Filhos com microcefalia: mães são protagonistas na luta contra o Zika Vírus em pesquisa coordenada por professora da UFF  Em 2015 mais de 2 mil casos de microcefalia em recém-nascidos foram identificados em diversas regiões do país, principalmente no Nordeste, após um pico epidêmico do Zika Vírus no início daquele ano. Em função dos impactos devastadores causados nas famílias e nas crianças, no entanto, assim como da proporção com que o fenômeno mobilizou a saúde pública nacional e internacionalmente, ele permanece ainda como um desafio presente. Passados quatro anos, o tema continua sendo investigado por muitas organizações de saúde e pesquisa científica do país e fora dele. A Universidade Federal Fluminense, por exemplo, é uma delas. Através da sua Pós-Graduação em Ciências Médicas e Patologia e da Pós-Graduação em Biologia Parasitária, a instituição integra uma equipe interdisciplinar de pesquisa, constituída por 36 profissionais, entre eles, pesquisadores da Fiocruz e da La Jolla Institute for Allergy and Immunology, da Califórnia. O grupo, que reúne infectologistas, pediatras, neurologistas e radialogistas, entre outras especialidades médicas, tem como objetivo observar se as células de defesa do organismo atuam na proteção contra a infecção ao entrarem em contato com o Zika Vírus. A pesquisa está sendo realizada através da coleta de amostras de sangue de mães que tiveram Zika na gestação e também de seus filhos expostos ao vírus durante a gravidez. Por meio da utilização de diferentes métodos imunológicos de ponta, até o momento foi possível observar nas pesquisas que 100% das mulheres que tiveram bebês assintomáticos e 57% das mulheres que os tiveram com Síndrome da Zika Congênita (SZC) têm células imunes que respondem às proteínas do Zika Vírus. Além disso, com relação às crianças, independentemente de serem acometidas ou não com a SZC, cerca de 70% delas têm células imunes que respondem às proteínas do vírus. Portanto, segundo a coordenadora da pesquisa Claudete Araújo Cardoso, infectologista pediátrica e professora do Departamento Materno-Infantil da UFF, “a maioria das mães e filhos que foram estudados possuem células imunes aptas a responderem ao Zika Vírus, sugerindo assim que desenvolveram boa imunidade ao vírus”.  "As pesquisas são necessárias para esclarecermos as dúvidas e ajudar futuras gerações. Infelizmente, fomos nós as acometidas pela síndrome, ocasionada pela falta de estrutura e política de combate ao mosquito", Mayrielly Wiltgen do Nascimento, mãe de Catarina. De acordo com a coordenadora, “a comunidade científica tem recebido esses resultados com muito otimismo, uma vez que tais achados mostram que se pode desenvolver imunidade contra o Zika Vírus após o contato com ele. Tal resposta tem impacto em nível local e também nacional, pois poderemos orientar as futuras gestantes em relação à proteção conferida por infecção prévia pelo vírus, reduzindo o estresse diante da possibilidade de se ter um bebê com a Síndrome da Zika Congênita”, destaca. Trocando em miúdos, desenvolver imunidade significa que “quando somos infectados pela primeira vez por algum microorganismo que nunca tivemos contato, o corpo reage a ele através do sistema de defesa. Em geral, elimina o microorganismo e, assim, não ficamos doentes. Mas quando esse micro-organismo se multiplica com muita rapidez, não temos tempo de combatê-lo e adoecemos. Sempre há possibilidade de reencontrarmos esse mesmo micro-organismo em algum momento da vida. Portanto, nosso sistema de defesa será capaz de nos defender de forma mais eficiente e rápida, e assim não adoeceremos mais pela mesma enfermidade porque adquirimos imunidade”, esclarece Claudete. A médica pediatra e pós-doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da UFF, Renata Artimos Vianna, também integra o grupo multidisciplinar acompanhando as crianças expostas ao vírus Zika durante a gestação. Segundo ela, o Projeto Zika – Huap/UFF vai além da pesquisa, “principalmente pelo caráter de assistência e informação àqueles que sofrem com a angústia de uma doença debilitante. É importante para o aluno, contribuindo no aprendizado de pesquisa científica, para o paciente, que recebe uma assistência multidisciplinar, para o hospital, que incorpora um serviço de referência e para a saúde pública, colaborando no desenvolvimento de políticas públicas de prevenção e controle de epidemias, como a do Zika. Trabalhar com a professora Claudete e sua equipe é uma experiência única para mim”, destaca. Mas outras pessoas também têm sido fundamentais para a existência e o sucesso da pesquisa, além da equipe multiprofissional envolvida. A coordenadora Claudete destaca a importância da participação das mães no projeto: “essas crianças e suas famílias foram vítimas de uma doença muito grave e todas, sem exceção, têm plena consciência do seu papel como produtores de conhecimento acadêmico. Mais do que simplesmente ‘objetos de pesquisa’, as famílias têm se sentido participantes ativas da produção do conhecimento e esse sentimento me enche de orgulho”, comemora. De acordo com a advogada Mayrielly Wiltgen do Nascimento, mãe de Catarina e uma das integrantes da pesquisa, desde os primeiros meses de vida da filha, a experiência tem sido muito proveitosa: “Os profissionais envolvidos