPfone. De acordo com Natalia Castro Fernandes, coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Elétrica e de Telecomunicações e uma das responsáveis pela implantação do dispositivo no HUAP, a ideia é tornar possível alguns tipos de atendimento via webconferência com a utilização de aplicativos de celular. Dessa forma, reduz-se o tempo de permanência do paciente no hospital e, consequentemente, os riscos de infecção por COVID-19. O dispositivo funciona da seguinte forma: o paciente insere no sistema seu nome, número de prontuário e telefone através do qual pode ser encontrado. A partir daí, ele indica o serviço e a especialidade médica de que precisa no momento. O pedido é, então, automaticamente redirecionado para os médicos que, por meio das informações recebidas, requisitam ou não o prontuário do paciente. Em seguida, eles decidem-se por entrar em contato com o paciente imediatamente, para uma orientação rápida, ou aguardar o dia da consulta previamente marcada. “Caso o paciente precise de uma orientação médica, o responsável irá fazer uma videochamada com ele. Caso necessite renovar uma receita, ela será disponibilizada, reduzindo o seu tempo de permanência no hospital”, explica Natália. De acordo com Yolanda Boechat, professora de geriatria da Faculdade de Medicina da UFF e também responsável pela implementação do dispositivo no HUAP, “neste momento em que estamos frente a uma epidemia viral, evitar que as pessoas saiam de casa é fundamental para reduzir o risco de contágio, evitando filas, aglomerações nas salas de espera, e também a utilização de transporte público. As orientações por telemonitoramento são, então, úteis para auxiliar os pacientes na decisão quanto às suas doenças de base e para tirar dúvidas com relação a situações novas. Eu já utilizo esse recurso em projetos de pesquisa realizados com a Amazônia. Por isso, posso garantir que o telemonitoramento será definitivo para reduzir a contaminação intra-hospitalar, evitar internações e a ida ao hospital desnecessariamente, em tempos de COVID-19”, ressalta. Natália esclarece que o HUAPfone não se confunde com um atendimento emergencial, funcionando como um suporte ao acompanhamento dos pacientes, que poderão entrar em contato a qualquer momento, do dia ou da noite. Dependendo do que estiver sendo requisitando, o médico poderá responder de imediato, através de videochamada, ou solicitar via mensagem, tão logo seja possível, que se aguarde até a data agendada para a consulta. O retorno do médico ocorrerá no horário regular de atendimento do profissional no ambulatório. Apesar de o dispositivo ter sido pensado inicialmente para agilizar e tornar mais eficiente a comunicação entre médico e paciente em meio à pandemia de COVID-19, tendo em vista a desatualização de cadastros e a ausência de bons canais de contato, já existe uma movimentação para torná-lo parte da rotina do hospital depois de terminado o período de crise. Segundo Natália, “setores de prontuário e de atendimento telefônico manifestaram interesse pela manutenção desse canal de comunicação em modo permanente, pois ele simplifica e otimiza os processos atualmente em curso”, comemora. Para acessar o dispositivo, clique em: huapfone.huap.uff.br  
Ciência para todos e por todos: UFF reúne esforços para produção de álcool 70% em grande escalaComo parte das ações da Universidade Federal Fluminense no combate ao novo coronavírus, o Instituto de Química, a Faculdade de Farmácia e o Laboratório Universitário Rodolpho Albino (LURA) firmaram uma parceria que vai resultar na produção de 1.400L de álcool a 70% INPM por semana, para atender a unidades hospitalares da UFF e também a Prefeitura de Niterói. A iniciativa faz parte de uma plataforma regional de combate ao COVID-19 para a produção do álcool 70% INPM, da qual participam todas as universidades públicas sediadas no Rio de Janeiro, como a UFF, UFRJ, IFRJ, UNIRIO, UERJ, entre outras, com coordenação da UFRJ. De acordo com o reitor Antonio Claudio da Nóbrega, “a produção do material é mais uma ação de proteção, valorização e cuidado com a saúde dos(as) profissionais que atuam na linha de frente do combate ao coronavírus, funcionários das áreas essenciais, de saúde, limpeza e outros. Queremos salvar vidas! Nossa atuação junto à prefeitura e outras instituições tem como intuito articular tecnologias e soluções com foco na vida das pessoas e incluindo também ações de mitigação dos impactos sociais e econômicos causados pela pandemia.” Paralelamente, nos Laboratórios da Farmácia Universitária (FAU) a produção do álcool a 70% INPM está sendo realizada há pelo menos duas semanas, usando mais de 240L de álcool doados pelos diversos laboratórios da universidade. Segundo a diretora da Faculdade de Farmácia Selma Castilho, a fabricação de álcool em gel também está prevista: “no momento a reitoria está buscando viabilizar a aquisição dos insumos necessários para darmos também inicio à produção desse produto”, enfatiza. De acordo com o diretor do LURA, Carlos Peregrino, houve uma rápida e expressiva adesão à iniciativa logo após a divulgação na internet de uma convocação para o cadastramento de docentes e estudantes que quisessem participar: “em 48 horas, tivemos aproximadamente 280 cadastrados da comunidade interna, mostrando que a universidade está mobilizada, mesmo estando todos em suas residências, obedecendo ao isolamento necessário”, comemora. Carlos destacou o apoio irrestrito recebido do reitor Antonio Claudio da Nóbrega e de todas as unidades administrativas para a execução deste projeto. E também estendeu o convite à comunidade externa para a colaboração com a ação: “a UFF já disponibilizou uma conta na Fundação Euclides da Cunha (FEC) para que todos possam nos ajudar a adquirir equipamentos de proteção individual (EPIs) para manter em segurança nossos profissionais de saúde que estão à frente desta batalha”, enfatiza. Segundo o professor do Instituto de Química que também integra o projeto, Pedro Batalha, os alunos, tanto os graduandos quanto os de pós-graduação, têm tido um papel fundamental para que estas iniciativas avancem. “A maior parte pertence à graduação dos cursos de Farmácia, Engenharia Química e Química (Industrial, Bacharelado e Licenciatura), mas há também estudantes de outros cursos se disponibilizando a auxiliar A comunidade universitária está bastante motivada”, destaca. De acordo com o docente, um banco de dados dos voluntários está sendo montado. “Na prática, fazemos uma seleção, de modo a minimizar a exposição e tentar garantir o máximo de fluxo de produção possível. Pessoas que tenham experiências prévias com manipulação de medicamentos, estágios em farmácias de manipulação e com processos industriais (farmoquímica e química) serão estratégicas nesse primeiro momento, mas profissionais de química, farmácia e engenharia química também podem se inscrever. Os interessados em particpar podem preencher o seguinte formulário: https://forms.gle/UvLHkxmMXy4NHjH56”. Para o diretor do LURA, todos esses esforços realizados em diferentes unidades da universidade sinalizam para o quão crucial tem sido a universidade pública no atendimento às necessidades geradas no combate ao COVID-19. “Cada unidade, cada professor, cada aluno, ou técnico administrativo sabe da importância da luta contra essa pandemia. A despeito das dificuldades orçamentárias que nós enfrentamos mesmo antes dessa situação, a UFF se mantém firme no intuito de mostrar para a sociedade, inclusive para o Ministério da Educação, que não desistiremos jamais da nossa missão de ensinar, fazer ciência para todos, com todos e por todos!”, conclui.  
Juntos somos melhores: coordenadores de laboratório do HUAP formam uma rede de colaboradores para viabilizar a confecção de testes de COVID-19Como parte das iniciativas da Universidade Federal Fluminense de engajamento na luta contra o novo coronavírus, uma equipe formada por professores e alunos de pós-graduação do Hospital Universitário Antônio Pedro (HUAP) começa essa semana a confeccionar testes para diagnóstico do COVID-19 em um de seus laboratórios. O projeto surgiu da urgência, frente à expansão do vírus, de o hospital ser independente na produção de laudos em relação a instituições como a Fiocruz e o Lacen - que concentram grande parte da fabricação de testes regional e nacionalmente. “Quando chegar no meio da epidemia, esses resultados não vão chegar a tempo de se tomar decisões rápidas, na beira do leito. Nosso objetivo é salvar vidas”, explica o idealizador do projeto, o professor da UFF e nefrologista Jorge Reis Almeida. a atuação de todos, voluntariamente, durante a pandemia da COVID-19, nos mostra como o trabalho de uma equipe multidisciplinar dentro da universidade, contando com médicos, biólogos, biomédicos e farmacêuticos, pode contribuir para a sociedade. Sinto-me grata pela oportunidade de ajudar", Thalia Medeiros Tito Avelar, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Patologia da UFF. A ideia de formar e capacitar uma equipe para a realização dos testes surgiu após Jorge receber a notícia de internação de um amigo nefrologista, com diagnóstico de COVID-19. “Amanheci com um pensamento fixo: convocar docentes e também alunos de pós-graduação que coordeno no Laboratório Multiusuário de Apoio à Pesquisa em Nefrologia e Ciências Médicas da UFF (LAMAP) para essa frente de trabalho em torno do coronavírus. Rapidamente toda a universidade se mobilizou para ajudar de alguma maneira. Além disso, o secretário de Saúde de Niterói viabilizou a compra de um kit para confecção de cem testes, assim como o diretor do HUAP”, comemora. Andrea Alice da Silva, farmacêutica-bioquímica e vice-coordenadora do LAMAP, que também está à frente da iniciativa, afirma que esses últimos dias que estão antecedendo a testagem laboratorial de biologia molecular têm sido muito intensos. “Estamos fazendo tudo, estudando, e também adquirindo pequenos materiais para a confecção de jalecos, tentando driblar a falta dos EPIs no mercado atual, e transferindo equipamentos de um laboratório para outro. Nós temos colocado em prática temas como biossegurança, recursos humanos, fluxo prático de entrada de amostras, execução dos exames até o laudo e sua liberação. Todas essas etapas e decisões são discutidas, virtualmente, de forma clara e em conjunto também com nosso grupo de professores colaboradores e como nossos queridos e motivados alunos”, destaca. A pesquisadora ressalta o envolvimento de muitas pessoas e instituições nessa grande frente de trabalho na luta contra o novo coronavírus. “Contamos com o apoio do HUAP/EBSERH na aquisição de insumos dos testes laboratoriais, doações de docentes da própria universidade, que nos repassam insumos de seus laboratórios e EPIs. E ainda da Associação de Colaboradores do Hospital Antônio Pedro (ACHUAP), que viabilizou desde mobília até insumos para a adequação da nossa infraestrutura. Somos muito agradecidos a todos que colaboraram. De fato, junto somos muito melhores”. O coordenador do LAMAP também destaca o apoio da equipe da Fundação Oswaldo Cruz, que se prontificou a nos tutorar. Segundo ele, é urgente se formar um “verdadeiro exército de cientistas e não de lutadores”. De acordo com uma das integrantes desse pequeno e gigante exército de cientistas, a biomédica Thalia Medeiros Tito Avelar, doutoranda do Programa de Pós-graduação em Patologia da UFF, “a atuação de todos, voluntariamente, durante a pandemia da COVID-19, nos mostra como o trabalho de uma equipe multidisciplinar dentro da universidade, contando com médicos, biólogos, biomédicos e farmacêuticos, pode contribuir para a sociedade. Sinto-me grata pela oportunidade de ajudar. E acredito que esse trabalho contribuirá para a minha formação não só como pesquisadora, mas também como profissional biomédica e cidadã”, ressalta. Outro participante da iniciativa, o biomédico e mestrando do Programa de Pós-graduação em Patologia da UFF, Renan da Silva Faustino ressalta que o ponto comum em todas as pessoas envolvidas, dentro e fora da UFF, é o desejo de ajudar a salvar vidas. Nesse projeto, ele destaca, “ajudei com a pesquisa de materiais e equipamentos. Para colocá-lo em prática, algumas adequações ainda eram necessárias. Solicitei ajuda a amigos e logo isso virou uma corrente. Recebemos auxílio de muitos laboratórios da UFF. Com a colaboração da comunidade acadêmica e o grande empenho dos professores, assim como dos estudantes do LAMAP, o projeto caminhou a largos passos”, vibra. Apesar de todo o entusiasmo, o coordenador do LAMAP chama a atenção para uma situação que corre paralelamente à pandemia do COVID-19 no país, com consequências também devastadoras para a saúde da população. “Muitos de nossos alunos de pós-graduação estão sem bolsas porque elas foram cortadas. A situação é gravíssima. Estão todos aqui como voluntários. A sociedade precisa compreender que a formação de cientistas, biólogos moleculares, biomédicos é  fundamental nesse processo. Muitas pessoas acham que brincamos de ser cientistas, mas o que fazemos é muito sério. Pensamos no Brasil todos os dias”, conclui.   
UFF inicia sanitização do HUAP e dos campi da universidadeComo parte das ações da UFF no combate à COVID-19, a partir desta segunda-feira, dia 30 de março, será iniciada a sanitização das áreas com maior circulação de pessoas, que incluem os ambientes comuns do Hospital Universitário Antônio Pedro – HUAP, da Moradia Estudantil e do prédio da Reitoria. Em seguida, a universidade se prepara para realizar a limpeza especial em todos os seus campi, incluindo os localizados no interior do estado. A desinfecção ocorrerá em áreas de uso comum, incluindo partes externas, corredores, portões e portarias, com o objetivo de minimizar a progressão da COVID-19. O produto que está sendo aplicado pela Superintendência de Operações e Manutenção (SOMA) é o quartenário de amônio de quinta geração, que foi usado em Wuhan, na China, e que também está sendo utilizado pela prefeitura de Niterói em bairros e comunidades localizadas em diferentes regiões da cidade. O produto não é tóxico para humanos no ambiente e possui uma atividade desinfetante muito eficaz. De acordo com o reitor Antonio Claudio da Nóbrega, toda a universidade está atenta e envolvida em diferentes frentes de colaboração nas mais diversas áreas. “Muito embora nenhuma ação isolada possa debelar completamente a pandemia em nosso meio, esta sanitização especial tem efeito prolongado e reduz a exposição daqueles que transitam por áreas potencialmente contaminadas, reduzindo assim a circulação comunitária do vírus. Apesar disto, é fundamental que todas as pessoas mantenham os hábitos de higiene amplamente divulgados e permaneçam em casa, com o mínimo de contato pessoal durante este período, conforme determinação da Autoridade Sanitária”, enfatizou. A ação de sanitização iniciada pela universidade integra um conjunto de medidas adotadas no controle e combate do novo coronavírus direcionadas aos servidores do HUAP. Entre elas, o transporte dos profissionais da área médica do hospital que residem na Região dos Lagos e na Baixada Fluminense. Além disso, a UFF também está confeccionando máscaras em impressoras 3D para a proteção de profissionais de saúde, assim como produzindo álcool 70 líquido e em gel para atender à demanda do hospital.  
