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Projeto de extensão Mediações e Diversidade Cultural na Biblioteca Parque de NiteróiO projeto de extensão Mediações e Diversidade Cultural na Biblioteca Parque de Niterói é coordenado pela professora Marielle Barros de Moraes do Departamento de Ciência da Informação da UFF, nos cursos de Arquivologia e de Biblioteconomia. No campo da informação, a relação entre os mediadores e os usuários é ponto focal das ações dos profissionais da informação. O projeto tem como norte a relação entre a comunidade de Niterói e os refugiados que vivem na cidade. Escolheu-se a Biblioteca Parque de Niterói (BPN) por ser uma instituição que tem por princípio acolher a todos sem realizar distinção. O espaço da biblioteca acomodará as atividades voltadas aos refugiados, tais como feiras sobre diversidade cultural aproveitando os saberes dos refugiados sobre sua própria cultura a fim de mediar o diálogo e a troca de saberes entre os mesmos e a comunidade de Niterói e a Universidade Federal Fluminense (UFF); exibição de filmes, cursos de Competência Informacional no âmbito da Biblioteca, cursos sobre empreendedorismo para os refugiados, mantendo o diálogo interdisciplinar e interprofissional com o curso de Empreendedorismo da UFF. O projeto terá duração de 9 meses, estendendo-se pelo período entre 2019 e 2020 e objetiva realizar a integração entre os refugiados, a comunidade niteroiense e a universidade, visando garantir um ambiente acolhedor e de respeito às diferenças culturais e atender à Agenda 2030 da ONU. O projeto está relacionado às disciplinas de Responsabilidade Social em Informação, recém-aprovada no Departamento de Ciência da Informação da UFF, bem como à disciplina de Serviço de Referência e Informação do mesmo departamento. Além disso, está vinculada ao projeto de pesquisa que estamos desenvolvendo intitulado Mediação, cultura e tecnologia nos currículos dos cursos de ciências da informação na Ibero-América: repensando um campo científico.
Imigração Venezuelana: a experiência do serviço social (Ministério da Cidadania) na Operação Acolhida - fronteira Brasil - Venezuela. Pacaraima - RoraimaDesde 2015 a Venezuela vem passando por grave crise política e econômica e segundo o ACNUR, em junho de 2019 segundo dados de governos 4.001.917 de nacionais da Venezuela constam como solicitantes de reconhecimento da condição de refugiado, refugiados e residentes em seus sistemas. O Brasil é o quinto país de entrada de venezuelanos e hoje tem aproximadamente 62 mil pedidos de solicitação de refúgio além de mais de 30 mil portadores de visto temporário e um programa de interiorização no país desenvolvido pelo governo e parcerias. O acentuado fluxo de venezuelanos aprofunda problemas relacionados à ínfima estrutura e atenção de políticas públicas à população local o que dificulta a integração e gera a xenofobia. A cidade fronteiriça de Pacaraima e outros municípios em Roraima bem como Boa Vista historicamente apresentam uma renda per capita abaixo da média nacional. Acirradas lutas políticas entre governo do estado e capital e disputas judiciais entre latifundiários e indígenas, uma vez que 70% das terras do estado são indígenas, integram parte da complexa situação que impacta a população refugiada venezuelana indígena e não indígena. A Roda de Conversa objetiva debater esses aspectos a partir da experiência na fronteira em que o diálogo entre a ajuda humanitária e as políticas sociais é atravessado por limites e possibilidades.   A Roda de Conversa será realizada no dia 10 de setembro, das 10h às 17h na sala 414 da Escola de Serviço Social, localizada na Rua Alexandre Moura, 8 - Bloco E - Campus do Gragoatá - São Domingos - Niterói - RJ.