estão de parabéns, sempre nos acolhendo e nos ajudando quando possível. As pesquisas são necessárias para esclarecermos as dúvidas e ajudar futuras gerações. Infelizmente, fomos nós as acometidas pela síndrome, ocasionada pela falta de estrutura e política de combate ao mosquito”. Mayrielly, que só ficou sabendo da condição da filha no momento de seu nascimento, apesar de todas as ultrassonografias realizadas durante a gestação, em que o perímetro cefálico apresentou-se dentro do limite da normalidade, levou um grande susto após o parto: “entrei em luto profundo, luto pela perda de um filho idealizado. Levei mais de um ano para aceitar e tentar voltar, na medida do possível, à minha vida antes do nascimento dela. Aos poucos fui retomando minhas atividades, momento em que percebi que poderia ajudar outras mães na mesma situação, não apenas nas trocas de ideias, mas também na esfera jurídica. Abriu-se, então, uma nova área para minha atuação: o direito das pessoas com deficiência”. Essa foi a maneira, segundo ela, que encontrou para aceitar a condição da Catarina: “claro que às vezes dói, sofro e choro em silêncio, mas passa... E ver a evolução dela é uma experiência marcante. Todos os dias minha filha nos surpreende com sua alegria e vontade de viver!” Juliana Louzada, mãe do Théo Louzada, e também participante da pesquisa, teve uma experiência semelhante à de Mayrielly e só soube que teria um bebê com microcefalia três dias antes do parto: “desde então tudo mudou, surgiram dúvidas, medos e muitos desafios que nunca imaginei que conseguiria superar... Meu filho teve perda da deglutição com três meses de idade, daí tivemos que aprender a lidar com isso. Algum tempo se passou e, como já era esperado, ele não conseguiu se desenvolver conforme sua idade. Substituímos o carrinho de bebê por uma cadeira de rodas”, desabafa. Para lidar com toda essa rotina e os desafios de se criar uma criança com as limitações de uma doença debilitante, participar da pesquisa tem sido fundamental: “logo nos primeiros dias de vida do Théo começamos o acompanhamento dele no projeto. Isso foi bem importante porque descobrimos as alterações que ele possui por conta do vírus. Ter uma equipe ótima que nos ajuda e acompanha em várias questões é muito bom”, enfatiza. Segundo a pediatra Renata Vianna, que conheceu a maioria das crianças ainda recém-nascidas e pôde participar de muitos momentos de alegrias e tristezas, “é maravilhoso vê-las alcançar suas pequenas vitórias pessoais. Torço para que a ciência possa solucionar as perguntas ainda sem respostas, oferecendo soluções para o tratamento e a prevenção da infecção pelo vírus Zika”, conclui.
Projeto da UFF alerta a população sobre os riscos do descarte inadequado de medicamentosNo ano de 2018, o Brasil registrou, segundo o Conselho Federal de Farmácia, 87.794 farmácias privadas e 11.251 drogarias públicas. O número cresce a cada ano e, com ele, o consumo de medicamentos. Mas a discussão sobre o descarte adequado dessas substâncias não parece acompanhar o ritmo da sua produção e distribuição. Pelo contrário. Apesar de já ter sido constatado que o maior impacto ao meio ambiente é causado pelo descarte de consumidores e não pelo processo industrial de fabricação, o Brasil ainda não possui uma regulamentação sobre o recolhimento e o destino adequado de resíduos domiciliares. Na contramão dessa tendência, o projeto de extensão Descartuff, da Faculdade de Biomedicina da UFF, coordenado pela professora de Bacteriologia e Educação Ambiental Júlia Peixoto de Albuquerque, vem trabalhando para conscientizar a população sobre o descarte correto de medicações através de ações nas redes sociais e em eventos científicos abertos à comunidade. O principal objetivo do projeto, segundo ela, é informar a população sobre por que não se pode descartar os medicamentos como lixo comum: “Tem consequências, tem impacto direto na nossa saúde. As pessoas precisam entender que é uma necessidade”, enfatiza. As consequências do descarte incorreto de medicamentos não são poucas e podem ser percebidas não somente na contaminação de solos, lençóis freáticos, águas de rios e oceanos, mas na alteração de algumas formas de vida. De acordo com a professora, “há diversas espécies que estão passando por um processo de seleção. Alguns peixes, por exemplo, estão mudando de comportamento sexual em razão da concentração de hormônio na água”. Além disso, ela reforça, “há o problema das bactérias multirresistentes, que vão se desenvolvendo em grande parte ao descarte incorreto de antibióticos”.  “No cotidiano, com a rotina acelerada em que vivemos, muitas vezes é difícil pensar espontaneamente nos pormenores de algo como ‘jogar remédio no lixo’. Na verdade, existe uma enorme discussão por trás disso” - André Coutinho Apesar de constituir um grave problema de saúde pública, grande parte da população simplesmente parece desconhecê-lo, mesmo nos lugares onde mais se esperaria um cuidado especial com a temática. Júlia relata que ao inaugurar o Descartuff no Instituto Biomédico, por exemplo, chamou sua atenção a falta de informação dos alunos: “as pessoas se assustavam porque não sabiam que não se pode jogar medicamento na pia. Me perguntavam: ‘é sério isso?!’”