O invisível bate à porta: crise econômica deflagrada pelo novo coronavírus evidencia tradição escravocrata do Brasil, denunciam pesquisadores da UFFFecharam escolas e universidades. Teatros, cinemas, casas de show. Praias, parques públicos e alguns dos acessos à cidade. As pessoas se recolheram para dentro de casas e quase já não se pode mais ouvir barulhos nas calçadas, antes movimentadas e apinhadas de gente. Ainda assim, de tempos em tempos, se escuta o rangido de alguma moto atravessando a avenida em alta velocidade. São eles: os entregadores de serviços por delivery. Passam pelos condomínios deixando refeições sem que ninguém os veja, pois assim é mais “seguro” – invisíveis, como o vírus que todos passaram a temer. Esse poderia ser o trecho de algum livro de ficção científica fantasiado por um escritor no passado remoto da humanidade; pelo contrário, retrata de forma crua a mudança abrupta que se instaurou, em escala planetária, nos modos de organização da vida em sociedade, desde a emergência da pandemia do COVID-19 no mundo. No Brasil, em especial, que tem buscado se adaptar a essa nova realidade, mais recentemente em comparação com outras nações, tem chamado a atenção de pesquisadores uma questão, dentre tantas outras emergentes no momento, sobre as desigualdades estruturais que estão na base da nossa organização social e que sinalizam para como temos, até agora, vivenciado essa situação de crise. O entregador do delivery que chega às nossas casas, se expondo à contaminação e sem receber um adicional de insalubridade por isso, por exemplo, é uma peça-chave para a compreensão desse cenário. Convidados a abrir uma discussão com a comunidade universitária e a sociedade civil sobre o assunto, os professores Roberto Kant de Lima, Pedro Heitor Barros Geraldo, Fabio Reis Mota, Frederico Policarpo e Flávia Medeiros, respectivamente coordenador e pesquisadores do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos da UFF – INCT-InEAC, assim como o professor do Departamento de Economia da Universidade, Ruy Afonso de Santacruz Lima, desenvolveram algumas reflexões em torno do tema. Nas sociedades normalizadas, a previsibilidade é uma característica essencial do funcionamento do mercado e a imprevisibilidade atual abala profundamente seus fundamentos. Já no Brasil, onde o imprevisto é a regra, e o mercado não funciona como nas sociedades ocidentais mais avançadas, seria a solidariedade (como descrito no recente discurso da chanceler alemã Angela Merkel), que poderia alargar esse horizonte de previsão possível. - Equipe do INCT-InEAC De acordo com o grupo de pesquisadores do INCT-InEAC, “a pandemia torna explícita nossa tradição escravocrata ao colocar em risco pessoas e setores mais vulneráveis da sociedade que hoje se encontram numa condição ainda mais precária e perigosa quanto ao seu direto ao trabalho, bem como sua segurança sanitária, já que milhões de trabalhadores e trabalhadoras são obrigados de forma desumana a cumprirem suas jornadas de trabalho, inclusive sem as proteções sociais e sanitárias necessárias nesse momento de crise”. Essa precarização progressiva das condições de trabalho estão relacionadas, como descreve o professor Ruy Santacruz, ao fenômeno de “uberização do trabalho”, que têm atraído muitas pessoas para empregos sem carteira assinada e que constitui uma tendência em todo o mundo, em especial no Brasil. De acordo com o economista, embora condições precárias de trabalho não  sejam exatamente uma novidade no país, o aumento do desemprego muito aceleradamente desde 2013 gerou as condições para a formação de uma grande massa de trabalhadores informais, a exemplo dos entregadores de delivery. O processo de ‘uberização’ do trabalho no Brasil, explicam os professores do INCT-InEAC, “não vem associado ao desenvolvimento dos direitos de cidadania, do exercício do trabalho livre e autônomo, mas, pelo contrário, acentua a precariedade dos direitos trabalhistas e das relações entre patrão e empregado, tornando essa forma ainda algo mais perversa que a da escravidão. Isso porque no sistema escravocrata o Senhor devia, por direito e interesse, assegurar a vida e um relativo bem-estar para a sobrevivência de sua propriedade, de seus escravos. Nessa escravidão contemporânea, esses prestadores de serviço são colocados em uma situação de total desamparo, com a inexistência de segurança trabalhista por parte de seus empregadores e da proteção do Estado quanto ao exercício de seus direitos”, enfatizam. Não haveria, então, “uma estrutura jurídica para garantir um mínimo de direitos comuns a todos os diferentes cidadãos, mas um conjunto de privilégios atribuídos a certos segmentos da sociedade, sejam eles detentores do capital ou trabalhadores. Essa naturalização da desigualdade jurídica é expressão de representações culturais de uma sociedade hierarquizada e, portanto, também referência e suporte para sua reprodução. A pandemia coloca em evidência mais uma vez a naturalização das desigualdades estruturais de nossa sociedade em seus diferentes níveis”. Com esse abismo de condições de vida separando a massa de trabalhadores informais das classes médias e das elites, são também muito distantes entre si as possibilidades de vivência e superação desse período de crise por parte desses grupos sociais. De acordo com a equipe de pesquisadores, “as chamadas medidas restritivas de circulação e a necessidade de praticarmos um ‘isolamento social’ coloca o foco na suposição de que todos temos o exercício de um direito mínimo à moradia, o que não é verdadeiro. O problema habitacional no Brasil faz com que nos deparemos com infraestruturas urbanas altamente precarizadas, como por exemplo, as das denominadas favelas ou ‘comunidades’”. Em contraste, “os segmentos superiores da sociedade, além de poder ficar no conforto de suas casas, podem deslocar-se para as casas de campo e veraneio, se "isolar" com suas famílias. Claro que com toda a estrutura de empregados e serviços à disposição, mostrando a total falta de solidariedade e de compaixão com a situação com os trabalhadores domésticos”, destacam. Além disso, os pesquisadores mencionam as dificuldades impostas às mulheres nessa nova conformação social, como a sobrecarga do trabalho doméstico por parte das mães que tomam conta sozinhas dos filhos. Como efeito perverso desse confinamento, destaca-se o aumento do registro de casos de violência doméstica e de feminicídios, “o que nos faz refletir sobre as condições sociais e emocionais que definem o ‘lar’ e a casa, ambientes vinculados aos papéis sociais das mulheres e que se tornam o principal terreno para a emergência dos conflitos”. Existe também outro fator ressaltado pelos pesquisadores que torna essa situação de crise ainda mais dramática para os trabalhadores informais: a falta de confiança nas autoridades públicas. Somada à falta de proteção no trabalho, gera-se uma significativa limitação da difusão de políticas restritivas compreensíveis para a sociedade. Isso provocaria o descumprimento dessas políticas, “seja por necessidade, seja pela arrogância daqueles que se acham acima da lei e das regras, comum aos segmentos superiores de nossa sociedade. Para complexificar mais ainda o problema, essas medidas se tornaram objeto de disputa política, em um governo federal que se alimenta de crises para fortalecer-se no poder e ocultar seus eventuais descaminhos”. De acordo com o professor de economia Ruy Santacruz, caberia, frente a esse cenário, a adoção em caráter de urgência por parte do governo de medidas como “aumentar o número de famílias atendidas pelo Bolsa Família, dobrar o seu valor, criar um mecanismo de renda extra para trabalhadores autônomos, suspender o pagamento de água, luz, gás e aluguel para trabalhadores de baixa renda (medidas já adotadas pelo governo francês), suspender cobrança de impostos das empresas para evitar que lancem mão de demissões em massa, conceder crédito subsidiado para capital de giro das empresas, entre outras coisas”, ressalta. Já os pesquisadores do INCT-InEAC apontam para a necessidade de estabelecer uma ponte com os políticos profissionais, que seriam capazes de articular os atores sociais indispensáveis para coordenar as ações coletivas. “Esperemos que os senadores, deputados, vereadores, prefeitos e governadores possam estar à altura deste desafio de articular as ações com o apoio de outras instâncias estatais, como o judiciário e os operadores do direito. Afinal, precisaremos dominar a lógica burocrática operada pelos juristas para acelerar processos de aquisição de bens e legitimar medidas emergenciais. Ações da sociedade civil são também importantes, mas necessitam de apoio e coordenação por parte do Estado. O aparato estatal é capilarizado e poderia distribuir melhor os recursos dessas iniciativas”.  Em tom de grande preocupação e também de esperança, a equipe concluiu dizendo que: “o futuro depende de nossas decisões, que produziremos coletivamente agora. Os indicadores comparativos existentes não são positivos. Ainda precisamos avaliar os impactos das medidas sanitárias restritivas e não sabemos se somos suficientemente solidários para evitar uma tragédia humanitária. Devemos considerar que nosso mundo é feito de crises. Vivemos em crises sistemáticas, pois essa foi a opção econômica, política e social que a sociedade ocidental escolheu. Prognósticos para o futuro costumam ser projeções de eventos passados mas, aparentemente, este é um evento – e um vírus – com características desconhecidas. Nas sociedades normalizadas, a previsibilidade é uma característica essencial do funcionamento do mercado e a imprevisibilidade atual abala profundamente seus fundamentos. Já no Brasil, onde o imprevisto é a regra, e o mercado não funciona como nas sociedades ocidentais mais avançadas, seria a solidariedade (como descrito no recente discurso da chanceler alemã Angela Merkel), que poderia alargar esse horizonte de previsão possível. Então, quem sabe iremos acentuar ainda mais nosso fechamento para o outro, com o reforço de ideologias nacionalistas e territorialistas – pautadas pela ideia de que “farinha pouco, meu pirão primeiro” – ou, pelo contrário, iremos produzir um sentido de universalidade da humanidade que confira às práticas sociais um outro modo de fazer a sociedade, fundada na compreensão de que somos uma coletividade planetária. Mas isso, só o futuro nos dirá”, concluem.
Pesquisa da UFF mostra quem são e como vivem os jovens vítimas e também agentes da violência no BrasilO Brasil é considerado internacionalmente como um dos países da América do Sul com os maiores índices de violência, possuindo a terceira maior população carcerária do mundo. Nas últimas décadas, esse fenômeno tem sido atravessado por um aumento crescente dos homicídios de jovens. Os últimos dados disponíveis do país revelam um recrudescimento do problema, observando-se uma evolução, entre 2005 e 2015, de 17,2% na taxa de homicídio de indivíduos entre 15 e 29 anos. Mais de 318 mil jovens foram assassinados neste período, de acordo com o Atlas da Violência de 2017. De acordo com o professor do Instituto de Educação da UFF Elionaldo Julião, coordenador da pesquisa financiada pela Faperj “Trajetória de vida de jovens em situação de privação de liberdade no sistema socioeducativo do estado do Rio de Janeiro”, “o aumento dos homicídios praticados contra os jovens brasileiros cristaliza-se em uma realidade cruel que permeia nosso dia a dia”. Segundo ele, “a violência banaliza-se contra camadas da sociedade excluídas historicamente dos seus direitos sociais”. Embora a discussão sobre violência com jovens não seja um tema absolutamente novo no país, o pesquisador aponta a urgência de desenvolver amplas reflexões sobre a situação e, mais do que isso, políticas de caráter preventivo. Para ele, fazer frente a esse cenário implica poder compreender “a complexidade de ser jovem na sociedade contemporânea, principalmente levando em conta as interseccionalidades vivenciadas pela população das classes populares que ao mesmo tempo é vítima e também autora da violência”. A pesquisa coordenada por Elionaldo surgiu a partir do Grupo de Trabalho e Estudos sobre Políticas de Restrição e Privação de Liberdade no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense, reunindo profissionais e pesquisadores de diversas instituições do estado Rio de Janeiro, com o objetivo de contribuir para o debate sobre educação, justiça, direitos humanos, violência, criminalidade, delinquência juvenil, e políticas de restrição e privação de liberdade. Em 2016 o grupo representou pela primeira vez o Brasil na terceira edição da “Pesquisa Internacional sobre Delinquência Autorrelatada”, coordenada pela Escola de Criminologia e Justiça Criminal da Universidade Northeastern, nos Estados Unidos, passando a integrar a base de dados internacional sobre a vulnerabilidade de jovens em relação à violência. Na edição brasileira, o estudo foi realizado nas redes municipais de educação de Duque de Caxias, Itaguaí, Mangaratiba e Angra dos Reis, assim como também no Sistema Socioeducativo do estado do Rio de Janeiro. Dentre os seus objetivos, procurou analisar elementos das trajetórias de vida e escolar, assim como também práticas dos jovens que fornecessem pistas para a compreensão do ato infracional. Atualmente a pesquisa está numa nova etapa, com a aprovação pela Faperj da segunda parte do projeto: “Trajetórias de vida e escolar de jovens em situação de risco e vulnerabilidade social acusados de cometimento de ato infracional”. Este novo momento do trabalho tem como objetivo entender as possíveis influências das práticas sociais e relações socioafetivas no cometimento de ato infracional por parte desses jovens. De acordo com Elionaldo, “no imaginário social, esses sujeitos são ‘monstros que precisam ser enjaulados e apartados da sociedade’. Mas para nós, pesquisadores e estudiosos do tema, são seres humanos como qualquer outro”. O doutorando em educação pela UFF, Renan Saldanha Godoi, integrante do Grupo de Trabalho e Estudos coordenado por Elionaldo desde 2015 e também participante da pesquisa em curso, revela que, como pesquisador oriundo da periferia carioca e profissional da educação pública, sente-se “mobilizado a entender o fenômeno da criminalização da juventude periférica como forma de alcançar muitos adolescentes e jovens do cotidiano profissional e de pensar estratégias que ampliem as possibilidades para esses sujeitos”. A experiência de Renan com esses jovens antecedeu sua participação no Grupo de Trabalho e Estudos e também sua experiência como doutorando. De 2012 a 2014, ele atuou no Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) acompanhando adolescentes em cumprimento de medidas socioeducativas e teve contato com diversas histórias de vida. Segundo ele, na medida em se aproximou desses sujeitos, “pôde perceber que o ato infracional praticado se configurava muitas vezes como um ‘ponto fora da curva’ de uma trajetória de vida marcada por um conjunto de vulnerabilidades, negligências, violências, e também de resistências, criatividade e superação”. Dessa vivência surgiu seu interesse em aprofundar a discussão no mestrado e, agora, também no doutorado. Renan explica que seu mergulho nesse universo foi tão profundo que ele não se resume mais a um mero objeto de estudo: “tenho um compromisso ético-político em essa realidade. Por isso, tenho o desejo de colaborar com outros estudos e ações que possam dar a devida visibilidade a esses sujeitos que, em geral, só são percebidos pelo Estado e pela sociedade no momento em que cometem um ato infracional”, destaca. Amancia Renata Coelho, pedagoga formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), também integrante do Grupo de Trabalho e Estudos, conta que passou a ter um olhar diferenciado em relação ao mundo, às pessoas e principalmente aos adolescentes que se encontram em situação de vulnerabilidade social após entrar em contato com a realidade deles. Infelizmente, segundo ela, “nossa sociedade é extremamente excludente, seletiva e opressora. As pessoas estão sendo valorizadas na maioria das vezes pelo que têm e não pelo que são”. A pedagoga acredita que é preciso levar a sociedade a conhecer e se familiarizar com esses espaços, que também pertencem a nós como sociedade: “a mídia tem mostrado apenas o lado ruim, mas o que de fato acontece de bom lá dentro? Pouquíssimas pessoas têm acesso a essas informações”. De acordo com Elionaldo, “os dados apresentados na pesquisa revelam uma triste realidade que muitas vezes a sociedade e o próprio poder público resistem a enxergar. Infelizmente, as políticas de restrição e privação de liberdade são temas ainda invisíveis para a sociedade e marginais para a academia. O número cada vez maior de indivíduos reclusos tem sido acompanhado de um crescente sucateamento dos sistemas prisional e socioeducativo. É triste dizer que o Brasil, hoje, infelizmente, é o terceiro país que mais encarcera no mundo e é uma das regiões que mais desrespeita os Direitos Humanos, principalmente da sua população em situação de restrição e privação de liberdade”, enfatiza. Para o pesquisador, a universidade possui uma grande responsabilidade em relação ao tema e precisa investir na área: “avançamos intelectualmente, mas pouco diretamente interferimos na ponta, ‘no chão dos estabelecimentos socioeducativos’. De que adianta este conhecimento, se efetivamente não conseguimos contribuir para o seu desenvolvimento na sociedade? É fundamental que nos responsabilizemos socialmente de forma ética pelo conhecimento produzido pelas nossas pesquisas. Precisamos socializar isso não só nos espaços acadêmicos, mas em toda a sociedade”, conclui. Obs. As fotos foram produzidas como parte do projeto "A nossa visão", que consiste em uma oficina de fotografia coordenada pelo Agente socioeducador do DEGASE Alex Marcos Lima.