Direitos humanos: UFF revalida diploma de engenheiro refugiadoHá 69 anos, no dia 10 de dezembro, era adotada e proclamada a Declaração Universal dos Direitos Humanos pela Assembleia Geral das Nações Unidas, por meio  da resolução 217 A III, que estabeleceu a proteção universal a todos os cidadãos do mundo. No próximo domingo, quando será comemorado o Dia Internacional dos Direitos Humanos, o sírio Anas Abdulrjab poderá celebrar duplamente, por ter encontrado no Brasil o acolhimento necessário para se refugiar e fixar residência e também pela conquista da revalidação do seu diploma de engenheiro pela UFF. Abdulrjab nasceu na Síria há 32 anos e em 2004 se mudou para a Líbia, onde também se formou em Engenharia de Telecomunicações pela Universidade de Tripoli. Como tantos outros refugiados, que fogem da calamidade, sofrimento, violência, injustiça e discriminação que uma guerra impõe aos cidadãos, Anas viu no nosso país uma oportunidade de sair dessas condições desumanas. O engenheiro chegou ao Rio de Janeiro em 2015, trabalhou em um café e, em seguida, passou a cozinhar quitutes sírios, uma tradição de sua família. Em agosto de 2016, solicitou revalidação de seu diploma, mas a coordenação do curso de graduação em Engenharia de Telecomunicações indicou a realização de estudos complementares, com base na Resolução do MEC Nº 3, de 22 de junho de 2016, que dispõe sobre normas referentes à validação de diplomas estrangeiros. Anas optou por cursar três disciplinas presenciais na UFF,  no primeiro semestre de 2017, ao invés da realização de provas, como oportunidade de estreitar laços com a comunidade acadêmica e adquirir fluência na língua portuguesa. Segundo a professora e coordenadora do curso de graduação em Engenharia de Telecomunicações, Paula Brandão Harboe, o refugiado recebeu um número de matrícula para cursar disciplinas isoladas, frequentou a Escola de Engenharia, assistiu aulas, realizou provas e trabalhos acadêmicos como os demais alunos regularmente inscritos nas disciplinas. “Ele interagiu muito bem com os colegas de turma e professores e foi aprovado com sucesso nas três disciplinas cursadas”, explica. Não se trata de um favor, mas de uma ação institucional com base no direito, no mérito e na solidariedade", Antonio Claudio da Nóbrega. Nesse período, o vice-chefe do Departamento de Engenharia de Produção, Paulo Pfeil, se voluntariou para ser tutor de Anas na universidade, apresentando os campi universitários, as bibliotecas, bandejões e outros espaços da instituição. “Tenho muito orgulho de ter feito parte desse processo. Do ponto de vista humanitário e social, essa iniciativa da universidade foi um marco muito importante”, destaca. Segundo o professor, o engenheiro sírio também foi aceito em várias universidades do continente europeu, mas os países não lhe concederam o visto. “O Brasil foi o único país que me acolheu. Na UFF, recebi muito apoio da administração, dos professores e dos outros alunos. Realmente fui bem acolhido nessa universidade, que simplificou o processo para eu revalidar o meu diploma. Só tenho a agradecer essa oportunidade”, afirma Anas. Na opinião de Pfeil, o engenheiro sírio possui uma formação acadêmica de alto nível e uma vasta bagagem cultural. "Anas é fluente em árabe, inglês e agora português. A universidade também ganha tendo um aluno com esse perfil em sua comunidade universitária e o mercado de trabalho com certeza se abrirá para recebê-lo, já que há grandes oportunidades profissionais no nosso país na área de Engenharia de Produção”, ressalta. Segundo o vice-reitor da UFF, Antonio Claudio da Nóbrega, é importante abrir as portas da universidade para os refugiados que enfrentam as mesmas dificuldades profissionais de Anas. “Assim como todos que passam por uma guerra, o engenheiro sírio precisava encontrar a paz e ter seus direitos respeitados para seguir em frente na sua área. Não podíamos cruzar os braços e sermos insensíveis à situação dele, que superou as fronteiras continentais em busca de seu sonho. Não se trata de um favor, mas de uma ação institucional com base no direito, no mérito e na solidariedade. Estamos felizes em poder contribuir com sua nova realidade”, conclui.