. O desconhecimento é ainda maior com relação às embalagens dos remédios, que podem necessitar de um descarte especial, dependendo do grau de contato com a medicação. As bisnagas, blísteres e frascos, por exemplo, são as chamadas embalagens “primárias”, que deveriam ter o mesmo destino da medicação propriamente dita. Existem também as secundárias e terciárias, que não foram contaminadas pela medicação. Uma das ações do projeto, inclusive, é a de recolhimento no prédio do Instituto Biomédico de embalagens secundárias. Mas o que fazer, então, com toda a medicação que não é mais utilizada e que se deseja descartar, já que não se pode jogá-la fora no lixo comum ou mesmo atirá-la torneira ou descarga abaixo? Júlia ensina o caminho: “o tratamento adequado que se deve dar a essa medicação é a incineração. Mas não se trata de jogar fogo simplesmente. É uma incineração controlada, serviço que é terceirizado por muitos hospitais e farmácias. Algumas delas são, inclusive, pontos de coleta onde se pode descartar a medicação vencida de uso domiciliar. Existe um site (e-cycle), inclusive, que informa os pontos de coleta da região”. Segundo a professora, esse não é exatamente o cenário ideal: “deveria haver uma rede estruturada de descarte, em que a indústria se disponibilizaria a recolher e receber tudo o que ela joga para a rua, o governo ofereceria um insumo e também uma coleta, e os hospitais trabalhariam como parceiros”, sublinha. Para André Almo de Moraes Coutinho, recém-formado em Biomedicina pela UFF, e que colaborou na formulação do projeto em 2018, participar do Descartuff o despertou para a urgência de se pensar sobre educação ambiental: “assim que iniciamos as pesquisas para alimentarmos e fundamentarmos o projeto, me deparei com uma gama de questões – principalmente as referentes aos impactos do descarte inadequado – que chamaram a minha atenção e me surpreenderam, evidenciando a gravidade do assunto. Num segundo momento, senti que, ao informar terceiros sobre todos esses dados, eu estava contribuindo para um futuro melhor”. André narra um episódio que o marcou bastante durante seu período de atuação mais intensa no projeto, quando realizou um trabalho de conscientização sobre a necessidade do descarte adequado de medicações com funcionários da biblioteca do Instituto Biomédico: “por mais que seja um momento pequeno, foi memorável para mim. Informá-los ali, ao vivo, e vendo suas reações de reflexão e surpresa foi incrível”. O biomédico acredita ser essencial esse trabalho de informação da população: “no cotidiano, com a rotina acelerada em que vivemos, muitas vezes é difícil pensar espontaneamente nos pormenores de algo como ‘jogar remédio no lixo’. Na verdade, existe uma enorme discussão por trás disso”. A coordenadora do Dercartuff ressalta o papel da universidade pública na transformação desse cenário de pouco engajamento das pessoas em questões sobre educação ambiental: “quando se fala nisso as pessoas já pensam em verde, árvore, baleia, artesanato, mas é muito mais do que isso”. Segundo ela, “a universidade existe não só para gerar conhecimento, mas para fornecer esse conhecimento para a população como um todo e formar pessoas que sejam futuramente agentes transformadores nesse processo, reproduzindo e multiplicando o que foi aprendido”. O que não falta é disposição e disponibilidade por parte de Júlia: “Sou uma professora pesquisadora e não uma pesquisadora que dá aula. Gosto de servir para fazer bem ao outro, ajudar as pessoas, e não para eu me sentir bem ou para ser melhor. Se eu estiver aqui sem fazer diferença positiva para alguém, o que estou fazendo, afinal? Simplesmente não tem razão de ser”, conclui.
Ser mãe na UFF: conquistas e desafios na construção de uma universidade de todos e para todosNão é novidade a realidade que mulheres, mães e também profissionais, enfrentam no mundo contemporâneo com suas jornadas triplas de trabalho, alternando-se entre as atividades dentro de casa, com os filhos e no mercado de trabalho. Esse verdadeiro malabarismo que praticam para conciliar universos tão distintos e extenuantes é ainda mais difícil de ser equilibrado se essas mulheres são também estudantes. Atenta a essa realidade, a Universidade Federal Fluminense (UFF), por meio da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), está promovendo iniciativas direcionadas às mães que são alunas da instituição, colaborando na melhora de sua saúde física e emocional. São cinco os eixos de atuação institucional para proporcionar esse respaldo às mulheres: a sensibilização quanto ao acolhimento de mães com seus filhos nos diferentes espaços da universidade, implementando, para isso, uma infraestrutura específica, como os fraldários; o acesso e a manutenção nos programas institucionais de bolsas; a flexibilização de trâmites; o acompanhamento das taxas de retenção e evasão e o mapeamento da saúde mental. De acordo com a pró-reitora de graduação, Alexandra Anastácio, que vem organizando essas ações, em diálogo com alguns coletivos de mães e mulheres, “a UFF é um espaço de pluralidade de ideias e diversidade e assegurar o acesso, a permanência e o sucesso acadêmico de mulheres, sobretudo das mães universitárias, é fundamental para a construção de uma universidade de todos e para todos”, ressalta. Alexandra relata que, em março deste ano, realizou uma roda de conversa