A revolução começa na mesa: Projeto da UFF de Hortas Pedagógicas denuncia mazelas da indústria alimentarEducação. Saúde. Trabalho. Moradia. Lazer. Segurança. Alimentação. Esses são alguns dos direitos sociais básicos garantidos pela nossa Constituição Federal de 1988. Ou, pelo menos, deveriam ser. No que diz respeito à alimentação, esse direito pressupõe o acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente para os cidadãos, por meio de práticas que respeitem a diversidade cultural e sejam ambiental, cultural, econômica e socialmente sustentáveis. Buscando fazer eco a esse compromisso, uma equipe do Departamento de Nutrição Social da UFF inaugurou em 2016 um projeto de Horta Pedagógica, na escola municipal Alberto Francisco Torres, em Niterói, desenvolvendo com ela um conjunto de ações de promoção da alimentação adequada e saudável e voltadas para a educação ambiental. Segundo a professora Patrícia Camacho, que coordena o Centro Colaborador em Alimentação e Nutrição Escolar de Niterói (CECANE), “trata-se de um movimento importante de valorização daquilo que é ofertado na alimentação escolar, do alimento in natura e a horta proporciona essa aproximação com a cadeia produtiva do alimento, valorizando o que está sendo plantado. Muitas vezes acredita-se que o que é bom é aquilo que se compra no mercado e vem no pacote. Mas a alimentação escolar é mais natural”, explica. O projeto compreende muitas ações, a exemplo da gestão de resíduos gerados na alimentação escolar. Com as “sobras”, é feita uma compostagem para produção de adubo orgânico, que posteriormente é utilizado na horta. Essa atividade, inclusive, é realizada em parceria com outra universidade, a UFRJ. Professores de outros departamentos também participam do projeto, que possui caráter interinstitucional e interdisciplinar. Márcio Cataldi, professor do Departamento de Engenharia Agrícola e Ambiental da UFF é um deles, desenvolvendo um sistema de irrigação autômato para manter a horta. Segundo ele, “as hortas, quando feitas nas escolas, têm um problema, porque no período de férias às vezes não tem ninguém para cuidar delas. A planta atinge o ponto de murcha, o solo resseca demais e morre. A ideia, então, é tratar a irrigação de forma autômata. Colocamos um sensor de baixo custo, que mede a umidade do solo. Esse sensor fica ligado a uma mangueira e ela só vai ser irrigada quando o solo estiver num determinado nível de umidade baixa. Trabalhar com automação permite que as plantas possam ficar um tempo maior sem ninguém regando”, explica. Também são realizadas oficinas educativas periodicamente na escola, com a participação de bolsistas. A aluna Gabriella Vidal Gonçalves, que cursa o sétimo período de Nutrição, por exemplo, coleciona histórias de aprendizados e descobertas com os alunos: “Fiz uma oficina sobre redescobrir os alimentos e eles adoraram. Vendamos as crianças e cortamos o kiwi, a laranja, a banana... Havia uma resistência a provar o que eles não comiam em casa. Mas na brincadeira, aceitaram provar as frutas. Com essas atividades, o hábito deles muda dentro de casa”. Outras ações realizadas pelo projeto são: a produção de encontros com os professores para identificar temas que possam ser trabalhados em sala de aula e que girem em torno da horta, e também a sensibilização das merendeiras com relação à questão dos resíduos. Para Patrícia Camacho, “é necessário fazer esse mergulho na escola pública brasileira para compreender os desafios que ela traz e poder contribuir. Vivemos um momento de desvalorização do que se faz em setores públicos de um modo geral e a universidade pública tem sido um alvo frequente. Ela tem o papel de levantar questões que interessam ao debate social, como, por exemplo, o direito humano à alimentação. Cabe a nós sensibilizar a sociedade para esse direito, proporcionar o debate e também trazer soluções e é o que temos feito. Aqui se produz muito”. Segundo a professora do Departamento de Nutrição Social Daniele Mendonça Ferreira, também participante do projeto, “o sistema está a favor das indústrias dos alimentos, e nós estamos muito contra esse sistema. Tem todo esse argumento da escolha, mas será que basta saber o que é bom e ruim para a saúde se o ambiente não favorece isso? Existem alimentos da indústria empacotados e também os refrigerantes que recebem subsídios do governo, para tornar o produto mais barato. E a população menos favorecida economicamente frente a isso, tem escolha? Não basta, portanto, a gente incentivar a alimentação adequada e saudável, precisamos agir como uma proteção também”, argumenta. A prevalência da obesidade e de outras doenças crônicas na sociedade aponta também, segundo Patrícia, para uma falsa ideia de que existe escolha possível: “na verdade, as opções estão cada vez menores. Temos muitas embalagens e muitas cores de embalagem, mas os produtos que estão ali dentro são basicamente os mesmos. Não mudam os ingredientes, mas a coloração e os saborizantes. A variedade de frutas, legumes e verduras está diminuindo”, alerta.  Muito engajada com o trabalho desenvolvido na universidade através desse e de outros muitos projetos que levam a bandeira da alimentação saudável e adequada como um direito humano inalienável, Patrícia vai além na sua denúncia à indústria de alimentos: “Precisamos atentar para o fato de que as megacorporações estão destruindo culturas, nos encharcando de agrotóxicos. O contra-argumento, já ultrapassado, é de que o agrotóxico é necessário para viabilizar uma grande produção, levando em conta o tamanho do Brasil. Mas estamos aqui sempre contra, protegendo a saúde dos cidadãos. Estamos constantemente lutando para que a sociedade seja informada, protegida dessas corporações que só visam o lucro. Que os nossos alunos saiam formados com compromisso ético, humano, priorizando a saúde da população”, conclui.
Em noite de comemoração de seus 60 anos, UFF enfatiza compromisso com a sociedadeNesta quarta-feira, 18 de dezembro, a Universidade Federal Fluminense deu início às celebrações de suas seis décadas de existência. Com uma plateia lotada, e a presença de ex-reitores, autoridades políticas, acadêmicas, e o público em geral, a solenidade foi aberta com a fala do reitor Antonio Cláudio da Nóbrega, seguida do concerto gratuito da Orquestra Sinfônica Nacional UFF (OSN). Essa foi a primeira de uma série de atividades comemorativas que marcarão o ano de 2020 em todos os campi da instituição. De acordo com Nóbrega, “essa é uma data extremamente importante porque marca não só o aniversário da UFF, mas a celebração da vida de uma universidade que tem uma relação tão íntima com a transformação da realidade brasileira – em particular, do estado do Rio de Janeiro – através da educação, do conhecimento, da inovação e da inclusão. É um momento de alegria e de reforço da nossa própria identidade como instrumento de avanço do país”. O vice-reitor Fábio Passos ressaltou o crescimento e as conquistas da instituição ao longo desses 60 anos de existência, que culminaram em uma posição destacada frente às universidades do país: “A UFF foi criada da união de cinco outras faculdades, com a missão de formar mão de obra qualificada para o estado e isso se ampliou ao longo do tempo, não só na área de ensino. Resultou na transformação da instituição em uma universidade de grande porte, com uma extensão muito forte, e também voltada à pesquisa, capacitando a gente a estar entre as melhores. Temos hoje não só o maior número de alunos de graduação inscritos, mas também somos uma das melhores do país em ensino, pesquisa e extensão. Temos que celebrar isso!”, comemora.  A Secretária Municipal da Fazenda de Niterói, Giovanna Victer, presente na solenidade, enfatizou o forte impacto da instituição na cidade e a próspera parceria entre a UFF e a Prefeitura: “no nosso país, em que as instituições ainda são muito frágeis e sobram momentos de crise, para a gente é uma honra poder compartilhar uma comemoração de aniversário de 60 anos de uma universidade gratuita, que tem uma relação com a cidade de pesquisa e extensão. Para nós é um privilégio contar com uma instituição como a Universidade Federal Fluminense, especialmente nesse momento onde não só a universidade mas vários setores da inteligência do país têm sido desvalorizados. A Prefeitura Municipal de Niterói têm reconhecido em políticas públicas a importância da UFF”. Convidada de honra do evento, ex-vice reitora e professora aposentada de História, Aidyl de Carvalho Preis destacou sua trajetória na universidade, que se desenvolveu paralelamente ao crescimento da instituição ao longo do tempo: “Comecei na UFF como estudante. Portanto, sou da pré-história, sou de antes da fundação da universidade, e participei, inclusive, da luta de fundação da UFF. Primeiramente fui aluna, depois professora, e também diretora do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia, de 1970 a 1974. Aquele foi um momento muito difícil para o país e as universidades; especialmente, para as ciências humanas e sociais. Mas em 1971, apesar de tudo conspirando contra, nós conseguimos, fundar o curso de Pós-graduação em História. Aydil, que além de docente de História é também uma parte da história viva da Universidade Federal Fluminense, ressaltou a importância de se afirmar e reafirmar o compromisso da instituição com a sociedade: “temos que ser fiéis à nossa missão de formar bem as lideranças de amanhã, comprometidas com a causa social, as transformações, e a criação de um conhecimento que seja útil a todos. É esse o compromisso que a sociedade exige de nós. É a sociedade que investe em nós e temos que retribuir”, conclui.
Patrimônio cultural em risco: pesquisadora da UFF trabalha com preservação de línguas indígenas brasileirasApós a chegada dos europeus às Américas, uma parcela considerável das populações originárias foi dizimada. Esse massacre pode ser descrito não apenas em termos da lastimável perda de vidas humanas, mas também do consequente desaparecimento de todo seu patrimônio cultural: seus saberes, práticas, produções artísticas e, também, de suas línguas nativas. De acordo com a Funai, em 1500, a população de índios no Brasil girava em torno de 3 milhões de pessoas. Dados recentes do IBGE (Censo 2010), indicam que existem aproximadamente 800 mil indígenas, divididos em 305 etnias e com um total de 274 línguas, contra as mais de mil de antes da colonização. As línguas são muito mais do que apenas formas de se comunicar, elas trazem consigo também os saberes que marcam a identidade e o pensamento de um povo - seus traços culturais, conhecimentos ecológicos, imaginário religioso e também sua história e a forma específica de conceber a realidade. A cada língua que morre, portanto, desaparecem também partes do patrimônio cultural e histórico da humanidade. É justamente nesse sentido que preservar as línguas e culturas brasileiras é fundamental. Segundo a professora do Instituto de Letras da UFF, Luciana Sanches-Mendez, “o papel da universidade é essencial na preservação das línguas e das culturas indígenas no país. É no contexto da universidade que são feitos os trabalhos de descrição e documentação e o financiamento público é fundamental para fomentar as pesquisas nessa área”, declara. Em 2017, a pesquisadora, que trabalha com línguas indígenas há 14 anos, aplicou um experimento linguístico de leitura a uma parcela da população Karitiana em Porto Velho (RO), com apoio financeiro da Pró-reitoria de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação (Proppi). O objetivo do estudo foi o de verificar como se dava o processamento de advérbios em falantes da língua Karitiana. “Esse tipo de pesquisa contribui para agrupar as línguas segundo certas características e também para a identificação de universais linguísticos. Se estamos buscando caracterizar o que há de comum entre todas as línguas humanas, precisamos olhar para um universo linguístico amplo. Nesse sentido, a variedade encontrada no nosso país é riquíssima”, pontua. “Eles veem na importância dada a sua língua uma forma de reconhecimento identitário importante, principalmente nos tempos atuais, em que as comunidades são tão atacadas”, Luciana Sanchez-Mendes. Os Karitiana são uma tribo de Rondônia com aproximadamente 320 pessoas e seu idioma é o único remanescente da família linguística Arikém. “Trabalho com eles desde 2005, então, tenho uma certa facilidade em negociar minha presença na comunidade. Nessa última atividade de campo, a novidade foi a metodologia experimental que, diferente das coletas anteriores, exigia uma sala reservada e o uso de computadores. A adaptação, no entanto, foi fácil, já que seu uso  não é mais uma grande novidade na comunidade”, explica. Luciana ressalta ainda a importância que dispositivos eletrônicos podem assumir para a preservação de línguas subrepresentadas e, consequentemente, de parte do patrimônio cultural dos povos indígenas: “a tecnologia tem feito parte do dia a dia da comunidade. Muitos falantes de Karitiana têm smartphones, por exemplo. A utilização dessas ferramentas para a preservação da língua e da cultura representa, portanto, uma grande potencialidade”. Ela ainda acrescenta que “executar um experimento com uma abordagem teórica recente e uma metodologia moderna reforça o reconhecimento dos idiomas nativos do Brasil como línguas naturais que merecem e devem ser investigadas”. Segundo a professora, no caso específico do Karitiana, muitos pesquisadores no país estão estudando seus diversos aspectos linguísticos. “Acho que, para a tribo, esse interesse acabou gerando mais confiança sobre a seriedade do trabalho dos linguistas. No entanto, reconheço que nem sempre é assim”. Os resultados dos estudos realizados pela pesquisadora estão disponíveis na página do Grupo de Estudos e Pesquisas em Linguística Teórica e Experimental (Gepex).  2019: Ano Internacional das Línguas Indígenas A cada ano, a Organização das Nações Unidas (ONU) aborda temas ligados a determinados aspectos relevantes para a humanidade e, em 2019, está sendo celebrado o Ano Internacional das Línguas Indígenas. Por conta da grande diversidade de línguas autóctones, o Brasil é um dos maiores contemplados da comemoração.    “Em consonância com o Ano Internacional das Línguas Indígenas, em novembro, por exemplo, aconteceu no Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) o Seminário Internacional Viva Língua Viva 2019. O evento foi acolhido como projeto pela Associação Brasileira de Linguística (Abralin) e teve o objetivo de discutir e fomentar o desenvolvimento de ações de preservação e revitalização de línguas indígenas e minoritárias. Isso vem acontecendo com a luta de muitos colegas de várias universidades”, destaca Luciana. Segundo a professora, pesquisas com línguas consideradas subrepresentadas contribuem enormemente para a autoestima da comunidade. “Eles veem na importância dada a sua língua uma forma de reconhecimento identitário importante, principalmente nos tempos atuais, em que as comunidades são tão atacadas”, enfatiza. Sanches-Mendez destaca ainda como esse trabalho com culturas diferentes alterou suas concepções de mundo. “Como professora de português e de linguística, a experiência com línguas indígenas ampliou meu repertório e me transformou em uma profissional cada vez mais interessada em estudar diferentes variedades de línguas e em chamar a atenção para essa diversidade. Já como cidadã, hoje entendo melhor a importância de trazer de forma objetiva para a pesquisa brasileira dados que mostram que essas línguas são tão complexas quanto o português e outras línguas naturais e merecem, portanto, ser reconhecidas e respeitadas”. Nesse sentido, Luciana ressalta outro ponto crucial na luta pela conservação das culturas indígenas: a necessidade do investimento público para a continuidade da investigação científica. “A área de humanidades é sempre eleita como alvo nos momentos de contingenciamento de gastos. No entanto, a preservação das línguas e culturas indígenas é urgente e não pode sofrer com essas variações. Mais do que nunca a universidade pública deve assumir um papel de protagonista nos projetos de preservação”, conclui.
Quem são os cegos, afinal? Pesquisa na UFF traz à tona a invisibilidade das pessoas com deficiência  Seis da manhã. O despertador toca. Uma mão vai até o aparelho, desligá-lo. A outra traz para perto o telefone celular. As mensagens são rapidamente respondidas. Alguns passos para fora da cama e, de repente, um encontro com a imagem de si no espelho. Parece que o descanso não foi suficiente. Do banheiro até o armário são poucos segundos: logo se está escolhendo a roupa do dia e, em seguida, o café da manhã. Dez minutos se passam até a porta de casa se abrir e se alcançar o mundo do lado de fora. Outdoors dão notícias dos produtos recém-lançados do momento. Pessoas correm agitadas. É preciso esperar um pouco para se chegar do lado de lá da rua. Essa é uma cena clichê. Poderia ser contada por milhares de pessoas, com poucas variações. Poderia ser repetida de trás para frente. De frente para trás. Mas não pelas pessoas com deficiência. Sobretudo as que possuem pouca ou nenhuma visão, num mundo em que a imagem se constitui como peça-chave para a comunicação e locomoção, a construção de si mesmo e a perpetuação de valores sociais. A pesquisadora e psicóloga cega Camila Alves, integrante do projeto de extensão da UFF “Perceber sem ver”, vive na carne uma rotina como essa, para muitos de nós tão óbvia e familiar, de um modo muito menos ágil e fácil. Muitas são as limitações impostas por um mundo tão pouco sensível às diferenças e à diversidade de corporeidades e subjetividades. Segundo Camila, “o esforço que uma pessoa com deficiência precisa fazer para desenvolver as mesmas atividades que uma pessoa sem deficiência é imenso. Lido com um cansaço real muito sério. O tempo inteiro estou negociando com uma série de impedimentos. Se quero pegar o Uber com um cão guia, tenho que negociar com o motorista, com o desconhecimento da lei... Se quero ler um livro, preciso negociar com o fato de que nem todos os livros que quero e preciso ler existem em formatos acessíveis. Então tenho muitas vezes que entrar em contato com autores e editoras. E invariavelmente muitas coisas que poderiam ser simples acabam se tornando uma missão. Isso é exaustivo, desestimulante, mas é uma realidade que a gente enfrenta”, desabafa. Camila, que também é professora universitária, alterna sua rotina entre a faculdade de psicologia, o consultório e o tempo dedicado ao doutorado, e diz conseguir realizar tantas atividades no dia por ser usuária de um cão guia. Além disso, ela utiliza equipamentos eletrônicos específicos, como o Iphone e o Ipad, cujos programas lhe permitem usar aplicativos de mensagem e leitura de textos. Todos esses recursos, segundo ela, “vão tornando acessível um universo do qual a gente precisa”. Mas ela ressalta que a sua participação no projeto “Perceber sem ver”, desde o primeiro período da faculdade, foi também fundamental para a construção de toda autonomia que possui hoje. O projeto, segundo ela, é capaz de reordenar a vida de uma pessoa: “há uma produção de subjetividade que gira em torno da deficiência, que é absolutamente importante. É um projeto capaz de potencializar a vida de uma pessoa com deficiência, e de mudar a maneira como se lida com ela. Foi uma oportunidade muito grande de me construir uma mulher com deficiência de forma mais potente. Foi também a possibilidade de pertencer a uma comunidade em que pudesse me relacionar e aprender com outras pessoas cegas”, conta. Para a coordenadora e idealizadora do “Perceber sem ver” - em atividade desde 2003 -  Marcia Moraes, “perder a visão é um processo que envolve o corpo como um todo, suas relações com o espaço e com os outros. Há um trabalho a ser feito de reorganização do corpo a partir dos sentidos ativos, que não contam mais com a centralidade da visão”, descreve. Esse trabalho, de acordo com ela, é realizado através das Oficinas de Experimentação Corporal, cujo objetivo é articular deficiência visual e corpo, mobilizando-o com ações de sensibilização. Participam das oficinas pessoas cegas e com baixa visão, adultas, que estão em processo de reabilitação, com a supervisão de graduação, e também do mestrado e doutorado, a exemplo de Camila.  “Pesquisar sobre deficiência é, por um lado, analisar como é que nosso contexto social oprime certos corpos, entre os quais, os deficientes. Mas é também, por outro lado, entender que pesquisar nos convoca a lutar por um mundo mais diverso, por isso mesmo mais justo", Marcia Moraes. Além das oficinas, o projeto também desenvolve ações em escolas públicas e privadas, com o intuito de mobilizar na luta contra as opressões à deficiência. “É uma questão que concerne a todos nós, pessoas com e sem deficiência”, pondera a coordenadora. Ainda mais se for levado em consideração o momento atual, marcado por retrocessos em todas as áreas da assistência. De acordo com ela, “a precarização das condições de trabalho, por exemplo, incide de forma negativa sobre todos nós. Incide, porém, de forma ainda mais violenta nas vidas daquelas pessoas que precisam de transportes acessíveis, de benefícios sociais para estarem nos espaços citadinos”. Marcia explica que o estudo que originou e dá vida às oficinas de experimentação, assim como todas as ações do projeto na sociedade, extrapola o universo acadêmico, constituindo uma forma de estar presente e agir no mundo orientada para a diversidade, igualdade e a justiça. Segundo ela, “pesquisar sobre deficiência é, por um lado, analisar como é que nosso contexto social oprime certos corpos, entre os quais, os deficientes. Mas é também, por outro lado, entender que pesquisar nos convoca a lutar por um mundo mais diverso, por isso mesmo mais justo. Afirmar a diferença e a diversidade como nossa condição é fundamental se quisermos de fato construir um mundo menos desigual”, enfatiza. Nas palavras da psicóloga Camila, “Perceber sem ver” é, “sem dúvida, um espaço de formação. Isso é indiscutível. É um espaço que forma pessoas que vão trabalhar, atuar, pensar, escrever e pesquisar no campo a partir de um modelo social da deficiência, podendo intervir de forma crítica e política nele. Sabemos que no país as estratégias de intervenção nessa área ainda são voltadas para uma perspectiva médica da deficiência, que não condizem com as orientações da Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência”. Além disso, ela acrescenta, “pensar na ameaça que a pesquisa sofre no contexto atual é pensar na redução de um grupo que trabalha na formação de cientistas para atuar no campo da deficiência, de maneira qualificada, séria e com uma sensibilidade analítica. O risco que as pesquisas correm hoje no país é o de se diminuir a discussão, a produção científica acadêmica e de formação de profissionais que vão atuar na área. São as limitações, enfim, que uma sociedade muito pouco sensível impõe. E para lidar com isso é preciso muita criatividade e disposição”, conclui Camila.