Acolhimento a refugiados é destaque em projeto da UFFO último relatório “Tendências Globais” do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur) apresentado pela ONU registra que 65,6 milhões de pessoas saíram de seus territórios de origem por perseguições e guerras, sendo mais de 300 mil só no último ano. O documento enfatiza também que uma em cada 113 pessoas em todo o mundo foi forçada a se deslocar - número superior à população do Reino Unido. O Acnur aponta ainda que metade dos refugiados são crianças e que 75 mil delas solicitam refúgio. Na maioria das vezes, elas viajavam sozinhas ou separadas de seus pais. Segundo dados do Comitê Nacional para Refugiados (Conare), o Brasil possui atualmente 8.863 refugiados de 79 nacionalidades diferentes. Além destes, outras 25,2 mil pessoas aguardam julgamento do status de refugiado. Na comparação com dados de 2010, o aumento de refugiados reconhecidos é de 127%. Dentre esses, a nacionalidade com mais representantes é a Síria (2.298), seguida por angolanos (1.420), colombianos (1.100) e congoleses (968). Consciente dessa cruel realidade, no último dia 20 de junho, a Escola de Serviço Social (ESS UFF) celebrou o Dia Mundial do Refugiado. Segundo a coordenadora do Laboratório de Políticas Públicas, Migrações e Refúgio, professora Ângela Magalhães Vasconcelos, a iniciativa teve como objetivo dar visibilidade à coragem e à resiliência de pessoas refugiadas, que foram obrigadas a se deslocarem por diversos motivos: conflitos, guerras, perseguições e graves violações dos direitos humanos. O evento reafirmou a necessidade da elaboração de políticas públicas eficazes que priorizem o acolhimento, a proteção e atendam às múltiplas demandas destas pessoas, qualificando-as como cidadãos autônomos e portadores de direitos civis e políticos. Os refugiados, segundo  Ângela, deixam seus países de origem de várias maneiras que podem incluir, além do pagamento efetuado aos coiotes (pessoas que cobram para atravessar emigrantes irregulares), também a submissão às práticas violentas diversas impostas pelos traficantes humanos, já no novo país. A data também serviu para sensibilizar sobre uma temática real, que envolve pessoas, perdas e traumas, bem como chamar atenção sobre o crescimento dos fluxos migratórios de homens, mulheres e crianças, que apontam para uma endêmica pobreza apátrida, muitas vezes consequência também dos efeitos climáticos. Na entrevista a seguir, a professora Ângela Vasconcelos, fala sobre o laboratório e políticas públicas para os refugiados.   Quando surgiu e quais são os projetos desenvolvidos pelo Laboratório de Políticas Públicas, Migrações e Refúgio? O laboratório foi formalizado como grupo de pesquisa no CNPq em março de 2017, após três anos de estudos. A partir da realização de um evento na ESS, no início de 2014, com  participação de alunos de sociologia e de relações internacionais sobre o Haiti e o refúgio no Brasil. Aproveitei a estada do pesquisador haitiano, Franck Seguy, da Université d'État d'Haïti, para aprofundar estudos sobre as condições de vida de seu povo e a história do país. Daquele momento em diante passei a participar de grupos de estudos sobre migrações e refúgio, legislações específicas do direito internacional, dos refugiados e direitos humanos. De que forma o laboratório articulou seu trabalho? Por meio do projeto “Políticas Públicas, Migrações e Refúgio”, onde contamos com duas linhas de pesquisa: uma ligada à política de assistência social, migrações e refúgio, com pesquisa comparada, em territórios específicos onde se concentram pessoas refugiadas de quatro municípios do Estado (Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo e Duque de Caxias) e a outra sobre as políticas públicas para mulheres refugiadas no Brasil e na América Latina. Parte dessas mulheres foge por conta da violência de gênero e ainda assim as enfrentam no caminho e na chegada, em outros países e territórios. Além disso, desenvolvemos ações de ensino, pesquisa e extensão no laboratório com o objetivo de problematizar a temática das migrações e refúgio, gerando