com mulheres na graduação, convidando o Coletivo Mães da UFF para uma troca de experiências sobre as dificuldades enfrentadas por mulheres e mães estudantes universitárias: “discutimos as oportunidades institucionais para que a universidade as apoiasse de forma efetiva, além dos desafios de sensibilização da comunidade para este novo perfil de estudante, nos nossos diferentes cursos”, explica. A aluna de antropologia Ayla Vargens de Figueiredo, por exemplo, vem percebendo uma maior preocupação da universidade em oferecer um apoio institucional para essas mães estudantes. Ela é uma das integrantes do Coletivo Mães da UFF, grupo de alunas da universidade que têm filhos, cujo principal objetivo é lutar por melhorias das suas condições no espaço acadêmico, respeitando suas demandas diferenciadas. Além disso, o grupo visa ao apoio mútuo, combatendo o preconceito, conquistando políticas específicas, e garantindo o retorno e a permanência das mães graduandas na instituição. Segundo ela, “atualmente mesmo com a universidade pública sofrendo constantes ataques, a nossa tem se mostrado à disposição para nos escutar e também considerar nossas reivindicações”, observa Ayla. Outro aspecto importante é a parceria estabelecida com o Núcleo Interseccional de Estudos em Maternidade (NIEM), que unifica o trabalho de coletivos e em torno da maternidade de diferentes universidades. Seu principal objetivo é o de criar uma rede de diálogo entre mães pesquisadoras, disponibilizando as produções acadêmicas dessa natureza. Para a graduanda, que participa do coletivo há cerca de um ano, “numa sociedade que pretende ser democrática e preocupada com as gerações futuras, é impossível não estarmos atentos às demandas das mães, que na maioria das vezes exercem o papel de únicas responsáveis pelo bem-estar de seus filhos. A falta de políticas públicas voltadas para elas no ambiente de ensino, saúde e lazer, afeta não só essas mulheres, como toda a geração seguinte”, desabafa. "Elas têm o direito de estar aqui, portanto, têm o direito de cursar as disciplinas, de garantia de condições para se formarem como toda e todo estudante que ingresse em uma universidade pública”, Alessandra Barreto. De acordo com outra integrante do coletivo, a também estudante de antropologia Tatiana Viana de Oliveira, a maternidade não é apenas uma questão privada: “a igualdade teórica entre homens e mulheres deve vir acompanhada de medidas efetivas que protejam e apoiem mães e crianças, já que normalmente as mães é que ficam com a responsabilidade de criar”, argumenta. Considerando questões como essa, a pró-reitora destacou que a instalação de fraldários no bloco A, campus do Gragoatá, e também no bloco H, da Praia Vermelha, foi realizada tanto nos banheiros femininos quanto nos masculinos.  Mesmo reconhecendo algumas dificuldades históricas na conquista de espaços diferenciados para essas mães na universidade, Tatiana faz questão de ressaltar o apoio recebido de algumas pessoas do corpo institucional. A diretora do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia (ICHF), Alessandra Barreto, é uma delas. De acordo com a diretora, o protagonismo dessas mães deve ser apontado: “Devemos parabenizá-las por não desistir, não esmorecer, por construir diálogos e pontes, por incorporar mais vozes que ecoaram sua luta. Elas têm o direito de estar aqui, portanto, têm o direito de cursar as disciplinas, de garantia de condições para se formarem como toda e todo estudante que ingresse em uma universidade pública”. Foi também com o auxílio da diretora que está sendo implantado um espaço infantil nas dependências do instituto, como parte do cumprimento de uma lei, aprovada em 30 de agosto de 2019, que estabeleceu a obrigatoriedade de instalação de espaços infantis para o cuidados de filhos dos estudantes matriculados nas instituições. Alessandra destaca que “o ICHF tem uma história de luta a favor das políticas de acesso e permanência. Acredito que o reconhecimento desse compromisso tenha motivado as integrantes do Coletivo de mães da UFF a nos procurar em meados do mês de setembro para apresentar as dificuldades e a necessidade de criação de um espaço infantil. Ouvimos, acolhemos e apoiamos imediatamente a demanda”. Segundo a diretora, “tanto o colegiado, como os diretórios e centros acadêmicos do ICHF compreenderam a importância deste espaço para a permanência das estudantes mães e aprovaram por unanimidade o pleito. O espaço já está disponível e será administrado pela Pró-Reitoria de Assuntos Estudantis (PROAES). Temos certeza de que, em breve, o Coletivo de mães já estará conosco. E esperamos que este seja o primeiro, de outros espaços com a mesma finalidade na UFF”. A psicóloga recém-formada pela UFF, Ana Carolina Padilha, vivenciou algumas dessas dificuldades quando cursava a graduação com a filha na barriga ou nos braços. Para ela, ser mãe estudante na universidade foi um desafio em muitos aspectos: “quando eu estava grávida, consegui conversar com todas as professoras que estava muito difícil para frequentar as aulas. Meus pés inchavam muito e para chegar à faculdade, o caminho que anteriormente eu fazia em 10 minutos, passou a ser feito em 40 minutos. Muitas vezes eu quase desistia de ir por esse motivo, mas ia!”.  