Aberta a temporada de premiações na UFF: alunos e professores recebem homenagens No dia 02 de dezembro, a Universidade Federal Fluminense será palco de uma grande cerimônia para homenagear seus professores, estudantes e também egressos dos cursos de graduação com destaque em suas áreas. Realizado anualmente pela Pró-Reitoria de Graduação da universidade (Prograd), o evento “Premiações Acadêmicas” tem como intuito valorizar e divulgar o ensino e a aprendizagem promovidos pela UFF, contemplando três categorias de homenagens: o Prêmio de Excelência em Docência, voltado aos professores com elevado engajamento com o ensino da graduação, a Láurea Acadêmica, destinada a discentes com excepcional desempenho nos cursos, e a Prata da Casa, que homenageia egressos ilustres. De acordo com a pró-reitora de graduação, Alexandra Anastácio, nessa edição a premiação traz uma novidade, estendendo também as homenagens a algumas instituições parceiras da UFF, que têm recebido os estudantes para a realização de estágios profissionais e contribuído para a formação dos alunos. Para Alexandra, um dos objetivos é “poder estreitar laços com as instituições que mais recebem os nossos estudantes, trazendo eles para conhecer a universidade e ressaltando o impacto positivo que geram para os alunos, permitindo uma formação profissional ampliada”, destaca. Além disso, segundo a pró-reitora, “a cerimônia tem como intuito valorizar o fazer docente, assim como toda a trajetória do estudante dentro da universidade. Esse é um momento, enfim, em que a gente pode refletir sobre o nosso quadro docente, como está a formação dos nossos estudantes, e homenageá-los, para que sejam símbolos de sucesso de todos os outros da nossa universidade”, comemora. Prêmio de Excelência à Docência As indicações das Unidades Acadêmicas ao Prêmio foram apreciadas por uma comissão, que analisou a documentação dos indicados com base em critérios dispostos em edital, considerando o histórico de atuação e a dedicação dos docentes ao ensino de graduação. Em sua oitava edição, o Prêmio de Excelência em Docência irá premiar esse ano: 1º lugar – Marcio Cataldi, da Escola de Engenharia: lotado no Departamento de Engenharia Agrícola e Meio Ambiente. Possui graduação em Meteorologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ (1999), Mestrado em Engenharia Mecânica (2002) e Doutorado em Engenharia Civil também pela UFRJ (2008). Atualmente, é coordenador do curso de Engenharia de Recursos Hídricos e do Meio Ambiente da UFF. 2º lugar – Humberto José Bortolossi, do Instituto de Matemática e Estatística: lotado no Departamento de Matemática Aplicada. Possui graduação em Licenciatura em Matemática pela Universidade Estadual de Maringá, Mestrado em Matemática pelo IMPA e Doutorado em Matemática pela PUC-Rio. Atualmente, é coordenador do núcleo presencial em Matemática no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência – PIBID/UFF. Tem se dedicado ao ensino de Matemática e Estatística com o uso de recursos computacionais e à concepção de livros didáticos para o Ensino Médio. 3º lugar – Rosane Santos Mauro Monnerat, do Instituto de Letras: lotada no Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas. Possui graduação em Letras pela Universidade Federal Fluminense – UFF (1974), Mestrado em Letras também pela UFF (1983), Doutorado em Letras (Letras Vernáculas / Língua Portuguesa) pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1998), tendo concluído Pós-Doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (agosto de 2007). Também receberam destaque os docentes Daniel Cardoso Moraes de Oliveira (Instituto de Computação) e Jorge Simões de Sá Martins (Instituto de Física), pelo relevante comprometimento com o ensino e o desenvolvimento de estudantes de cursos de graduação. Para Márcio Cataldi, primeiro colocado no prêmio de excelência em docência, “a homenagem reflete toda a minha carreira desde que entrei na UFF, e minha tentativa de atuar da forma mais indissociável possível nos três eixos que constituem os pilares da universidade: ensino, pesquisa e extensão. O prêmio reflete o quanto isso é relevante para a formação dos alunos e o quanto melhora o ensino e possibilita que a universidade pública ofereça um serviço de qualidade, com a sua hegemonia e independência”, enfatiza. Láurea Acadêmica A Prograd irá homenagear 116 estudantes que se destacaram durante o ano letivo. Entre os alunos laureados, destaca-se a recém-formada em Serviço Social Brenda Luanda Silva Costa. “A graduação na UFF me proporcionou experiências excepcionais, inclusive a participação em grupos de pesquisa e estudo. Hoje posso dizer que sou muito realizada com esse curso e com a universidade. Já estou trabalhando como assistente social na Secretaria de Assistência Social e Direitos Humanos da Prefeitura de Niterói e receber esse prêmio está sendo como encerrar esse capítulo com chave de ouro e que outros se iniciem, porque a minha pretensão é de continuar em contato com a universidade na forma de um mestrado, de um projeto de extensão. Só posso dizer que estou muito feliz por ter sido nomeada para receber esse prêmio”, celebra. Outro homenageado é o estudante de medicina Weydler Campos Hottz Corbiceiro: "Essa premiação é resultado de um trabalho compartilhado. Algumas peças são essenciais para o êxito acadêmico. Os pais, familiares e amigos que vivem juntos os sonhos, as conquistas e as dificuldades da graduação. Os funcionários dos mais variados departamentos que se dedicam e tornam a formação possível. Os professores que são exemplos de resistência, em meio a tantas dificuldades na educação. A UFF, que mostra sua excelência nos três pilares: ensino, extensão e pesquisa. Um prêmio como esse traz ainda a reflexão sobre nosso papel como estudante diante do cenário atual de intensa desvalorização do ensino público. Que nunca esqueçamos que somos frutos de uma educação pública de qualidade e que devemos lutar pela manutenção, expansão e diversidade de sua contribuição para a sociedade”. Prata da Casa Neste ano, o Prêmio Prata da Casa, que homenageia os ex-alunos que se destacaram em suas áreas de atuação, irá premiar os egressos: Allan Deberton, que possui graduação em Ciências Contábeis pela Universidade Estadual do Ceará (2005) e graduação em Comunicação Social - Cinema pela Universidade Federal Fluminense (2010). Allan possui experiência na área de Artes, com ênfase em Cinema e trabalhou com preservação de filmes no Centro Técnico Audiovisual CTAV, Ministério da Cultura (2009-2010). Além disso, dirigiu os premiados “Doce de Coco” (2010), “O Melhor Amigo” (2013), “Os Olhos de Arthur” (2016), que juntos participaram de mais de 100 festivais nacionais e internacionais e conquistaram 49 prêmios. Em 2015, produziu o documentário “Do Outro Lado do Atlântico”, de Márcio Câmara e Daniele Ellery, com estreia no Festival de Havana. Em 2017, coproduziu para a EBC a série de TV “Lana & Carol”, de Samuel Brasileiro e Natalia Maia, e também o longa “Se Arrependimento Matasse”, de Lília Moema. Coproduziu com a Globo Filmes o telefilme "Baião de Dois". Sua mais recente obra foi o filme "Pacarrete", que foi o grande vencedor do 47º Festival de Cinema de Gramado, com um total de oito prêmios, incluindo os principais da competição como "Melhor Filme", “Melhor Direção” (Allan Deberton) e "Melhor Atriz" (Marcélia Cartaxo). E também Pedro Gemal Lanzieri, Bruno Afonso Lagoeiro Jorge e Eduardo Cardoso de Moura. Os três são médicos formados pela UFF, empreendedores e fundadores da PEBMED. São os criadores do Whitebook, o principal aplicativo de conteúdo para a tomada de decisão do médico do Brasil, que já chegou a mais de oito mil conteúdos de 25 especialidades, impactando um total de 360 mil usuários em todo o país. Bruno Afonso conta que desenvolveu, juntamente com seus dois colegas de turma, Pedro e Eduardo, uma empresa que ajuda médicos no apoio à tomada de decisão: “nos formamos na Faculdade de Medicina e criamos uma empresa de tecnologia que cria produtos que auxiliam médicos no dia a dia profissional, para diagnósticos e tratamentos. Temos um produto, que se chama Whitebook, que é hoje a ferramenta médica mais usada no Brasil para decisões clínicas e ajudamos milhares de médicos, impactando a vida de milhões de pacientes. Estamos muito felizes e entendemos que toda a nossa trajetória na UFF como alunos e a influência dos professores ajudou muito a gente a desenvolver esse lado empreendedor  também”. Serviço A cerimônia será realizada no dia 02 de dezembro de 2019, às 18 horas, no Auditório do Instituto de História, Bloco P, térreo, Campus do Gragoatá, Niterói. Confira abaixo a lista dos 116 alunos laureados.  
Filhos com microcefalia: mães são protagonistas na luta contra o Zika Vírus em pesquisa coordenada por professora da UFF  Em 2015 mais de 2 mil casos de microcefalia em recém-nascidos foram identificados em diversas regiões do país, principalmente no Nordeste, após um pico epidêmico do Zika Vírus no início daquele ano. Em função dos impactos devastadores causados nas famílias e nas crianças, no entanto, assim como da proporção com que o fenômeno mobilizou a saúde pública nacional e internacionalmente, ele permanece ainda como um desafio presente. Passados quatro anos, o tema continua sendo investigado por muitas organizações de saúde e pesquisa científica do país e fora dele. A Universidade Federal Fluminense, por exemplo, é uma delas. Através da sua Pós-Graduação em Ciências Médicas e Patologia e da Pós-Graduação em Biologia Parasitária, a instituição integra uma equipe interdisciplinar de pesquisa, constituída por 36 profissionais, entre eles, pesquisadores da Fiocruz e da La Jolla Institute for Allergy and Immunology, da Califórnia. O grupo, que reúne infectologistas, pediatras, neurologistas e radialogistas, entre outras especialidades médicas, tem como objetivo observar se as células de defesa do organismo atuam na proteção contra a infecção ao entrarem em contato com o Zika Vírus. A pesquisa está sendo realizada através da coleta de amostras de sangue de mães que tiveram Zika na gestação e também de seus filhos expostos ao vírus durante a gravidez. Por meio da utilização de diferentes métodos imunológicos de ponta, até o momento foi possível observar nas pesquisas que 100% das mulheres que tiveram bebês assintomáticos e 57% das mulheres que os tiveram com Síndrome da Zika Congênita (SZC) têm células imunes que respondem às proteínas do Zika Vírus. Além disso, com relação às crianças, independentemente de serem acometidas ou não com a SZC, cerca de 70% delas têm células imunes que respondem às proteínas do vírus. Portanto, segundo a coordenadora da pesquisa Claudete Araújo Cardoso, infectologista pediátrica e professora do Departamento Materno-Infantil da UFF, “a maioria das mães e filhos que foram estudados possuem células imunes aptas a responderem ao Zika Vírus, sugerindo assim que desenvolveram boa imunidade ao vírus”.  "As pesquisas são necessárias para esclarecermos as dúvidas e ajudar futuras gerações. Infelizmente, fomos nós as acometidas pela síndrome, ocasionada pela falta de estrutura e política de combate ao mosquito", Mayrielly Wiltgen do Nascimento, mãe de Catarina. De acordo com a coordenadora, “a comunidade científica tem recebido esses resultados com muito otimismo, uma vez que tais achados mostram que se pode desenvolver imunidade contra o Zika Vírus após o contato com ele. Tal resposta tem impacto em nível local e também nacional, pois poderemos orientar as futuras gestantes em relação à proteção conferida por infecção prévia pelo vírus, reduzindo o estresse diante da possibilidade de se ter um bebê com a Síndrome da Zika Congênita”, destaca. Trocando em miúdos, desenvolver imunidade significa que “quando somos infectados pela primeira vez por algum microorganismo que nunca tivemos contato, o corpo reage a ele através do sistema de defesa. Em geral, elimina o microorganismo e, assim, não ficamos doentes. Mas quando esse micro-organismo se multiplica com muita rapidez, não temos tempo de combatê-lo e adoecemos. Sempre há possibilidade de reencontrarmos esse mesmo micro-organismo em algum momento da vida. Portanto, nosso sistema de defesa será capaz de nos defender de forma mais eficiente e rápida, e assim não adoeceremos mais pela mesma enfermidade porque adquirimos imunidade”, esclarece Claudete. A médica pediatra e pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da UFF, Renata Artimos Vianna, também integra o grupo multidisciplinar acompanhando as crianças expostas ao vírus Zika durante a gestação. Segundo ela, o Projeto Zika – Huap/UFF vai além da pesquisa, “principalmente pelo caráter de assistência e informação àqueles que sofrem com a angústia de uma doença debilitante. É importante para o aluno, contribuindo no aprendizado de pesquisa científica, para o paciente, que recebe uma assistência multidisciplinar, para o hospital, que incorpora um serviço de referência e para a saúde pública, colaborando no desenvolvimento de políticas públicas de prevenção e controle de epidemias, como a do Zika. Trabalhar com a professora Claudete e sua equipe é uma experiência única para mim”, destaca. Mas outras pessoas também têm sido fundamentais para a existência e o sucesso da pesquisa, além da equipe multiprofissional envolvida. A coordenadora Claudete destaca a importância da participação das mães no projeto: “essas crianças e suas famílias foram vítimas de uma doença muito grave e todas, sem exceção, têm plena consciência do seu papel como produtores de conhecimento acadêmico. Mais do que simplesmente ‘objetos de pesquisa’, as famílias têm se sentido participantes ativas da produção do conhecimento e esse sentimento me enche de orgulho”, comemora. De acordo com a advogada Mayrielly Wiltgen do Nascimento, mãe de Catarina e uma das integrantes da pesquisa, desde os primeiros meses de vida da filha, a experiência tem sido muito proveitosa: “Os profissionais envolvidos estão de parabéns, sempre nos acolhendo e nos ajudando quando possível. As pesquisas são necessárias para esclarecermos as dúvidas e ajudar futuras gerações. Infelizmente, fomos nós as acometidas pela síndrome, ocasionada pela falta de estrutura e política de combate ao mosquito”. Mayrielly, que só ficou sabendo da condição da filha no momento de seu nascimento, apesar de todas as ultrassonografias realizadas durante a gestação, em que o perímetro cefálico apresentou-se dentro do limite da normalidade, levou um grande susto após o parto: “entrei em luto profundo, luto pela perda de um filho idealizado. Levei mais de um ano para aceitar e tentar voltar, na medida do possível, à minha vida antes do nascimento dela. Aos poucos fui retomando minhas atividades, momento em que percebi que poderia ajudar outras mães na mesma situação, não apenas nas trocas de ideias, mas também na esfera jurídica. Abriu-se, então, uma nova área para minha atuação: o direito das pessoas com deficiência”. Essa foi a maneira, segundo ela, que encontrou para aceitar a condição da Catarina: “claro que às vezes dói, sofro e choro em silêncio, mas passa... E ver a evolução dela é uma experiência marcante. Todos os dias minha filha nos surpreende com sua alegria e vontade de viver!” Juliana Louzada, mãe do Théo Louzada, e também participante da pesquisa, teve uma experiência semelhante à de Mayrielly e só soube que teria um bebê com microcefalia três dias antes do parto: “desde então tudo mudou, surgiram dúvidas, medos e muitos desafios que nunca imaginei que conseguiria superar... Meu filho teve perda da deglutição com três meses de idade, daí tivemos que aprender a lidar com isso. Algum tempo se passou e, como já era esperado, ele não conseguiu se desenvolver conforme sua idade. Substituímos o carrinho de bebê por uma cadeira de rodas”, desabafa. Para lidar com toda essa rotina e os desafios de se criar uma criança com as limitações de uma doença debilitante, participar da pesquisa tem sido fundamental: “logo nos primeiros dias de vida do Théo começamos o acompanhamento dele no projeto. Isso foi bem importante porque descobrimos as alterações que ele possui por conta do vírus. Ter uma equipe ótima que nos ajuda e acompanha em várias questões é muito bom”, enfatiza. Segundo a pediatra Renata Vianna, que conheceu a maioria das crianças ainda recém-nascidas e pôde participar de muitos momentos de alegrias e tristezas, “é maravilhoso vê-las alcançar suas pequenas vitórias pessoais. Torço para que a ciência possa solucionar as perguntas ainda sem respostas, oferecendo soluções para o tratamento e a prevenção da infecção pelo vírus Zika”, conclui.