processos e produtos que subsidiem, em curto e médio prazos, ações e políticas públicas descentralizadas, singulares e com qualidade, em especial à assistência social. Há programas assistenciais governamentais para refugiados? Existem programas específicos na rede pública. Entre 2012 e 2013 elaborei um projeto de pesquisa sobre os Programas de Transferência de Renda no Brasil, especificamente o Programa Bolsa Família (PBF). Na ocasião, verifiquei que não havia registro específico no CADÚnico (cadastramento de pessoas de baixa renda para serem beneficiadas por programas sociais) sobre os solicitantes de refúgio ou refugiados. Era um momento em que o mundo e o Brasil observavam um aumento nos fluxos migratórios. Essa realidade continua. Para se desenhar políticas são necessários números e apesar de termos dados sobre pessoas refugiadas da Polícia Federal, IBGE, Conare e aqueles repassados por instituições não governamentais, eles não estão refinados e são insuficientes, principalmente nos municípios e suas regiões. O estado do Rio de Janeiro está preparado para atender aos refugiados? Os refugiados vêm sendo atendidos nas redes públicas de saúde, educação, etc. Entretanto, como todos nós, enfrentam também a precarização dos serviços públicos. Isso tudo agravado pelos problemas na comunicação, pois muitos ainda não dominam a língua portuguesa. Há demandas peculiares que apresentam em virtude dos motivos que os trouxeram para cá e pelo fato de muitos funcionários públicos desconhecerem os direitos dessas pessoas. Existem raríssimas prefeituras investindo em processos de qualificação de gestores e servidores para atender aos refugiados. A questão da moradia também é um sério problema pelo alto custo. Muitas pessoas acabam dividindo o aluguel de espaços pequenos, forçando a migrarem cada vez mais para as periferias, onde os aluguéis são mais baratos. Além disso, eles acabam participando de movimentos por moradia. Isto aparece bem claro no filme “Era o Hotel Cambridge”, de Eliane Caffé. Enfim, a vulnerabilidade também gera integração. Como a UFF está lidando com as demandas dos refugiados? A UFF tem docentes de diferentes cursos desenvolvendo estudos e pesquisas com produções muito qualificadas sobre migração, refúgio e direitos humanos ou que incidem direta ou indiretamente sobre o tema. Acredito ser possível, num futuro próximo, a construção de uma política institucional voltada especificamente ao acesso de solicitantes de refúgio, refugiados, portadores de visto humanitário e apátridas. As dificuldades de ingresso de refugiados no ensino superior são enormes, pois eles não possuem recursos financeiros, documentos, passaram por situações traumáticas, mas têm direito à educação, qualificação e trabalho. Como a população vem acompanhando a chegada dos refugiados em solo brasileiro? De um lado se observa uma xenofobia aos muçulmanos, porque há uma ideia de que eles disseminam terrorismo. Também há o preconceito racial em relação aos negros. Não necessariamente à condição de refugiado. Isto demonstra o quanto o negro é rejeitado na sociedade brasileira. De outro, vejo e vivencio o acolhimento e o compromisso da integração com autonomia e respeito aos aspectos multiculturais. Ainda ouço e vivencio situações de (re)vitimização das pessoas em relação aos refugiados, mas eles têm direitos, compromissos e efetivamente são capazes, com acolhimento, proteção e acompanhamento, de seguir em frente e de construir novas histórias. O que pode ser feito efetivamente para mitigar as consequências desse quadro? Acredito na função social e política das universidades, com destaque para as Instituições Federais de Ensino Superior (Ifes), que devem desenvolver mecanismos de inclusão diferenciados considerando as condições singulares destas pessoas. Creio que na UFF podemos repensar o processo de revalidação de diplomas de graduação e pós-graduação, criar vagas suplementares nas graduações e nas pós-graduações e potencializar os estudos complementares. Podemos oferecer a esses imigrantes vulneráveis, por meio da extensão universitária, entre outros, o curso de português para estrangeiros, apoio psicológico e assessoria e acompanhamento de processos e demandas jurídicas. Através dos projetos e programas já existentes, como o Prolem (curso de línguas), o SPA (assistência psicológica) e o Cajuff (assistência jurídica), isso me parece viável.