Quando sua filha nasceu, foram outros os obstáculos: “precisava levá-la de vez em quando comigo. No início, ela ficava mais quieta e as pessoas aceitavam mais, mas me sentia muito exposta. Meus colegas da psicologia foram muito acolhedores, sempre assegurando que estava tudo bem ela fazer um barulhinho de vez em quando. Além disso, acho que tive sorte de ter tido professoras tão acolhedoras. Por outro lado, até pouco tempo atrás, não se podia entrar com as crianças no Restaurante Universitário. Essa foi uma grande conquista do Coletivo Mães da UFF, que adiantou a vida de muita gente, e é merecido que seja destacado. Quando mães se juntam, podemos mudar o mundo”. Um aspecto importante nas políticas universitárias de acolhimento de mães é que não se destinam somente a quem é estudante da instituição. Iniciativas vêm sendo pensadas e executadas para possibilitar uma melhor adaptação das mães também no seu ambiente de trabalho, como é o caso da concessão de pontos extras na avaliação do currículo de docentes em licença-maternidade, no edital do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) de 2019. A medida visa reconhecer o direito das professoras em função do afastamento legal das funções de pesquisa na universidade. Essa prerrogativa, vale ressaltar, pode ser aplicada a todos os que atendem a legislação, ou seja, gestantes, pais que adotam crianças e também casais homoafetivos. A pró-reitora Alexandra Anastácio sinaliza que as iniciativas da instituição na direção do acolhimento das mães irão seguir sendo implementadas, com a ampliação do seu alcance em diferentes esferas: “Há necessidade de expansão dessa rede de apoio para toda a universidade, não somente Niterói, mas o interior também, abrindo espaços onde essas mulheres possam transitar com as suas crianças”.  Mesmo reconhecendo os empecilhos sociais e institucionais para a execução de mudanças nessa direção, ela enfatiza: “o combate ao preconceito e à promoção da equidade como valores na universidade promove no ambiente interno o senso de justiça e a garantia de oportunidades iguais, independentemente do gênero. Nosso compromisso é consolidar estes valores no projeto de universidade que queremos e também contribuir para que estes valores extrapolem os muros da instituição, promovendo uma profunda mudança cultural de gênero, na qual homens e mulheres se sintam igualmente responsáveis pelo bem-estar familiar, em especial dos filhos, e que o acesso às oportunidades de formação e trabalho sejam de fato iguais para todos”. A diretora Alessandra Barreto também aponta para a continuidade dessas conquistas na universidade e politização dos debates: “Ainda há muito a ser feito. A universidade tem um compromisso com as e os estudantes que ingressam em nossa instituição. As políticas de acesso precisam ser consolidadas a partir de políticas de permanência e esta ação é estratégica para a permanência e continuidade dos cursos pelas estudantes mães. Essas políticas não podem ser encaradas como assistencialismo, porque dizem respeito à construção efetiva de possibilidades para a conclusão desses projetos de vida. A formação universitária não é apenas um projeto individual: envolve famílias, em alguns casos pela primeira vez em gerações; envolve a vida de diversas pessoas. A luta contra as desigualdades e as discriminações deve ser incorporada em nossa prática cotidiana e as soluções precisam ser construídas institucionalmente para que sejam duradouras e eficazes”, conclui. Serviço: Mães alunas interessadas em frequentar o Restaurante Universitário acompanhadas dos filhos precisam assinar o Termo de Responsabilidade, no qual asseguram que não irão alimentar a criança com comida inadequada para a sua idade. Para regularizar o acesso, é preciso se dirigir ao Setor de carteirinhas com a documentação da mãe e da criança.
Quando a sociedade é quem anda doente: pesquisa na UFF investiga sofrimento psíquico em tempos de capitalismo selvagemHá muitas maneiras de acessar um tempo passado ou presente na história da humanidade, com suas formas de existir, de organizar a vida e se relacionar. Uma das chaves para conhecer cada um desses períodos é através dos modos de sofrimento que se produziram nele. A anorexia, depressão e cutting, por exemplo, são os nomes com que identificamos algumas das dores psíquicas que temos vivido atualmente. Ao contrário do que se pode imaginar, elas têm características em comum e colocam em evidência o modo adoecido como temos nos relacionado em sociedade.  Buscando compreender esse cenário, foi inaugurado, em 2011, o Laboratório de Investigação das Psicopatologias Contemporâneas (Lapsicon), sob a coordenação da professora do Departamento de Psicologia da UFF de Volta Redonda, Claudia Henschel de Lima. De lá pra cá, o laboratório, que iniciou suas investigações em torno da psicopatologia do uso de drogas, tem expandido bastante a sua pesquisa na direção dos fenômenos clínicos contemporâneos, numa tentativa de cuidar das formas de sofrimento que temos gerado com nosso modo de viver. Segundo a psicóloga, que também supervisiona uma linha de estágio no Serviço de Psicologia Aplicada da UFF, associada à pesquisa, “começou-se a receber nos últimos anos uma quantidade grande de demandas para tratamento da depressão em mulheres adultas principalmente, tratamento da