Projeto da UFF alerta a população sobre os riscos do descarte inadequado de medicamentosNo ano de 2018, o Brasil registrou, segundo o Conselho Federal de Farmácia, 87.794 farmácias privadas e 11.251 drogarias públicas. O número cresce a cada ano e, com ele, o consumo de medicamentos. Mas a discussão sobre o descarte adequado dessas substâncias não parece acompanhar o ritmo da sua produção e distribuição. Pelo contrário. Apesar de já ter sido constatado que o maior impacto ao meio ambiente é causado pelo descarte de consumidores e não pelo processo industrial de fabricação, o Brasil ainda não possui uma regulamentação sobre o recolhimento e o destino adequado de resíduos domiciliares. Na contramão dessa tendência, o projeto de extensão Descartuff, da Faculdade de Biomedicina da UFF, coordenado pela professora de Bacteriologia e Educação Ambiental Júlia Peixoto de Albuquerque, vem trabalhando para conscientizar a população sobre o descarte correto de medicações através de ações nas redes sociais e em eventos científicos abertos à comunidade. O principal objetivo do projeto, segundo ela, é informar a população sobre por que não se pode descartar os medicamentos como lixo comum: “Tem consequências, tem impacto direto na nossa saúde. As pessoas precisam entender que é uma necessidade”, enfatiza. As consequências do descarte incorreto de medicamentos não são poucas e podem ser percebidas não somente na contaminação de solos, lençóis freáticos, águas de rios e oceanos, mas na alteração de algumas formas de vida. De acordo com a professora, “há diversas espécies que estão passando por um processo de seleção. Alguns peixes, por exemplo, estão mudando de comportamento sexual em razão da concentração de hormônio na água”. Além disso, ela reforça, “há o problema das bactérias multirresistentes, que vão se desenvolvendo em grande parte ao descarte incorreto de antibióticos”.  “No cotidiano, com a rotina acelerada em que vivemos, muitas vezes é difícil pensar espontaneamente nos pormenores de algo como ‘jogar remédio no lixo’. Na verdade, existe uma enorme discussão por trás disso” - André Coutinho Apesar de constituir um grave problema de saúde pública, grande parte da população simplesmente parece desconhecê-lo, mesmo nos lugares onde mais se esperaria um cuidado especial com a temática. Júlia relata que ao inaugurar o Descartuff no Instituto Biomédico, por exemplo, chamou sua atenção a falta de informação dos alunos: “as pessoas se assustavam porque não sabiam que não se pode jogar medicamento na pia. Me perguntavam: ‘é sério isso?!’”. O desconhecimento é ainda maior com relação às embalagens dos remédios, que podem necessitar de um descarte especial, dependendo do grau de contato com a medicação. As bisnagas, blísteres e frascos, por exemplo, são as chamadas embalagens “primárias”, que deveriam ter o mesmo destino da medicação propriamente dita. Existem também as secundárias e terciárias, que não foram contaminadas pela medicação. Uma das ações do projeto, inclusive, é a de recolhimento no prédio do Instituto Biomédico de embalagens secundárias. Mas o que fazer, então, com toda a medicação que não é mais utilizada e que se deseja descartar, já que não se pode jogá-la fora no lixo comum ou mesmo atirá-la torneira ou descarga abaixo? Júlia ensina o caminho: “o tratamento adequado que se deve dar a essa medicação é a incineração. Mas não se trata de jogar fogo simplesmente. É uma incineração controlada, serviço que é terceirizado por muitos hospitais e farmácias. Algumas delas são, inclusive, pontos de coleta onde se pode descartar a medicação vencida de uso domiciliar. Existe um site (e-cycle), inclusive, que informa os pontos de coleta da região”. Segundo a professora, esse não é exatamente o cenário ideal: “deveria haver uma rede estruturada de descarte, em que a indústria se disponibilizaria a recolher e receber tudo o que ela joga para a rua, o governo ofereceria um insumo e também uma coleta, e os hospitais trabalhariam como parceiros”, sublinha. Para André Almo de Moraes Coutinho, recém-formado em Biomedicina pela UFF, e que colaborou na formulação do projeto em 2018, participar do Descartuff o despertou para a urgência de se pensar sobre educação ambiental: “assim que iniciamos as pesquisas para alimentarmos e fundamentarmos o projeto, me deparei com uma gama de questões – principalmente as referentes aos impactos do descarte inadequado – que chamaram a minha atenção e me surpreenderam, evidenciando a gravidade do assunto. Num segundo momento, senti que, ao informar terceiros sobre todos esses dados, eu estava contribuindo para um futuro melhor”. André narra um episódio que o marcou bastante durante seu período de atuação mais intensa no projeto, quando realizou um trabalho de conscientização sobre a necessidade do descarte adequado de medicações com funcionários da biblioteca do Instituto Biomédico: “por mais que seja um momento pequeno, foi memorável para mim. Informá-los ali, ao vivo, e vendo suas reações de reflexão e surpresa foi incrível”. O biomédico acredita ser essencial esse trabalho de informação da população: “no cotidiano, com a rotina acelerada em que vivemos, muitas vezes é difícil pensar espontaneamente nos pormenores de algo como ‘jogar remédio no lixo’. Na verdade, existe uma enorme discussão por trás disso”. A coordenadora do Dercartuff ressalta o papel da universidade pública na transformação desse cenário de pouco engajamento das pessoas em questões sobre educação ambiental: “quando se fala nisso as pessoas já pensam em verde, árvore, baleia, artesanato, mas é muito mais do que isso”. Segundo ela, “a universidade existe não só para gerar conhecimento, mas para fornecer esse conhecimento para a população como um todo e formar pessoas que sejam futuramente agentes transformadores nesse processo, reproduzindo e multiplicando o que foi aprendido”. O que não falta é disposição e disponibilidade por parte de Júlia: “Sou uma professora pesquisadora e não uma pesquisadora que dá aula. Gosto de servir para fazer bem ao outro, ajudar as pessoas, e não para eu me sentir bem ou para ser melhor. Se eu estiver aqui sem fazer diferença positiva para alguém, o que estou fazendo, afinal? Simplesmente não tem razão de ser”, conclui.
Ser mãe na UFF: conquistas e desafios na construção de uma universidade de todos e para todosNão é novidade a realidade que mulheres, mães e também profissionais, enfrentam no mundo contemporâneo com suas jornadas triplas de trabalho, alternando-se entre as atividades dentro de casa, com os filhos e no mercado de trabalho. Esse verdadeiro malabarismo que praticam para conciliar universos tão distintos e extenuantes é ainda mais difícil de ser equilibrado se essas mulheres são também estudantes. Atenta a essa realidade, a Universidade Federal Fluminense (UFF), por meio da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), está promovendo iniciativas direcionadas às mães que são alunas da instituição, colaborando na melhora de sua saúde física e emocional. São cinco os eixos de atuação institucional para proporcionar esse respaldo às mulheres: a sensibilização quanto ao acolhimento de mães com seus filhos nos diferentes espaços da universidade, implementando, para isso, uma infraestrutura específica, como os fraldários; o acesso e a manutenção nos programas institucionais de bolsas; a flexibilização de trâmites; o acompanhamento das taxas de retenção e evasão e o mapeamento da saúde mental. De acordo com a pró-reitora de graduação, Alexandra Anastácio, que vem organizando essas ações, em diálogo com alguns coletivos de mães e mulheres, “a UFF é um espaço de pluralidade de ideias e diversidade e assegurar o acesso, a permanência e o sucesso acadêmico de mulheres, sobretudo das mães universitárias, é fundamental para a construção de uma universidade de todos e para todos”, ressalta. Alexandra relata que, em março deste ano, realizou uma roda de conversa com mulheres na graduação, convidando o Coletivo Mães da UFF para uma troca de experiências sobre as dificuldades enfrentadas por mulheres e mães estudantes universitárias: “discutimos as oportunidades institucionais para que a universidade as apoiasse de forma efetiva, além dos desafios de sensibilização da comunidade para este novo perfil de estudante, nos nossos diferentes cursos”, explica. A aluna de antropologia Ayla Vargens de Figueiredo, por exemplo, vem percebendo uma maior preocupação da universidade em oferecer um apoio institucional para essas mães estudantes. Ela é uma das integrantes do Coletivo Mães da UFF, grupo de alunas da universidade que têm filhos, cujo principal objetivo é lutar por melhorias das suas condições no espaço acadêmico, respeitando suas demandas diferenciadas. Além disso, o grupo visa ao apoio mútuo, combatendo o preconceito, conquistando políticas específicas, e garantindo o retorno e a permanência das mães graduandas na instituição. Segundo ela, “atualmente mesmo com a universidade pública sofrendo constantes ataques, a nossa tem se mostrado à disposição para nos escutar e também considerar nossas reivindicações”, observa Ayla. Outro aspecto importante é a parceria estabelecida com o Núcleo Interseccional de Estudos em Maternidade (NIEM), que unifica o trabalho de coletivos e em torno da maternidade de diferentes universidades. Seu principal objetivo é o de criar uma rede de diálogo entre mães pesquisadoras, disponibilizando as produções acadêmicas dessa natureza. Para a graduanda, que participa do coletivo há cerca de um ano, “numa sociedade que pretende ser democrática e preocupada com as gerações futuras, é impossível não estarmos atentos às demandas das mães, que na maioria das vezes exercem o papel de únicas responsáveis pelo bem-estar de seus filhos. A falta de políticas públicas voltadas para elas no ambiente de ensino, saúde e lazer, afeta não só essas mulheres, como toda a geração seguinte”, desabafa. "Elas têm o direito de estar aqui, portanto, têm o direito de cursar as disciplinas, de garantia de condições para se formarem como toda e todo estudante que ingresse em uma universidade pública”, Alessandra Barreto. De acordo com outra integrante do coletivo, a também estudante de antropologia Tatiana Viana de Oliveira, a maternidade não é apenas uma questão privada: “a igualdade teórica entre homens e mulheres deve vir acompanhada de medidas efetivas que protejam e apoiem mães e crianças, já que normalmente as mães é que ficam com a responsabilidade de criar”, argumenta. Considerando questões como essa, a pró-reitora destacou que a instalação de fraldários no bloco A, campus do Gragoatá, e também no bloco H, da Praia Vermelha, foi realizada tanto nos banheiros femininos quanto nos masculinos.  Mesmo reconhecendo algumas dificuldades históricas na conquista de espaços diferenciados para essas mães na universidade, Tatiana faz questão de ressaltar o apoio recebido de algumas pessoas do corpo institucional. A diretora do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia (ICHF), Alessandra Barreto, é uma delas. De acordo com a diretora, o protagonismo dessas mães deve ser apontado: “Devemos parabenizá-las por não desistir, não esmorecer, por construir diálogos e pontes, por incorporar mais vozes que ecoaram sua luta. Elas têm o direito de estar aqui, portanto, têm o direito de cursar as disciplinas, de garantia de condições para se formarem como toda e todo estudante que ingresse em uma universidade pública”. Foi também com o auxílio da diretora que está sendo implantado um espaço infantil nas dependências do instituto, como parte do cumprimento de uma lei, aprovada em 30 de agosto de 2019, que estabeleceu a obrigatoriedade de instalação de espaços infantis para o cuidados de filhos dos estudantes matriculados nas instituições. Alessandra destaca que “o ICHF tem uma história de luta a favor das políticas de acesso e permanência. Acredito que o reconhecimento desse compromisso tenha motivado as integrantes do Coletivo de mães da UFF a nos procurar em meados do mês de setembro para apresentar as dificuldades e a necessidade de criação de um espaço infantil. Ouvimos, acolhemos e apoiamos imediatamente a demanda”. Segundo a diretora, “tanto o colegiado, como os diretórios e centros acadêmicos do ICHF compreenderam a importância deste espaço para a permanência das estudantes mães e aprovaram por unanimidade o pleito. O espaço já está disponível e será administrado pela Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PROAES). Temos certeza de que, em breve, o Coletivo de mães já estará conosco. E esperamos que este seja o primeiro, de outros espaços com a mesma finalidade na UFF”. A psicóloga recém-formada pela UFF, Ana Carolina Padilha, vivenciou algumas dessas dificuldades quando cursava a graduação com a filha na barriga ou nos braços. Para ela, ser mãe estudante na universidade foi um desafio em muitos aspectos: “quando eu estava grávida, consegui conversar com todas as professoras que estava muito difícil para frequentar as aulas. Meus pés inchavam muito e para chegar à faculdade, o caminho que anteriormente eu fazia em 10 minutos, passou a ser feito em 40 minutos. Muitas vezes eu quase desistia de ir por esse motivo, mas ia!”.  Quando sua filha nasceu, foram outros os obstáculos: “precisava levá-la de vez em quando comigo. No início, ela ficava mais quieta e as pessoas aceitavam mais, mas me sentia muito exposta. Meus colegas da psicologia foram muito acolhedores, sempre assegurando que estava tudo bem ela fazer um barulhinho de vez em quando. Além disso, acho que tive sorte de ter tido professoras tão acolhedoras. Por outro lado, até pouco tempo atrás, não se podia entrar com as crianças no Restaurante Universitário. Essa foi uma grande conquista do Coletivo Mães da UFF, que adiantou a vida de muita gente, e é merecido que seja destacado. Quando mães se juntam, podemos mudar o mundo”. Um aspecto importante nas políticas universitárias de acolhimento de mães é que não se destinam somente a quem é estudante da instituição. Iniciativas vêm sendo pensadas e executadas para possibilitar uma melhor adaptação das mães também no seu ambiente de trabalho, como é o caso da concessão de pontos extras na avaliação do currículo de docentes em licença-maternidade, no edital do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) de 2019. A medida visa reconhecer o direito das professoras em função do afastamento legal das funções de pesquisa na universidade. Essa prerrogativa, vale ressaltar, pode ser aplicada a todos os que atendem a legislação, ou seja, gestantes, pais que adotam crianças e também casais homoafetivos. A pró-reitora Alexandra Anastácio sinaliza que as iniciativas da instituição na direção do acolhimento das mães irão seguir sendo implementadas, com a ampliação do seu alcance em diferentes esferas: “Há necessidade de expansão dessa rede de apoio para toda a universidade, não somente Niterói, mas o interior também, abrindo espaços onde essas mulheres possam transitar com as suas crianças”.  Mesmo reconhecendo os empecilhos sociais e institucionais para a execução de mudanças nessa direção, ela enfatiza: “o combate ao preconceito e à promoção da equidade como valores na universidade promove no ambiente interno o senso de justiça e a garantia de oportunidades iguais, independentemente do gênero. Nosso compromisso é consolidar estes valores no projeto de universidade que queremos e também contribuir para que estes valores extrapolem os muros da instituição, promovendo uma profunda mudança cultural de gênero, na qual homens e mulheres se sintam igualmente responsáveis pelo bem-estar familiar, em especial dos filhos, e que o acesso às oportunidades de formação e trabalho sejam de fato iguais para todos”. A diretora Alessandra Barreto também aponta para a continuidade dessas conquistas na universidade e politização dos debates: “Ainda há muito a ser feito. A universidade tem um compromisso com as e os estudantes que ingressam em nossa instituição. As políticas de acesso precisam ser consolidadas a partir de políticas de permanência e esta ação é estratégica para a permanência e continuidade dos cursos pelas estudantes mães. Essas políticas não podem ser encaradas como assistencialismo, porque dizem respeito à construção efetiva de possibilidades para a conclusão desses projetos de vida. A formação universitária não é apenas um projeto individual: envolve famílias, em alguns casos pela primeira vez em gerações; envolve a vida de diversas pessoas. A luta contra as desigualdades e as discriminações deve ser incorporada em nossa prática cotidiana e as soluções precisam ser construídas institucionalmente para que sejam duradouras e eficazes”, conclui. Serviço: Mães alunas interessadas em frequentar o Restaurante Universitário acompanhadas dos filhos precisam assinar o Termo de Responsabilidade, no qual asseguram que não irão alimentar a criança com comida inadequada para a sua idade. Para regularizar o acesso, é preciso se dirigir ao Setor de carteirinhas com a documentação da mãe e da criança.