Vida de refugiados sírios no Rio é tema de pesquisa na UFF de Angra dos ReisDesde 2011, com o início dos conflitos na Síria, o mundo vem acompanhando o drama enfrentado pela população do país. A maior parte das pessoas que deixa a região devastada pela guerra busca refúgio em nações vizinhas ou europeias, onde frequentemente são recebidas com hostilidade e xenofobia. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), agência da ONU para refugiados, até 2016, em torno de 4,8 milhões de sírios foram recebidos em países próximos, enquanto cerca de 900 mil migraram para a Europa, muitos deles arriscando a vida atravessando o Mar Mediterrâneo. O Brasil também participa dos esforços para abrigar os refugiados de guerra. Desde 2013, consulados e embaixadas brasileiras no Oriente Médio emitem vistos especiais e simplificados para permitir que sobreviventes do conflito venham para nosso país. Já são cerca de 2.100 (refugiados) imigrantes sírios vivendo por aqui. A professora de Antropologia Miriam Alves de Souza, do Instituto de Educação da UFF de Angra dos Reis, é pesquisadora do Núcleo de Estudos do Oriente Médio (Neom). Ela coordena um projeto de pesquisa pós-doutoral que estuda a chegada, o convívio e o processo de adaptação sociocultural e religiosa dos refugiados sírios no Rio de Janeiro. Professora, você poderia falar um pouco sobre o seu trabalho de pesquisa? A pesquisa inicialmente enfoca refugiados do conflito sírio no Rio de Janeiro. Ao utilizar esta categoria, “refugiados do conflito sírio”, também são considerados palestinos e outros grupos nacionais e minoritários residentes na Síria. O objetivo central da pesquisa é, a partir de trabalho de campo antropológico, desenvolver uma etnografia sobre a chegada de refugiados na cidade, focalizando o processo de determinação de refúgio brasileiro e a construção e negociação de identidades políticas e religiosas na diáspora – que é a dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica. Nesta etnografia, pretende-se analisar o processo de negociação e construção de identidade dos sírios - e outros sujeitos afetados pelo conflito - na diáspora, articulando religião e conexões transnacionais como componentes fundamentais. O que motivou a pesquisa? Foi o meu desejo em participar do núcleo de pesquisa de meu orientador de doutorado. Meu interesse pelo Oriente Médio começou quando conheci o trabalho dos pesquisadores do Núcleo de Estudos sobre Oriente Médio da UFF. No Neom tenho colegas trabalhando com o Oriente Médio e suas diásporas. No núcleo, já foram e são desenvolvidas pesquisas em países como Síria, Líbano, Egito, Turquia, Marrocos e Tunísia. Por exemplo, o coordenador do núcleo, Paulo Hilu, pesquisou em seu doutorado comunidades religiosas na Síria e, depois disso, em outros países do Oriente Médio. Ele também pesquisa comunidades muçulmanas e do Oriente Médio no Brasil e em outros países da América Latina. Desde o período em que fui orientanda de Hilu no PPGA/UFF, acompanho o trabalho do Neom. Atualmente, com este estudo, não apenas acompanho, mas efetivamente participo do núcleo como pesquisadora. Pretendo me dedicar ao tema não apenas agora, mas em longo prazo. Por isso, estudo a língua árabe e quero fazer trabalho de campo em outros contextos nacionais. Pretendo ainda desenvolver pesquisa com refugiados do conflito sírio, focalizando comunidades ciganas que deixaram a Síria e se refugiaram em países como Líbano e Jordânia. Dessa forma, retomarei o meu trabalho com ciganos. No doutorado, defendido em 2013, pesquisei refugiados ciganos em Toronto, Canadá. Pesquisei ciganos do leste europeu que