anorexia, conduta autolesiva, uso de drogas e, mais recentemente, autismo”. De acordo com ela, “o SPA é uma espécie de laboratório no sentido de que ali temos como investigar na singularidade de cada caso quais as conjunturas de desencadeamento dessas psicopatologias e como podemos estabilizá-las ao longo do tempo”, explica. Há uma exigência excessiva que o sujeito atribui a si próprio de estar sempre bem, sempre saudável, sempre conforme as normas sociais", Claudia Henschel. O fio que costura todos esses sofrimentos é, para Claudia, a forma contemporânea de organização social de caráter neoliberal, que impacta diretamente o funcionamento subjetivo das pessoas: “O neoliberalismo tem esse traço que localiza no sujeito a responsabilidade completa pelo destino de sua vida. Com seu fundamento de valorização extrema do indivíduo e quantificação de sua ação, estar bem numa determinada atividade depende única e exclusivamente do quanto você é capaz. Há uma exigência excessiva que o sujeito atribui a si próprio de estar sempre bem, sempre saudável, sempre conforme as normas sociais”. Um exemplo de como isso tem aparecido diz respeito ao sofrimento psíquico estudantil, um dos eixos de investigação do Laboratório. Segundo a professora, “em 2016, começaram a aparecer muitos alunos se candidatando a tratamento e todos tinham uma queixa de estarem com baixíssima concentração nos estudos, de não conseguir entender o que os professores falavam em aula, de olharem para o horizonte de suas vidas e não verem a possibilidade de avançarem em nada. Tivemos algumas situações difíceis no campus e isso chamou a atenção dos meus bolsistas, que vieram me pedir a possibilidade de abrirmos vagas para tratamentos dessas situações dos estudantes. Muitos deles são extremamente preocupados com seu desempenho da universidade, para realizar o ideal que os pais projetaram neles”. O excesso de exigência também aparece, embora de forma distinta, nas práticas de autolesão do sujeito (cutting), quadro cada vez mais frequente nos consultórios e também no SPA. Claudia explica que a autolesão é comum no momento de passagem da infância para a adolescência: “nesse momento uma série de modificações estão acontecendo no funcionamento subjetivo e na própria imagem corporal. O peso muda, a altura muda, os caracteres sexuais secundários aparecem e alteram a estética do sujeito que às vezes seis meses antes era uma criança. Muitas vezes se experimentam as exigências do mundo como uma espécie de experiência de não pertencimento. A equação é: ‘eu não me enquadro, sou culpado pelo mal que produzo em meus pais e se sou culpado, mereço o castigo e então me corto’. O efeito dessa conduta é a de produzir uma dor física que supere a dor da culpa por fazer mal a seus pais”, ressalta. A prática da autolesão também coloca em evidência outro aspecto comum na clínica da contemporaneidade, em que a forma como o indivíduo ataca o seu corpo acaba por colocá-lo vulnerável diante da morte: “o que é a anorexia se não a estetização da morte? O sujeito faz uma cadaverização de seu corpo. O que é o cutting se não a prática de ferir e vilipendiar o corpo? Trabalhamos com sujeitos que fazem uso de 12, 14, 15 pedras de crack por dia. Sabemos que no horizonte desses recursos – à lâmina, a não comer nada, à droga – existe a morte. Clinicamente falando, a temática não é uma exceção, mas a regra. Todos os dias na clínica é dia de prevenção do suicídio”. Para o mestrando em psicologia Thalles Cavalcanti Sampaio, que já participou do Lapsicon como voluntário, monitor e também bolsista de iniciação científica, “um projeto como esse traz à tona a importância da universidade pública para a educação e a ciência. Não é só a garantia de um ensino superior de qualidade, como a prova viva de que, no Brasil, a ciência é desenvolvida dentro das nossas universidades. Estar inserido no Lapsicon me deu a oportunidade de aprender o que é ser um pesquisador hoje no Brasil, o que é uma carreira acadêmica. O Lapsicon me fez querer ser professor, cientista e pesquisador”. O estudante de psicologia Daniel Cavalcante, atualmente estagiário do SPA e bolsista de iniciação científica do laboratório, engrossa o coro: “vejo que a universidade pública é o maior expoente nacional em produção científica e tecnológica, como em nenhum outro ambiente. A UFF transforma não só a minha vida, como a de colegas meus e das pessoas que usufruem dos produtos e serviços dela à comunidade”, enfatiza. Maria Stela Campos, também mestranda em psicologia com passagem pelo Lapsicon, tem uma vivência parecida com a de Thalles e Daniel: “participar do Lapsicon permitiu que eu me reconhecesse como pesquisadora, o que em minha concepção ultrapassa a formação acadêmica. Trata-se de um projeto que atravessa também minha vida pessoal”. Para a coordenadora do laboratório, Thalles, Daniel e Maria não são simplesmente alunos: “eles são meus parceiros de pesquisa”. Segundo ela, ao contrário do que muitos pensam, “a profissão do psicólogo é ancorada em princípios científicos. O estudante não está ali para fazer uma reprodução de saberes; isso ele já fez na escola. Ele está ali para produzir conhecimento. A bolsa de iniciação científica é isso. A bolsa de extensão é isso. A bolsa de monitoria é isso. Essas são as ferramentas que a universidade oferece para a produção de cientistas. Chamo meus estudantes de cientistas em formação”. Apaixonada pelo seu trabalho e pela psicologia, Claudia afirma não se ver fazendo outra coisa na vida: “se tem uma coisa pela qual não me arrependo é ter insistido numa profissão que minha família na época dizia que não iria dar certo. E eu disse: ‘vai dar certo’. Fiz a universidade num momento terrível do país que era prévio à abertura política. Cursei o mestrado e o doutorado o tempo todo acreditando que era possível. Acho que é isso o que transmito aos meus alunos, o ‘é possível’. Eles, por sua vez, transmitem isso aos pacientes”, conclui.