Quando a sociedade é quem anda doente: pesquisa na UFF investiga sofrimento psíquico em tempos de capitalismo selvagemHá muitas maneiras de acessar um tempo passado ou presente na história da humanidade, com suas formas de existir, de organizar a vida e se relacionar. Uma das chaves para conhecer cada um desses períodos é através dos modos de sofrimento que se produziram nele. A anorexia, depressão e cutting, por exemplo, são os nomes com que identificamos algumas das dores psíquicas que temos vivido atualmente. Ao contrário do que se pode imaginar, elas têm características em comum e colocam em evidência o modo adoecido como temos nos relacionado em sociedade.  Buscando compreender esse cenário, foi inaugurado, em 2011, o Laboratório de Investigação das Psicopatologias Contemporâneas (Lapsicon), sob a coordenação da professora do Departamento de Psicologia da UFF de Volta Redonda, Claudia Henschel de Lima. De lá pra cá, o laboratório, que iniciou suas investigações em torno da psicopatologia do uso de drogas, tem expandido bastante a sua pesquisa na direção dos fenômenos clínicos contemporâneos, numa tentativa de cuidar das formas de sofrimento que temos gerado com nosso modo de viver. Segundo a psicóloga, que também supervisiona uma linha de estágio no Serviço de Psicologia Aplicada da UFF, associada à pesquisa, “começou-se a receber nos últimos anos uma quantidade grande de demandas para tratamento da depressão em mulheres adultas principalmente, tratamento da anorexia, conduta autolesiva, uso de drogas e, mais recentemente, autismo”. De acordo com ela, “o SPA é uma espécie de laboratório no sentido de que ali temos como investigar na singularidade de cada caso quais as conjunturas de desencadeamento dessas psicopatologias e como podemos estabilizá-las ao longo do tempo”, explica. Há uma exigência excessiva que o sujeito atribui a si próprio de estar sempre bem, sempre saudável, sempre conforme as normas sociais", Claudia Henschel. O fio que costura todos esses sofrimentos é, para Claudia, a forma contemporânea de organização social de caráter neoliberal, que impacta diretamente o funcionamento subjetivo das pessoas: “O neoliberalismo tem esse traço que localiza no sujeito a responsabilidade completa pelo destino de sua vida. Com seu fundamento de valorização extrema do indivíduo e quantificação de sua ação, estar bem numa determinada atividade depende única e exclusivamente do quanto você é capaz. Há uma exigência excessiva que o sujeito atribui a si próprio de estar sempre bem, sempre saudável, sempre conforme as normas sociais”. Um exemplo de como isso tem aparecido diz respeito ao sofrimento psíquico estudantil, um dos eixos de investigação do Laboratório. Segundo a professora, “em 2016, começaram a aparecer muitos alunos se candidatando a tratamento e todos tinham uma queixa de estarem com baixíssima concentração nos estudos, de não conseguir entender o que os professores falavam em aula, de olharem para o horizonte de suas vidas e não verem a possibilidade de avançarem em nada. Tivemos algumas situações difíceis no campus e isso chamou a atenção dos meus bolsistas, que vieram me pedir a possibilidade de abrirmos vagas para tratamentos dessas situações dos estudantes. Muitos deles são extremamente preocupados com seu desempenho da universidade, para realizar o ideal que os pais projetaram neles”. O excesso de exigência também aparece, embora de forma distinta, nas práticas de autolesão do sujeito (cutting), quadro cada vez mais frequente nos consultórios e também no SPA. Claudia explica que a autolesão é comum no momento de passagem da infância para a adolescência: “nesse momento uma série de modificações estão acontecendo no funcionamento subjetivo e na própria imagem corporal. O peso muda, a altura muda, os caracteres sexuais secundários aparecem e alteram a estética do sujeito que às vezes seis meses antes era uma criança. Muitas vezes se experimentam as exigências do mundo como uma espécie de experiência de não pertencimento. A equação é: ‘eu não me enquadro, sou culpado pelo mal que produzo em meus pais e se sou culpado, mereço o castigo e então me corto’. O efeito dessa conduta é a de produzir uma dor física que supere a dor da culpa por fazer mal a seus pais”, ressalta. A prática da autolesão também coloca em evidência outro aspecto comum na clínica da contemporaneidade, em que a forma como o indivíduo ataca o seu corpo acaba por colocá-lo vulnerável diante da morte: “o que é a anorexia se não a estetização da morte? O sujeito faz uma cadaverização de seu corpo. O que é o cutting se não a prática de ferir e vilipendiar o corpo? Trabalhamos com sujeitos que fazem uso de 12, 14, 15 pedras de crack por dia. Sabemos que no horizonte desses recursos – à lâmina, a não comer nada, à droga – existe a morte. Clinicamente falando, a temática não é uma exceção, mas a regra. Todos os dias na clínica é dia de prevenção do suicídio”. Para o mestrando em psicologia Thalles Cavalcanti Sampaio, que já participou do Lapsicon como voluntário, monitor e também bolsista de iniciação científica, “um projeto como esse traz à tona a importância da universidade pública para a educação e a ciência. Não é só a garantia de um ensino superior de qualidade, como a prova viva de que, no Brasil, a ciência é desenvolvida dentro das nossas universidades. Estar inserido no Lapsicon me deu a oportunidade de aprender o que é ser um pesquisador hoje no Brasil, o que é uma carreira acadêmica. O Lapsicon me fez querer ser professor, cientista e pesquisador”. O estudante de psicologia Daniel Cavalcante, atualmente estagiário do SPA e bolsista de iniciação científica do laboratório, engrossa o coro: “vejo que a universidade pública é o maior expoente nacional em produção científica e tecnológica, como em nenhum outro ambiente. A UFF transforma não só a minha vida, como a de colegas meus e das pessoas que usufruem dos produtos e serviços dela à comunidade”, enfatiza. Maria Stela Campos, também mestranda em psicologia com passagem pelo Lapsicon, tem uma vivência parecida com a de Thalles e Daniel: “participar do Lapsicon permitiu que eu me reconhecesse como pesquisadora, o que em minha concepção ultrapassa a formação acadêmica. Trata-se de um projeto que atravessa também minha vida pessoal”. Para a coordenadora do laboratório, Thalles, Daniel e Maria não são simplesmente alunos: “eles são meus parceiros de pesquisa”. Segundo ela, ao contrário do que muitos pensam, “a profissão do psicólogo é ancorada em princípios científicos. O estudante não está ali para fazer uma reprodução de saberes; isso ele já fez na escola. Ele está ali para produzir conhecimento. A bolsa de iniciação científica é isso. A bolsa de extensão é isso. A bolsa de monitoria é isso. Essas são as ferramentas que a universidade oferece para a produção de cientistas. Chamo meus estudantes de cientistas em formação”. Apaixonada pelo seu trabalho e pela psicologia, Claudia afirma não se ver fazendo outra coisa na vida: “se tem uma coisa pela qual não me arrependo é ter insistido numa profissão que minha família na época dizia que não iria dar certo. E eu disse: ‘vai dar certo’. Fiz a universidade num momento terrível do país que era prévio à abertura política. Cursei o mestrado e o doutorado o tempo todo acreditando que era possível. Acho que é isso o que transmito aos meus alunos, o ‘é possível’. Eles, por sua vez, transmitem isso aos pacientes”, conclui.
Quando a clínica se transforma em camarim: projeto da UFF recupera saúde bucal e autoestima de mulheres com câncerNum dos mais clássicos contos de fada da humanidade, chamado Cinderela, uma bela e maltrapilha jovem, que tinha a vida controlada pela madrasta, consegue escapar da prisão onde morava para ir ao encontro de um príncipe, em um baile, com a ajuda de sua fada madrinha. Não por acaso, esse é também o nome do projeto da Faculdade de Odontologia da UFF que acolhe mulheres com câncer para o tratamento de afecções bucais e resgate de sua autoestima. De acordo com a idealizadora da iniciativa e estudante de odontologia, Stephanie Souza Almeida, “o nome Cinderela foi escolhido porque teríamos fadas madrinhas que transformariam essa mulher fragilizada em uma mulher princesa”. Mas a ideia é que as transformações perdurem muito além da meia noite, momento em que, no conto de fadas, o encanto é desfeito e Cinderela retorna à sua vida de gata borralheira. Segundo Stephanie, as mudanças são visíveis e também duradouras: “conseguimos tirar muitas mulheres de um quadro de reclusão e depressão. Conseguimos ajudar numa melhor aceitação da doença. Consequentemente, o tratamento progride de forma diferente”. Não se trata de mágica, como no conto original de Cinderela: são muitas pessoas trabalhando para alcançar resultados tão positivos. Quatro vezes ao ano, um grupo de mais de cinquenta alunos voluntários, professores e também assistentes externos, se reúne em um dos prédios de odontologia da UFF para receber essas mulheres, selecionadas após uma divulgação realizada pelos participantes do projeto. Assim que chegam ao local, elas passam por um atendimento odontológico para levantamento de suas principais necessidades e também para que sejam repassadas orientações e informações a respeito de sua saúde bucal. De acordo com Lucíola de Luca, professora responsável pelo projeto, “normalmente, é feita uma profilaxia, fechamento de cavidades, alguns ajustes de próteses, levando em consideração a queixa do próprio paciente. Em relação às demandas que não podem ser solucionadas no período de atendimento de uma hora, buscamos uma vaga em uma das clínicas ambulatoriais da faculdade”, explica. Lucíola enfatiza a importância de haver uma conscientização sobre os prejuízos causados à saúde bucal durante o tratamento de câncer, que são desconhecidos por muitos: “quando você recebe um diagnóstico como esse, a última coisa que você vai pensar é em saúde bucal. Como infelizmente em nosso país nem todo mundo está em dia com os cuidados odontológicos, os problemas que já existem se somam aos que acabam ocorrendo em função do tratamento, causando além de desconforto complicações bastante sérias”. No projeto, após passarem pela fase de tratamento odontológico, as pacientes participam de atividades para trabalhar a sua autoestima, que vão desde maquiagem profissional, até oficina de lenços, onde aprendem a fazer diferentes tipos de amarrações. Além disso, elas se produzem com acessórios, recebem massagem nas mãos, fazem uma sessão de fotos, integram uma oficina de meditação e, ao final, se reúnem em uma roda de conversa, para trocar experiências e fortalecer essa rede de apoio que passam a formar. De acordo com a professora, “nos estudos observa-se como uma boa autoestima influencia positivamente a paciente durante o tratamento. A perda do cabelo, a mudança da cor da pele, as olheiras... Todo esse abatimento leva muitas vezes a um desânimo e a uma depressão que impedem até a continuidade do tratamento oncológico. A estratégia de juntar a saúde bucal com a melhora da autoestima é justamente fazer com que a mulher acredite que é possível ser feliz mesmo em um momento tão difícil”, ressalta. Para a dona de casa Palmira Silva de Brito, que há um ano e meio luta contra um câncer de mama, participar do projeto a ajuda de muitas maneiras. Segundo ela, “o que não pode é ficar apavorado quando se escuta essa palavra e achar que acabou tudo. Com autoestima, amor próprio e alegria de viver, tudo vai dando certo. Além disso, com outras pessoas junto é muito mais fácil do que sozinho”.   Outro braço importante do projeto é o de capacitação de estudantes, por meio de palestras periódicas, para o atendimento a pacientes imunologicamente comprometidos. Lucíola destaca que o mais interessante dessa iniciativa é sua característica de multiplicidade de ações, envolvendo diferentes atores no processo e impactando não somente a comunidade universitária, mas a sociedade como um todo: “ao mesmo tempo em que estamos devolvendo à sociedade todo o investimento que recebemos com um atendimento especializado a uma pessoa que está passando por um momento tão difícil, estamos especializando nosso aluno, preparando um profissional muito mais capacitado e humanizado. Não estamos ensinando somente uma metodologia profissional, mas a lidar com o ser humano num momento frágil, com toda a técnica e conhecimento científico disponível. E isso só é possível numa universidade pública”, arremata. Prova disso é que, no último encontro do projeto, uma das pacientes surpreendeu a todos com um depoimento sobre o acolhimento diferenciado que havia recebido pelos alunos de odontologia. Segundo Lucíola, “ela ficou encantada com a recepção porque ninguém teve medo de tocá-la”. Para a professora, muitos profissionais costumam temer o atendimento de pessoas com câncer, o que se deve, em grande parte, à falta de conhecimento. Por isso, ela reforça a relevância desse tipo de ensino para os estudantes, que “vão sair da universidade capazes de atender não somente o paciente em tratamento oncológico, mas também quem está acometido por qualquer doença crônica, com mais atenção, um acolhimento especial, um olhar mais carinhoso para a população”. Mas não são somente os alunos ou as pacientes que se beneficiam diretamente do projeto. Todas as pessoas envolvidas têm suas vidas igualmente transformadas. Segundo a idealizadora da iniciativa, Stephanie Almeida, “muitas vezes participamos do projeto achando que vamos ensinar alguma coisa para essas mulheres. Na verdade, quando vamos embora, vemos que quem aprendeu foi a gente. A lição que nos dão é a de que não podemos escolher nossos desafios pessoais, mas a forma como iremos enfrentá-los. Isso faz toda a diferença na nossa postura diante dos problemas do dia a dia”, conclui. Inscrições no Facebook: Projeto Cinderela 
Diversão na sala de espera: projeto da UFF estimula leitura de jovens que aguardam atendimento no HuapEsperar por atendimento médico, em clínicas e hospitais, para muitas pessoas é uma experiência de tempo perdido, mas no Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do ambulatório do Hospital Universitário Antonio Pedro (Huap), esse momento é de tempo aprendido. Desde 2017 funciona no hospital um projeto de extensão de estímulo à leitura de livros literários infanto-juvenis, por meio da implantação de um ponto de leitura no ambulatório. Enquanto aguardam ser atendidas, crianças e jovens são convidados a escolherem livros que sejam de seu interesse, com ou sem a participação de seus pais, para ler ou simplesmente folhear. De acordo com a chefe do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental e também coordenadora do projeto, Valéria Pagnin, “é visível a satisfação das crianças durante o tempo de espera para as consultas ao se depararem com muitos livros. Manuseiam, brincam, desenham e ouvem histórias com curiosidade e atenção. Quando incentivadas a ler, elas demonstram interesse e gosto pela leitura”. Segundo ela, o projeto parte do entendimento de que a leitura literária é um direito humano e também um dever a ser defendido pelos serviços de saúde pública, e busca estimular não somente a vontade de ler, mas tudo o que vem a partir dela: a reflexão, a imaginação, a memória, entre outras coisas. “Ler é uma forma de ver e interpretar o mundo, e essa leitura precisa ultrapassar os limites da visão física e auditiva para ocupar também a ótica da fantasia”, ressalta a coordenadora.  A realidade de vida de grande parte dos jovens que frequentam o ponto de leitura, no entanto, não favorece um livre acesso aos livros. De acordo com a professora, “no município de Niterói, por exemplo, menos de 10% das escolas da Rede Municipal possui bibliotecas, embora a Lei 12.244/2010 obrigue todas as escolas a terem uma”. Esse é mais um motivo para que, segundo a professora, “o conhecimento científico esteja a serviço das demandas sociais”. Além de todos esses benefícios proporcionados pelo projeto, que encurta as distâncias entre o livro e alguns jovens frequentadores do Huap, levando até eles histórias, memórias e experiências lúdicas, Valéria destaca ainda um outro: “ainda estamos em fase de avaliação formal e sistemática do programa, mas já conseguimos perceber o impacto das ações de estímulo à leitura, como, por exemplo, o fato de alguns médicos do Huap relatarem que as crianças têm entrado menos agitadas para as consultas”. Colaboradores e parceiros do projeto Todo esse processo de interação com o livro é ainda mais potencializado quando entram em cena professores voluntários ou mesmo os pais que acompanham os jovens, através das contações de histórias: “a leitura oral e a apresentação do livro, com todos os pormenores da sua edição, como o texto, as ilustrações e como ele é produzido até chegar ao leitor, despertam grande interesse das crianças e jovens. O tom com que as histórias são lidas tocam suas emoções e despertam a imaginação”, enfatiza Valéria. Professores do Ensino Fundamental vinculados à Rede Municipal de Ensino de Niterói, assim como aqueles que atuam na rede privada de ensino são convidados periodicamente a participarem do projeto, como ledores e contadores de histórias, mas outras pessoas que se sintam tocadas pela iniciativa também são muito bem-vindas, inclusive médicos e funcionários do hospital. Outro braço do programa, inclusive, é o “Livro Livre no hospital”, destinado aos usuários e servidores que frequentam a recepção do Huap, estendendo-se a alguns setores dos ambulatórios. Alguns exemplares são expostos em mesas e cadeiras de espera, para que sejam abertos, folheados e lidos por aqueles que aguardam atendimento. Além disso, segundo a professora, alunos do curso de medicina também têm demonstrado interesse em participar: “estamos em contato para viabilizar a participação de alguns a partir do próximo semestre como atividade extra-curricular”.  De acordo com a pedagoga e técnica em assuntos educacionais Lílian Silva, também participante do projeto, é possível se envolver de outras formas com a iniciativa; por exemplo, através de doações de livros. “Contamos com o apoio da Associação dos Colaboradores do Huap, que, por intermédio da sua presidente Rita de Cássia Barros, tem doado mesas, cadeiras, livros e brinquedos, que são muito bem aproveitados. Além disso, muitos exemplares são oriundos das bibliotecas populares municipais de Niterói, que se dispõem a repassar livros duplicados. Também contamos com a contribuição de professores, alunos, funcionários, sindicatos, pais, pacientes, médicos, enfermeiros, além de pessoas que tomam conhecimento do projeto”. Para quem quiser fazer doações, Lilian faz o convite: “os livros podem ser depositados diretamente nas estantes, entregues no Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Instituto de Saúde Coletiva e também retirados nas casas das pessoas”, finaliza.