buscavam proteção canadense por causa da perseguição de grupos neonazistas. A questão do refúgio começou a me interessar profundamente a partir dessa pesquisa. Quais motivos trazem os refugiados para o Brasil? Familiares, mercado de trabalho, impossibilidade de ir para outros lugares, abertura que o país oferece aos refugiados? Existem diferentes motivos. Porém, o principal deles é o fato de o Brasil ter uma política de portas abertas aos sírios. O país aparece, ao lado de nações como Equador e Malásia, como um dos poucos destinos legais possíveis. A maioria dos interlocutores de minha pesquisa menciona a entrada fácil e, sobretudo, legal no Brasil como a principal razão de sua escolha. Redes familiares, de amigos e religiosas, no entanto, também têm sido mobilizadas e motivam a vinda. Qual a recepção que os sírios vêm recebendo no país, mais especificamente no Rio? A recepção depende de alguns fatores. Importante informar que não existem políticas de acolhimento do estado brasileiro, quero dizer, um programa específico para refugiados e solicitantes de refúgio no Brasil. É possível encontrar algumas iniciativas, mas nada que se compare a uma política de acolhimento ou ações mais estruturadas para a recepção de estrangeiros que busquem proteção no país. Para dar um exemplo, todos os solicitantes a refúgio devem apresentar seus pedidos de proteção no Departamento de Estrangeiros da Polícia Federal, mas neste órgão dificilmente se encontra um funcionário que fale inglês. Os representantes do Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), quando questionados sobre o fato de não existir um programa de recepção, respondem que o convênio firmado com a Cáritas busca atender às demandas por acolhimento. Mas, esta entidade confessional ligada à Igreja Católica, que historicamente e internacionalmente trabalha com refugiados, possui recursos escassos frente à demanda. Os recursos do Ministério da Justiça destinados à entidade não viabilizam ações de recepção. O que efetivamente encontrei são ações não governamentais como as da Igreja Ortodoxa Antioquina São Nicolau, no Centro do Rio, e da Paróquia São João Baptista da Lagoa, em Botafogo, que abrigam em torno de 15 pessoas. Na cidade de São Paulo, as mesquitas se destacam no trabalho de acolhimento. Como é o processo de adaptação dessa população no país? Eles têm encontrado dificuldade de se ambientar? A Síria é um país que compartilha uma cultura de massa globalizada. A principal dificuldade dos sírios que conheci é a falta de interlocutores na língua inglesa. De maneira geral, são poucos os brasileiros que falam a língua, inviabilizando a comunicação. Como mencionei, até mesmo no departamento de estrangeiros da PF, são raros os funcionários que falam inglês. Nas suas pesquisas, você notou alguma discriminação de brasileiros em relação aos refugiados? Sim. Posso dizer que o discurso xenófobo é facilmente acionado no Brasil. Um interlocutor mencionou que uma agente do estado disse que ele e demais sírios deveriam falar em português, já que estavam no Brasil. Vale dizer que essa funcionária trabalha com solicitantes de refúgio, ou seja, pessoas que em sua maioria são recém-chegadas ao país. É importante dizer que a guerra civil na Síria é certamente uma das maiores tragédias do mundo contemporâneo. A guerra tem afetado a população síria de forma brutal, causando o deslocamento forçado de milhares de pessoas, tanto no interior da própria Síria como para fora do país. Estima-se que 7,6 milhões de pessoas estão deslocadas no interior da Síria e que 13,5 milhões precisam de assistência humanitária. O número de refugiados registrados atinge 4,8 milhões. Esses números oficiais permitem afirmar que, diante da crise humanitária do país, é preciso questionar o tratamento dispensado aos poucos que chegam ao Brasil. 