Quando a clínica se transforma em camarim: projeto da UFF recupera saúde bucal e autoestima de mulheres com câncerNum dos mais clássicos contos de fada da humanidade, chamado Cinderela, uma bela e maltrapilha jovem, que tinha a vida controlada pela madrasta, consegue escapar da prisão onde morava para ir ao encontro de um príncipe, em um baile, com a ajuda de sua fada madrinha. Não por acaso, esse é também o nome do projeto da Faculdade de Odontologia da UFF que acolhe mulheres com câncer para o tratamento de afecções bucais e resgate de sua autoestima. De acordo com a idealizadora da iniciativa e estudante de odontologia, Stephanie Souza Almeida, “o nome Cinderela foi escolhido porque teríamos fadas madrinhas que transformariam essa mulher fragilizada em uma mulher princesa”. Mas a ideia é que as transformações perdurem muito além da meia noite, momento em que, no conto de fadas, o encanto é desfeito e Cinderela retorna à sua vida de gata borralheira. Segundo Stephanie, as mudanças são visíveis e também duradouras: “conseguimos tirar muitas mulheres de um quadro de reclusão e depressão. Conseguimos ajudar numa melhor aceitação da doença. Consequentemente, o tratamento progride de forma diferente”. Não se trata de mágica, como no conto original de Cinderela: são muitas pessoas trabalhando para alcançar resultados tão positivos. Quatro vezes ao ano, um grupo de mais de cinquenta alunos voluntários, professores e também assistentes externos, se reúne em um dos prédios de odontologia da UFF para receber essas mulheres, selecionadas após uma divulgação realizada pelos participantes do projeto. Assim que chegam ao local, elas passam por um atendimento odontológico para levantamento de suas principais necessidades e também para que sejam repassadas orientações e informações a respeito de sua saúde bucal. De acordo com Lucíola de Luca, professora responsável pelo projeto, “normalmente, é feita uma profilaxia, fechamento de cavidades, alguns ajustes de próteses, levando em consideração a queixa do próprio paciente. Em relação às demandas que não podem ser solucionadas no período de atendimento de uma hora, buscamos uma vaga em uma das clínicas ambulatoriais da faculdade”, explica. Lucíola enfatiza a importância de haver uma conscientização sobre os prejuízos causados à saúde bucal durante o tratamento de câncer, que são desconhecidos por muitos: “quando você recebe um diagnóstico como esse, a última coisa que você vai pensar é em saúde bucal. Como infelizmente em nosso país nem todo mundo está em dia com os cuidados odontológicos, os problemas que já existem se somam aos que acabam ocorrendo em função do tratamento, causando além de desconforto complicações bastante sérias”. No projeto, após passarem pela fase de tratamento odontológico, as pacientes participam de atividades para trabalhar a sua autoestima, que vão desde maquiagem profissional, até oficina de lenços, onde aprendem a fazer diferentes tipos de amarrações. Além disso, elas se produzem com acessórios, recebem massagem nas mãos, fazem uma sessão de fotos, integram uma oficina de meditação e, ao final, se reúnem em uma roda de conversa, para trocar experiências e fortalecer essa rede de apoio que passam a formar. De acordo com a professora, “nos estudos observa-se como uma boa autoestima influencia positivamente a paciente durante o tratamento. A perda do cabelo, a mudança da cor da pele, as olheiras... Todo esse abatimento leva muitas vezes a um desânimo e a uma depressão que impedem até a continuidade do tratamento oncológico. A estratégia de juntar a saúde bucal com a melhora da autoestima é justamente fazer com que a mulher acredite que é possível ser feliz mesmo em um momento tão difícil”, ressalta. Para a dona de casa Palmira Silva de Brito, que há um ano e meio luta contra um câncer de mama, participar do projeto a ajuda de muitas maneiras. Segundo ela, “o que não pode é ficar apavorado quando se escuta essa palavra e achar que acabou tudo. Com autoestima, amor próprio e alegria de viver, tudo vai dando certo. Além disso, com outras pessoas junto é muito mais fácil do que sozinho”.   