Pesquisa na UFF comprova a desigualdade de rendimentos entre homens e mulheres no BrasilMuitas e inegáveis são as diferenças entre homens e mulheres, desde as anatômicas até as comportamentais. Mas uma diferença, em especial, chama a atenção, num momento em que no Brasil e no mundo se fortalece o movimento feminista e, com ele, as conquistas de direitos negados historicamente. Trata-se das desigualdades de renda entre homens e mulheres, que vêm deixando, cada vez mais, de serem percebidas como “naturais” e absolutas. Esse tema vem sendo objeto de estudo das pesquisadoras Lucilene Morandi e Hildete Pereira de Melo, que coordenam o Núcleo de Pesquisa em Gênero e Economia (NPGE) da Faculdade de Economia da UFF. Voltado para estudos relativos à história dos feminismos, mercado de trabalho, distribuição de renda, trabalho não remunerado, entre outros, o Núcleo atualmente possui como um dos seus principais eixos de pesquisa a investigação acerca do Produto Interno Bruto (PIB) per capita na ótica de gênero. Para as professoras, “a perspectiva de gênero no estudo das relações socioeconômicas constitui uma forma mais consistente de analisar os papéis exercidos pelas mulheres e homens na sociedade, apreendendo as desigualdades e analisando, como um de seus componentes centrais, a assimetria de poder”. Por PIB compreende-se a soma dos valores referentes a bens e serviços produzidos por determinada região, durante certo período. Trata-se do mais importante indicador aplicado em análises socioeconômicas com o intuito de avaliar níveis de desenvolvimento. Já a terminologia “per capita” indica uma média por pessoa de determinado valor. Nesse sentido, o intuito da pesquisa é o de desenvolver uma investigação sobre a riqueza produzida ao longo de determinado período levando em conta os rendimentos do trabalho de homens e mulheres, em território nacional.  Segundo Lucilene, o estudo sobre PIB per capita na ótica de gênero possui como um de seus principais objetivos apresentar como a renda per capita está desigualmente distribuída entre homens e mulheres e como esta desigualdade persiste ao longo do tempo. De acordo com a professora, este é um projeto inovador, não disponível nas estatísticas oficiais, nas quais os dados de rendimento por sexo referem-se apenas ao rendimento médio do trabalho principal, não incluindo outros, de natureza complementar. A ideia é que projetos como esse possam avançar no aprofundamento das relações de gênero, que constituem “o fio condutor utilizado para trafegar entre os cânones estabelecidos pela macroeconomia”, enfatiza.  "As mulheres ainda são minoria em todas as instâncias de poder e de decisão, tanto públicas quanto privadas, e têm rendimentos menores que o dos homens […]”, Hildete de Melo. Apesar do aumento da participação feminina no mercado de trabalho nos últimos vinte e cinco anos, período pesquisado no estudo, Lucilene aponta o quanto se manteve quase inalterada durante esse tempo uma diferença de renda entre homens e mulheres, em prejuízo delas. Segundo ela, “mesmo com o aumento do nível de educação das mulheres (superior ao dos homens no período analisado), da maior participação no mercado de trabalho e do crescimento do rendimento feminino neste período, a renda das mulheres continua a ser menor que a dos homens”. Em outras palavras, “os avanços sociais das mulheres no campo educacional e do trabalho não foram suficientes para construir a igualdade de rendimentos entre os sexos”, destaca. Hildete de Melo complementa dizendo que “as mulheres ainda são minoria em todas as instâncias de poder e de decisão, tanto públicas quanto privadas, e têm rendimentos menores que o dos homens mesmo quando ocupam cargos e têm qualificação semelhante ao dos homens, apesar de toda evolução econômica, social e política no Brasil e no mundo”. De acordo com a professora, essa desigualdade de rendimentos entre os sexos tem relação, sobretudo, com a invisibilidade do trabalho da mulher, com a desqualificação da atividade doméstica, que constitui o tipo mais comum de trabalho não pago. Para ela, “o ocultamento das tarefas domésticas nas estatísticas oficiais de produção e consumo na sociedade, como algo que foge ao escopo da teoria econômica, porque não é objeto de troca/venda na sociedade, foi tratado pelo pensamento feminista como a construção da imagem partida da mulher, de cidadã de segunda categoria. Estas tarefas mantêm uma íntima relação com a situação de inferioridade da mulher no mundo atual”, explica. Em outras palavras, os estudos da teoria econômica, ao não contabilizarem o trabalho feminino no interior das famílias, por não possuir um valor econômico e não ser atravessado por trocas monetárias, subestima as atividades realizadas pelas mulheres e suas contribuições ao bem-estar econômico. Uma pesquisa como essa do PIB per capita na ótica de gênero, portanto, “evidencia que a plena participação das mulheres pode ser visualizada através da eliminação das limitações que as marginalizam ou as tornam invisíveis, seja nas atividades domésticas, seja nas atividades públicas e produtivas”, afirma Hildete. Para além da não aceitação do velho estereótipo do papel feminino e do desmascaramento do trabalho não pago, outra importante conclusão do estudo aponta para como essas desigualdades poderiam vir a ser equilibradas em um cenário futuro. Segundo as professoras, isso dependeria, em parte, da proposição de políticas públicas voltadas para as mulheres, como, por exemplo, o aumento da oferta de creches e escolas de ensino fundamental de tempo integral. Dessa forma, seria possível, conclui Lucilene, “uma maior liberdade de decisão sobre sua vida profissional”.    
Pesquisadores da UFF viajam à Antártica para estudar mudanças climáticas  Não é novidade que fenômenos de variação climática e de aumento da temperatura da Terra, como resultado de uma alteração no equilíbrio atmosférico, têm sido cada vez mais frequentes em todo o mundo. O que nem todos sabem é que outros eventos de transformações radicais na natureza também têm ocorrido, e com uma frequência preocupante, como a elevação do nível do mar e o esvaziamento de lagos. Esse tem sido o caso, por exemplo, do lago Boeckella, localizado na Antártica, local que tem sido frequentado por pesquisadores do Instituto de Geociências e de Física da UFF para investigar essas variações em âmbito planetário. Através de uma parceria com o Programa Antártico Brasileiro e outros centros de pesquisa estrangeiros, como o Instituto Antártico Argentino, algumas expedições são organizadas até a região durante períodos específicos do ano para coleta de dados geofísicos, oceanográficos e meteorológicos, além de amostras de água e de sedimentos do fundo marinho, de lagos, das geleiras etc. De acordo com uma das coordenadoras do projeto e do Laboratório de Processos Sedimentares e Ambientais da UFF, professora de Geografia Rosemary Vieira, “a ideia é produzir resultados que comprovem como o clima variava no passado e como ele está se comportando no presente”. Atualmente, o foco das pesquisas gira em torno do colapso do lago Boeckella. Em expedição realizada no início desse ano, a pesquisadora viajou até o norte da Península Antártica, a convite do Instituto Antártico Argentino, para estudar o local. Segundo Rosemary, “o esvaziamento do lago pode ser o primeiro caso deste fenômeno registrado na Antártica. Os esforços agora estão em realizar uma reconstituição dos eventos que levaram a esse desfecho, além de apurar suas causas, possivelmente associadas às mudanças climáticas e as consequentes alterações na área”. “A imensidão inóspita de gelo nos silencia e faz refletir o quanto somos pequenos e devemos respeitar e nos reintegrar à natureza”, Vanessa Costa Ainda de acordo com a Rosemary, estudar o fenômeno é importante não somente em nível local, mas também global: “As pesquisas realizadas na Antártica são de extrema relevância porque as alterações climáticas no continente influenciam diretamente nos padrões de temperatura e na incidência de chuvas na América do Sul e, por consequência, no Brasil. E a Península Antártica é uma das regiões com os maiores registros de elevação da temperatura nos últimos 60 anos, cerca de 3°C”. As alterações climáticas são cada vez mais perceptíveis e frequentes, para os pesquisadores brasileiros e também de outras partes do mundo que montam acampamento em solo antártico: “a precipitação em forma de chuva está aumentando, as temperaturas estão aumentando, os dias com temperatura acima de 0° C estão aumentando, muitas geleiras estão derretendo e de forma rápida”, enfatiza a geógrafa. Para a doutoranda da Geografia Vanessa Costa, que participa do projeto desde 2010, o trabalho coordenado pela professora Rosemary é um dos que tentam desvendar o quebra-cabeça do passado climático da Terra: “são muitos fatores que envolvem o clima e entendê-los se torna essencial no nosso contexto atual, onde eventos extremos estão realmente ocorrendo. As taxas de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera chegaram a um nível nunca visto antes na história da humanidade. Extremos de frio, calor, chuvas e secas são incontestáveis e acarretam problemas sociais que comprometem populações inteiras. A Antártica parece estar muito longe das sociedades, mas ela é uma parte muito importante do sistema Terra, controlando a circulação oceânica e atmosférica do planeta”, ressalta. Integrar o projeto das expedições à Antártica é, para Vanessa, um grande aprendizado e também uma grande responsabilidade: “primeiro somos treinados pela marinha e fazemos uma bateria de exames. No navio polar temos um médico e um dentista, mas não tem hospital no continente e o resgate é demorado, caso necessário. Por isso, todo cuidado é pouco, principalmente quando estamos em terra trabalhando. Temos que cuidado onde pisamos, se estamos bem aquecido, se alguma parte da roupa molhou... Há casos sérios de necrose devido à umidade a ao frio extremo. Porém, segundo relatos de pessoas que participam há mais tempo das expedições, a Antártica está muito mais quente ultimamente”, acrescenta a aluna.   Já de acordo com Rosemary, um dos maiores desafios das expedições é ter que conviver com as baixas temperaturas, os ventos fortes e também o afastamento dos familiares. “Alguns países, inclusive, como o Chile e a Argentina, mantêm militares em suas bases com suas famílias por todo o ano. Nesses locais há escolas, correios, enfim, toda uma estrutura”, explica. Além disso, “cada expedição tem histórias únicas: tempestades intensas, barracas arrancadas do solo por fortes ventanias, inclusive com pessoas dentro...”. Por outro lado, segundo a professora, “também tem as visões maravilhosas das baleias saltando em frente ao navio, dos pinguins em suas colônias e do eclipse da lua. A cada momento, a Antártica proporciona uma mirada especial”. Os belos eventos da natureza a que a aluna e a professora assistem, nas suas viagens até o continente gelado, não parecem deixar dúvidas quanto à grandiosidade da vida e à urgência em repensar nossos modos de ser humanos: “a imensidão inóspita de gelo nos silencia e faz refletir o quanto somos pequenos e devemos respeitar e nos reintegrar à natureza”, conclui Vanessa.
É preciso coração para fazer uma revolução: projeto da UFF discute urgência de se pensar sobre populações de excluídosHá quem tenha olhos para ver o que quase ninguém vê. Para reconhecer a existência de pessoas mesmo quando, há muito, a sociedade lhes destituiu do direito de serem vistas. Assim é Margareth Martins, professora da UFF de Pedagogia Social, idealizadora do projeto de extensão “PIPAS”, que há 18 anos forma educadores de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. Uma criança nessa circunstância, segundo ela, “é atravessada por várias necessidades, atingida por muitos vetores de exclusão. Então, falamos em vulnerabilidades: a financeira, a material, a afetiva etc”. É nesse lugar sem lugar que a pedagogia social trabalha, explica a professora, lá mesmo onde nem a escola, nem a família e nem a sociedade reconhecem. Margareth iniciou sua trajetória de trabalho com crianças e jovens em situação de vulnerabilidade já nos primeiros anos de formada: “costumo dizer que Pedagogia Social me encontrou”. Foi nesse momento que se deparou com uma dificuldade de aplicar o conhecimento aprendido ao longo de sua graduação à realidade que se apresentava para ela: “Tudo o que tinha estudado até então não me possibilitava compreender como eu ensinava aqueles meninos, que não tinham casa, não tinham sequer espaço sanitário para ser utilizado. Comecei a entender que alguma coisa precisava chegar antes do processo educacional formal para trabalhar com essas crianças”, explica. Esse descompasso entre o conteúdo aprendido e a vida real foi uma das motivações para criar, alguns anos depois, o “PIPAS”. Os alunos na universidade, esclarece ela, “têm uma formação para lidar com uma criança que só existe na teoria. A criança real é outra”. O objetivo do projeto, portanto, é o de formar educadores sociais que possam trafegar por diferentes espaços de sofrimento onde essa criança se encontra: “muitas pessoas dizem que toda pedagogia é social. Ela deveria ser, mas não é. A pedagogia social é a pedagogia da humanidade. Se a gente não percebe isso, vai limitar nossa ação a fechar o diário, dar a matéria, fazer a prova e dar nota, e não é só isso. O sistema capitalista no qual estamos envoltos tem feito com que as pessoas não queiram conviver”. Ex-aluna do projeto “PIPAS” e atual integrante do grupo de pesquisa coordenado por Margareth, a professora aposentada e teóloga Conceição Maria acumulou experiências com crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. Um dos projetos onde atuou como educadora social, com foco na erradicação do trabalho infantil, envolveu a comunidade do Morro do Céu: “comecei esse projeto numa salinha pequena, que depois cresceu muito. Chegou uma hora que tinha quase 300 crianças. Elas tinham uma capacidade tão grande! Por que viver só de catar lixo? Elas cantavam!”. Conceição explica que esse trabalho abrangia não somente acompanhamento escolar, mas o oferecimento de cursos de informática, esportes e lazer. Com isso, segundo ela, “foi sendo criada outra forma de organização na vida deles, de disciplina e respeito um pelo outro, que fez com que muitos deles virassem irmãos. Se você subir aquele morro hoje e fizer uma pesquisa, posso afirmar que não perdemos dez para o crime”. Nascida em bairro pobre, Conceição teve a experiência de viver na própria pele situações de exclusão, que foram determinantes na sua escolha profissional e nos trabalhos que desenvolveu na área. Com uma sensibilidade aguçada para entender o que é está em um lugar de vulnerabilidade socialmente, ela lança perguntas provocadoras: “Parece que a favela é um lugar violento, onde se faz o que não se deve, mas quem vai lá comprar coisas irregulares? Vejo crianças comercializando essas coisas e quem tem poder consumindo. Então quem é mais violento? Eles que vendem? Ou quem compra? Na verdade, essas crianças são praticamente escravas de uma situação que pessoas cultas colaboram para existir”. De forma simples e profunda, Conceição explica as razões que a fizerem escolher estar ali, junto dessas crianças, num lugar tão invisível quanto hostil: “as pessoas não entendem e dizem que esse trabalho é pesado e triste. Mas para mim isso é caminhar junto”. E emenda: “não adianta só pesquisar se você não age. Para que você quer dados se não vai mudar nada?”. Com questionamentos semelhantes, e também provocadores, Margareth faz ecoar a voz da sua companheira de pesquisa e também de vida: “ouço as pessoas dizerem: ‘como você trabalha com isso? Não dá nenhum tipo de pontuação no Lattes’ e respondo falando que é isso o que traz sentido para a minha vida: não trabalho na linha da reprodução, mas da transformação. E um trabalho como esse, que alia teoria e prática, é revolucionário. Tem hora que a gente senta e chora muito. Depois a gente lava o rosto e continua, porque sabe que o trabalho precisa ser feito. Hoje, no ‘PIPAS’, são 375 pessoas participando. E cada um delas é responsável por uma ação social”. Telma Regina, professora e facilitadora social na Escola Anália Franco, onde um dos projetos do “PIPAS” acontece, engrossa o coro das professoras, explicando como a Pedagogia Social se constitui como ferramenta útil para o mundo em que vivemos, por seu potencial de transformação da realidade e sua convocação ao engajamento das pessoas: “constato que a Pedagogia Social veio dar respostas para o momento que estamos vivendo. Ainda vamos ouvir falar muito do facilitador social, esse mediador de excelência. Dirimindo conflitos, contextualizando uma questão muito escassa no homem moderno, que é a fé em si mesmo, a fé no outro, a fé num mundo melhor”. Emocionada, Telma revela o quanto a pedagogia social é para ela mais do que uma profissão, mas uma forma de viver: “a pedagogia social faz a gente marejar. Se você ainda não marejou, marejará. Você acaba crendo no que a ciência mostra, que você é mais água do que qualquer outra coisa. Me sensibiliza, me espiritualiza, no sentido verdadeiro de espiritualidade, que é até citado na conceituação de Dalai Lama. Ele diz que espiritualidade é tudo aquilo que te transforma e aqui você se sente transformado dia a dia”. Com olhos para ver e coração para sentir, Margareth, Conceição e Telma, fazem um convite para um encontro inadiável com a diferença, num mundo onde ela parece não caber em lugar algum, experimentando com-viver com ela: “os cientistas chegaram à conclusão de que o órgão mais inteligente é o coração. Você viu essa pesquisa? Todo mundo acha que pensamos antes de sentir, mas os cientistas descobriram que não, que a sincronicidade é dada pelo coração”, conclui Telma.