90% dos refugiados e solicitantes de refúgio estão nos países vizinhos. Ocorre estranhamento sociocultural na interação dos sírios com os brasileiros? Como ocorre o processo de compreensão e entendimento de ambas as partes? A interação depende de vários fatores, incluindo o contexto. A interação com os agentes do estado brasileiro não é marcada pelo estranhamento. A estrutura estatal burocratizada, permeada por relações pessoais e códigos não explícitos no Brasil é familiar aos sírios. Já a exposição do corpo, sobretudo no Rio de Janeiro, com pessoas andando nas ruas com roupa de banho, causa estranhamento. O hábito brasileiro de homens e mulheres se tocarem é mencionado como um fator de incômodo, mas isso não impede que muitos dos sírios que conheci, mesmo que desconfortáveis, começassem a cumprimentar os brasileiros do sexo oposto com beijos e abraços. Outros fatores de estranhamento são a miséria e a violência urbana. Na Síria, antes da guerra, não se encontravam pessoas dormindo na rua e era possível caminhar com sua família altas horas da noite. A maioria dos refugiados, sendo muçulmana, lida bem com o fato de entrar em contato com auxílio fornecido por organizações cristãs, como a Cáritas Arquidiocesana do Rio de Janeiro? A Cáritas não faz proselitismo em seu trabalho. Nenhum interlocutor da pesquisa reclamou da entidade por ser uma entidade cristã. Eles reclamam, entretanto, da estrutura precária de atendimento, das longas filas e das péssimas condições dos espaços destinados aos solicitantes e refugiados. Os refugiados veem o Brasil como o local definitivo para estabelecerem suas vidas? Ou eles têm expectativa de voltar para o país de origem em algum momento? Entrevistei uma família que pretende permanecer no Brasil mesmo com o fim do conflito na Síria. Essa família conseguiu reunir todos os seus membros no Brasil e não tem uma expectativa positiva em relação ao futuro de seu país de origem. Por isso, eles se esforçam para aprender a língua portuguesa e os códigos culturais brasileiros. Então, sim, tenho interlocutores que pretendem ficar no Brasil. Outros, no entanto, consideram deixar o país e voltar para a Síria assim que o conflito acabar ou ir para um país árabe (culturalmente mais familiar) ou, ainda, para um país desenvolvido onde as pessoas falem inglês e onde possam ter acesso a benefícios sociais e uma política de acolhimento e integração. Entrevistei jovens que desejam imensamente viver na Europa, nos Estados Unidos ou no Canadá. Eles querem estudar e trabalhar em países de primeiro mundo. Outros, no entanto, esperam, caso não voltem para a Síria, viver em um país de língua árabe, culturalmente e geograficamente próximo da Síria. Existe participação de alunos ou outros professores da UFF na sua pesquisa? Qual a importância da universidade na produção do seu trabalho? Sim, tenho um orientando de iniciação científica do curso de graduação em Políticas Públicas da UFF, em Angra dos Reis, onde sou professora. Esse aluno foi bolsista do edital da Proppi, Fopin 2015 e, atualmente, é bolsista da Faperj. A UFF é muito importante para a pesquisa, pois conto com a colaboração de seus pesquisadores. Como já mencionei, pesquisadores do Neom são interlocutores fundamentais, sem os quais o projeto certamente não teria se idealizado. Além de Paulo Hilu, Gisele Fonseca Chagas, antropóloga do Neom e professora do PPGA/UFF também é uma importante parceira. Neste momento, estamos escrevendo um projeto para concorrer ao edital de pesquisa da Georgetown University Qatar sobre refugiados sírios. Nele, vamos articular pesquisadores do Neom e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia do Instituto de Estudos em Administração Institucional de Conflitos INCT-INEAC, também sediado na UFF, como a antropóloga Marta Fernandez, que atualmente está na Universidade de Ottawa pesquisando o programa canadense de reassentamento de refugiados sírios. Minha vinculação a estes dois núcleos (Neom e INCT-INEAC), que são parceiros, tem sido fundamental para o desenvolvimento da pesquisa em curso, que conta bolsa de pós-doutorado do Centro de Estudos em Direito e Política de Imigração e Refúgio da Fundação Casa de Rui Barbosa.