UFF se destaca internacionalmente com pesquisas sobre cidades inteligentesJá imaginou uma cidade inteiramente conectada, com seus sistemas de transporte, governança, educação, iluminação pública e energias renováveis operando de forma integrada com os cidadãos? Esse tipo de funcionamento urbano já existe e é chamado de cidade inteligente ou Smart City (SC). Na UFF, sob a coordenação do professor Luiz Satoru Ochi, um grupo de pesquisadores do Instituto de Computação se dedica a estudar esse fenômeno no Brasil e também no mundo, estabelecendo parcerias com diversas empresas brasileiras, como a Petrobras e o IBGE, e com universidades francesas, a exemplo da Avignon Université e da Université de Versailles-Saint Quentim. Segundo Luiz Satoru Ochi, “o conceito de SC envolve a utilização da tecnologia para facilitar o planejamento e a construção de serviços inteligentes para as cidades. Seu maior benefício, portanto, é o de trazer qualidade de vida para as pessoas”. Os encontros do grupo de pesquisadores, formado por professores de diversas universidades brasileiras e francesas, assim como estudantes de pós-graduação, acontecem também na UFF, no Laboratório de Inteligência Computacional do Instituto de Computação da UFF (LabIC). A ciência precisa estar sempre à frente de seu tempo, prevendo adversidades e também propondo soluções”, Elias Lawrence. Nesse espaço, eles têm se dedicado a desenvolver novas tecnologias através de pesquisas acadêmicas e junto às empresas e indústrias, na formação de recursos humanos e no desenvolvimento de novos produtos direcionados à população como um todo. Algumas dessas tecnologias estão voltadas, por exemplo, à melhoria dos setores de serviços públicos e privados do país. Um exemplo é o trabalho desenvolvido por Elias Lawrence, aluno de mestrado do departamento de computação, orientado por Satoru Ochi. O mestrando pesquisa o roteamento de drones com o intuito de encontrar rotas para que os veículos cumpram seus objetivos de forma rápida, econômica e segura. Os drones seriam empregados para inspeção de áreas de risco, em pontes, rede elétricas etc. Segundo Elias, “uma economia que negligencia condições sociais de sua população não pode ser considerada inteligente. A cidade deve saber tudo o que está acontecendo dentro de seus limites, guardando dados sobre trânsito, crimes, desastres... Falta de informação não pode ser um obstáculo para autoridades resolverem os problemas dos cidadãos”. O conceito de Smart City, explica o mestrando, “vai além da crença popular de uma cidade cheia de robôs, como no desenho animado dos Jetsons e em outras ficções científicas. Trata-se de cidades planejadas e tratadas de forma inteligente pelas autoridades, em conjunto com a comunidade científica, visando ao crescimento econômico, mas sem deixar de lado a sustentabilidade”. Outro exemplo possível de utilização da tecnologia para a construção de uma SC gira em torno do problema de desperdício da água potável e de análise de sua qualidade. Algumas empresas já pensam, num cenário futuro, por exemplo, a realização de um monitoramento e gerenciamento de ecossistemas aquáticos inteiros, desde rios e reservatórios até bombas e canos das casas, de modo a conferir informações úteis aos indivíduos; se possível, diminuindo também a demanda. Também pode ser citado o emprego de tecnologia digital para solucionar questões de governança, o que implicaria um melhoramento da comunicação do setor público e incentivaria a população a participar dos processos de tomada de decisão. Os sistemas de votação se tornariam mais eficientes e contribuiriam para um governo mais transparente e responsável. Perspectivas futuras A equipe coordenada por Satoru Ochi tem muitos projetos que, tais como os citados anteriormente, relacionam-se à construção das SC. Dentre os promissores planos para o ano de 2019, por exemplo, está o de inaugurar no Rio de Janeiro uma Escola de Verão para estudantes de graduação e pós-graduação com a temática das Smart Cities. A iniciativa será realizada em conjunto com universidades francesas e terá o apoio dos consulados da França no Rio de Janeiro e em São Paulo. A ideia central do evento é reunir durante uma semana estudantes de graduação e pós-graduação do Brasil, da França e de países da América Latina para a realização de atividades diversas, e em tempo integral, sobre o estado da arte, novas tendências e a importância das SC. No evento, serão convidados alguns especialistas do Brasil, da França e, eventualmente, de outros países, para ministrar minicursos e palestras sobre o tema. Além disso, os estudantes que já atuam na área irão fazer apresentações e abrir discussões entre eles para produzir novas ideias sobre as SC. Para Luiz Satoru Ochi, pensar as SC se faz urgente e fundamental na construção de outro modo de viver e na abertura de uma nova forma de “diálogo entre as cidades e os cidadãos”, e a ciência é um campo fértil para isso. Como explica Elias, entusiasmado com sua pesquisa, “a ciência precisa estar sempre à frente de seu tempo, prevendo adversidades e também propondo soluções”.
Sispro: novo sistema de gestão economizará tempo e recursos para a UFFEm evento realizado no dia 09 de janeiro de 2019, no auditório da Fundação Euclides da Cunha (FEC), foi apresentado à comunidade universitária o Sispro: um inovador sistema eletrônico para a gestão de projetos apoiados pela FEC, desenvolvido pela Pró-Reitoria de Planejamento (Proplan) e a Superintendência de Tecnologia da Informação (STI) da UFF, que visa agilizar a tramitação de projetos da instituição. Essa nova plataforma eletrônica, integrada ao SEI-UFF e, brevemente, ao sistema de informações da FEC, impactará todo o cotidiano da universidade ao reduzir custos e conferir maior transparência das informações. Desde o dia 07 de janeiro, data de seu lançamento oficial, as rotinas para cadastramentos de projetos na Universidade foram modificadas, não sendo mais necessário abrir processos físicos. Entre alguns dos benefícios e inovações do Sispro, destacam-se a modernização da gestão de projetos da Universidade, o aumento da produtividade, um maior controle da gestão e, por fim, uma integração em tempo real com a FEC. “O Sispro representa mais uma etapa fundamental na modernização e aperfeiçoamento dos processos da Universidade, conferindo agilidade, transparência e eficiência à tramitação dos projetos com a FEC. Com menos papel e burocracia, damos um passo importante na direção de uma gestão que valoriza o tempo dos docentes, como foco no desenvolvimento de suas atividades de pesquisa”, ressalta o reitor Antonio Claudio da Nóbrega. Ana Maria Lana Ramos, coordenadora de MBA em gestão de RH da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFF, também destaca algumas das inovações trazidas por essa plataforma. Segundo ela, ao possibilitar o gerenciamento eletrônico de projetos pelas coordenações de cursos, “o Sispro permitirá maior rapidez no encaminhamento de processos e redução de custo por meio da automatização de tarefas”. Já segundo Alberto Di Sabbato, Diretor-Presidente da FEC, “o Sispro significa evolução e aprimoramento da relação entre UFF e FEC no que diz respeito à administração dos projetos apoiados, uma vez que possibilita a efetiva integração dos sistemas. Desse modo, garante-se maior confiabilidade e agilidade às informações e aos processos que transitam entre as duas instituições, o que possibilitará o aumento da inteligência do fazer das equipes envolvidas e, em consequência, da sua produtividade”. Em caso de dúvidas, entre em contato com a Proplan pelo telefone: 2629-5217 ou e-mail: lvalle@id.uff.br.
A importância do afeto na cura de doenças é destaque no curso de Medicina da UFFFisiologia, Patologia, Histologia, Oftalmologia... e Espiritualidade. Essas disciplinas, que podem parecer incompatíveis, à primeira vista, fazem parte de um mesmo currículo, na graduação de Medicina da UFF. Criada em 2017, como fruto de uma parceria entre o urologista e professor da UFF, Genilson Ribeiro, e seu colega médico, Sérgio Felipe, “Medicina e Espiritualidade” é parte de um esforço em incorporar na formação dos futuros médicos um olhar humanizado em relação ao paciente e à possibilidade de ressignificação da doença. De acordo com Genilson, coordenador do curso, “vivemos um momento em que o mais importante é o ter e não o ser. As relações humanas estão deterioradas e isso também se reflete na Medicina e na relação com o paciente. O que estamos procurando ensinar é o resgate dos valores ético-morais esquecidos e a espiritualização das relações humanas”. Ausência de toque, relações mediadas por aparelhos, consultas rápidas e impessoais. Muitos são os elementos que compõem esse cenário descrito pelo professor, frequentemente vivenciado por quem visita consultórios médicos, onde a relação com o paciente se torna cada vez mais distante. A emoção, ponte através da qual o médico se conecta com ele e, também, instrumento fundamental de seu trabalho, sem o qual o diagnóstico se torna um ato puramente mecânico, é deixada cada vez mais à parte. Isso ocorre a despeito de o principal pré-requisito para um profissional de saúde, segundo Genilson, ser justamente a possibilidade de “se sensibilizar com a dor e com o sofrimento de um ser. Muitas vezes, a medicina convencional cartesiana-newtoniana se dedica apenas a tratar o efeito das doenças, ou seja, a sua manifestação física, esquecendo-se do binômio corpo-mente”. Saúde é bem-estar físico, psíquico, social, ambiental, funcional e espiritual, e não necessariamente ausência de doença", Genilson Ribeiro. Nem sempre foi assim. Um passeio pela história da Medicina revela momentos em que o ser humano era enxergado sob uma perspectiva mais integral, tal como nos períodos mais remotos da civilização. Naquela época, explica ele, “a Medicina esteve envolvida no seu aspecto místico e era exercida pelos curandeiros e xamãs”. Também no período clássico, com a escola Hipocrática, o homem era entendido como uma unidade, sendo considerado saudável aquele que possuía um estado mental e físico em perfeito equilíbrio. Posteriormente, passou-se por “um momento de obscurantismo no período medieval, no qual a superstição, o charlatanismo e a ignorância foram responsáveis pelo período tenebroso que a Medicina passou. Somente com o renascimento e a contribuição de Descartes que modificou-se radicalmente o pensamento da época, afastando a ciência da religião e deixando esta última a cargo da Igreja”. O desenvolvimento da Medicina tal qual a conhecemos hoje ocorreu apenas no século XIX, com o auxílio da Mecânica Newtoniana. Naquela época, “o ser humano se assemelhava a uma máquina e a influência da mente não era cogitada em nenhuma hipótese”, explica o professor. Atualmente, vive-se um novo paradigma, com o auxílio da Física Quântica, que estuda os fenômenos relativos às partículas atômicas e subatômicas; dos Campos Mórficos de Sheldrake, que questiona a visão mecanicista; e da Biologia da Crença de Lipiton, que se propõe a explicar como todas as células do corpo são influenciadas pelo pensamento. De acordo com Genilson, “não podemos afastar o efeito da mente sobre a gênese das doenças, tampouco a importância da vontade colocada a serviço da cura, conhecida popularmente como fé”. Ao contrário do que se pode supor, esse enfoque proposto pela disciplina não propõe, como explica o coordenador, a “substituição de uma anamnese detalhada e o contato com o paciente através do exame físico. O que nós fazemos é estimular o estreitamento da relação médico-paciente, pois acreditamos que este seja o seu primeiro ‘medicamento’. Como entender o sofrimento de alguém e auxiliá-lo a se tratar se não nos sensibilizamos com sua dor?”. E esse exercício de contato inicia-se em sala de aula com a discussão, por exemplo, de alguns grandes males da sociedade contemporânea, tal como a depressão, que possui componentes químicos, mas também relacionais e subjetivos. O professor reitera ainda que “há atualmente um aumento substancial dos casos de depressão e o aluno de Medicina está suscetível a desenvolver este quadro. Discutimos, em sala de aula, este fenômeno e buscamos encontrar soluções para o mesmo. Também tem aumentado consideravelmente os casos de suicídio no mundo e nós abordamos este tema, assim como muitos outros envolvendo emoções e sentimentos”. Paralelamente a isso, “enfatiza-se que os pacientes têm que aprender a desenvolver mecanismos interiores de ‘copping’ (enfrentamento) ou ressignificação do adoecimento, procurando o entendimento do sentido da doença na vida da pessoa. Isso está de acordo com a Carta de Otawa, pois a saúde é bem-estar físico, psíquico, social, ambiental, funcional e espiritual, e não necessariamente ausência de doença”, explica ele. Sob essa perspectiva, portanto, o médico não é um mero técnico executor de procedimentos, mas um ser humano, dotado da capacidade de sentir, sensibilizar-se com a dor do outro e, por meio dela, encontrar um caminho para a cura, de forma singular e cuidadosa. A despeito de todos os avanços tecnológicos das últimas décadas no campo da Medicina, da sofisticação diagnóstica, terapêutica e medicamentosa, uma coisa é inegável: o afeto continua revolucionário.
Em parceria com a Itália, UFF garante verba para a criação de serviço de saúde pioneiro no BrasilA UFF sediou, nos dias 29 e 30 de novembro, o Seminário Internacional “Reformas Sanitárias Italiana e Brasileira: trajetórias e perspectivas”, no qual foi debatido o projeto de instalação de uma “unidade de cuidados intermediários” em Niterói, entre outras questões. A iniciativa se deu como parte de uma parceria entre a universidade, a Secretaria de Saúde da cidade e o Serviço Social Sanitário da região de Emilia Romagna, em Bolonha (Itália) e acarretará na captação de uma verba de oitenta mil euros derivada do acordo de cooperação entre os países. Direcionado a pessoas em condições crônicas que agudizaram os sintomas e não têm possibilidade de serem assistidas em domicílio, a unidade oferecerá serviços de assistência para melhorar as condições de cuidado dos pacientes do sistema público de saúde, utilizando basicamente tecnologias leves, voltadas para a reabilitação, com baixo custo e alta eficácia. Para o reitor Antônio Cláudio Nóbrega, “este projeto representa uma importante inovação na rede de saúde de Niterói. Acompanhando a tendência internacional, ele prepara os serviços de saúde para os tempos atuais e futuros, com o aumento significativo da população idosa em relação à população geral, com elevação significativa das condições crônicas. Ele propõe um cuidado mais eficaz na recuperação ao crônico sem a necessidade de internação hospitalar, melhorando a eficiência dos serviços, com a redução de custos nesta atividade”. Dividido em duas frentes, o projeto, além de prestar esse atendimento, por meio de um programa piloto no Hospital Municipal Carlos Tortelly, inclui a capacitação de uma turma de profissionais para atuar nele. A previsão é de que o processo de formação tenha início nos próximos meses. Identificamos uma proposta inovadora para a saúde, que potencialmente tem a possibilidade de evitar internações, reduzindo a utilização de leitos hospitalares e cuidando melhor da população”, Túlio Batista. Segundo o coordenador do projeto e professor do Instituto de Saúde Coletiva, Túlio Batista, este é um processo de “transferência de tecnologia, em que Niterói será contemplada com os saberes e as práticas de uma experiência de cuidado similar na Itália. E em contrapartida, a UFF levará para eles o que nosso sistema de saúde pode oferecer em termos de aprendizado”. Conhecendo os serviços da região de Emilia Romagna, explicou o coordenador, “identificamos uma proposta inovadora para a saúde, que potencialmente tem a possibilidade de evitar internações, reduzindo a utilização de leitos hospitalares e cuidando melhor da população”. Esse serviço de cuidado, mais conhecido como “cuidados intermediários”, seria um ponto de apoio às atividades desenvolvidas na Atenção Básica, na qual não se faz necessária a assistência hospitalar ou paliativa. Para a diretora geral da Secretaria de Saúde da região de Emilia Romagna e uma das palestrantes do seminário sobre reforma sanitária, Kyriakoula Petropulacos, essa é uma parceria muito relevante, através da qual se estabelece uma conexão entre a universidade e o sistema de saúde: “temos uma população muito envelhecida e necessitamos tomar conta dela por meio de cuidados intermediários. Podemos compartilhar os resultados do nosso trabalho e, por outro lado, levar do Brasil todo esse trabalho desenvolvido no campo da educação”. De acordo com Emília, apesar de o Brasil ser um país muito mais novo do que a Itália, ele está enfrentando os mesmos problemas: “Aqui, a população também está envelhecendo e desenvolvendo doenças de caráter crônico. Temos que encontrar opções eficazes de tratamento, fazendo uso da pesquisa para esse fim. Nesse cenário, a colaboração entre Brasil e Itália é importantíssima”. Integrante do Conselho Científico do Centro Internacional de Saúde da Universidade de Bolonha, o professor Ardigò Martino explicou que a rede criada entre os países “facilita as pesquisas nos dois contextos, possibilitando a permanência mais prolongada dos profissionais nos diferentes lugares. Num primeiro momento, isso é um choque, entender as diferenças, se adaptar. Mas, com esse ‘incômodo’, facilita-se o entendimento, por parte dos envolvidos, dessas conexões globais que são determinantes de saúde nos diferentes contextos”.