Outro braço importante do projeto é o de capacitação de estudantes, por meio de palestras periódicas, para o atendimento a pacientes imunologicamente comprometidos. Lucíola destaca que o mais interessante dessa iniciativa é sua característica de multiplicidade de ações, envolvendo diferentes atores no processo e impactando não somente a comunidade universitária, mas a sociedade como um todo: “ao mesmo tempo em que estamos devolvendo à sociedade todo o investimento que recebemos com um atendimento especializado a uma pessoa que está passando por um momento tão difícil, estamos especializando nosso aluno, preparando um profissional muito mais capacitado e humanizado. Não estamos ensinando somente uma metodologia profissional, mas a lidar com o ser humano num momento frágil, com toda a técnica e conhecimento científico disponível. E isso só é possível numa universidade pública”, arremata. Prova disso é que, no último encontro do projeto, uma das pacientes surpreendeu a todos com um depoimento sobre o acolhimento diferenciado que havia recebido pelos alunos de odontologia. Segundo Lucíola, “ela ficou encantada com a recepção porque ninguém teve medo de tocá-la”. Para a professora, muitos profissionais costumam temer o atendimento de pessoas com câncer, o que se deve, em grande parte, à falta de conhecimento. Por isso, ela reforça a relevância desse tipo de ensino para os estudantes, que “vão sair da universidade capazes de atender não somente o paciente em tratamento oncológico, mas também quem está acometido por qualquer doença crônica, com mais atenção, um acolhimento especial, um olhar mais carinhoso para a população”. Mas não são somente os alunos ou as pacientes que se beneficiam diretamente do projeto. Todas as pessoas envolvidas têm suas vidas igualmente transformadas. Segundo a idealizadora da iniciativa, Stephanie Almeida, “muitas vezes participamos do projeto achando que vamos ensinar alguma coisa para essas mulheres. Na verdade, quando vamos embora, vemos que quem aprendeu foi a gente. A lição que nos dão é a de que não podemos escolher nossos desafios pessoais, mas a forma como iremos enfrentá-los. Isso faz toda a diferença na nossa postura diante dos problemas do dia a dia”, conclui. Inscrições no Facebook: Projeto Cinderela 
Diversão na sala de espera: projeto da UFF estimula leitura de jovens que aguardam atendimento no HuapEsperar por atendimento médico, em clínicas e hospitais, para muitas pessoas é uma experiência de tempo perdido, mas no Serviço de Psiquiatria da Infância e Adolescência do ambulatório do Hospital Universitário Antonio Pedro (Huap), esse momento é de tempo aprendido. Desde 2017 funciona no hospital um projeto de extensão de estímulo à leitura de livros literários infanto-juvenis, por meio da implantação de um ponto de leitura no ambulatório. Enquanto aguardam ser atendidas, crianças e jovens são convidados a escolherem livros que sejam de seu interesse, com ou sem a participação de seus pais, para ler ou simplesmente folhear. De acordo com a chefe do Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental e também coordenadora do projeto, Valéria Pagnin, “é visível a satisfação das crianças durante o tempo de espera para as consultas ao se depararem com muitos livros. Manuseiam, brincam, desenham e ouvem histórias com curiosidade e atenção. Quando incentivadas a ler, elas demonstram interesse e gosto pela leitura”. Segundo ela, o projeto parte do entendimento de que a leitura literária é um direito humano e também um dever a ser defendido pelos serviços de saúde pública, e busca estimular não somente a vontade de ler, mas tudo o que vem a partir dela: a reflexão, a imaginação, a memória, entre outras coisas. “Ler é uma forma de ver e interpretar o mundo, e essa leitura precisa ultrapassar os limites da visão física e auditiva para ocupar também a ótica da fantasia”, ressalta a coordenadora.  A realidade de vida de grande parte dos jovens que frequentam o ponto de leitura, no entanto, não favorece um livre acesso aos livros. De acordo com a professora, “no município de Niterói, por exemplo, menos de 10% das escolas da Rede Municipal possui bibliotecas, embora a Lei 12.244/2010 obrigue todas as escolas a terem uma”. Esse é mais um motivo para que, segundo a professora, “o conhecimento científico esteja a serviço das demandas sociais”. Além de todos esses benefícios proporcionados pelo projeto, que encurta as distâncias entre o livro e alguns jovens frequentadores do Huap, levando até eles histórias, memórias e experiências lúdicas, Valéria destaca ainda um outro: “ainda estamos em fase de avaliação formal e sistemática do programa, mas já conseguimos perceber o impacto das ações de estímulo à leitura, como, por exemplo, o fato de alguns médicos do Huap relatarem que as crianças têm entrado menos agitadas para as consultas”. Colaboradores e parceiros do projeto Todo esse processo de interação com o livro é ainda mais potencializado quando entram em cena professores voluntários ou mesmo os pais que acompanham os jovens, através das contações de histórias: “a leitura oral e a apresentação do livro, com todos os pormenores da sua edição, como o texto, as ilustrações e como ele é produzido até chegar ao leitor, despertam grande interesse das crianças e jovens. O tom com que as histórias são lidas tocam suas emoções e despertam a imaginação”, enfatiza Valéria. Professores do Ensino Fundamental vinculados à Rede Municipal de Ensino de Niterói, assim como aqueles que atuam na rede privada de ensino são convidados periodicamente a participarem do projeto, como ledores e contadores de histórias, mas outras pessoas que se sintam tocadas pela iniciativa também são muito bem-vindas, inclusive médicos e funcionários do hospital. Outro braço do programa, inclusive, é o “Livro Livre no hospital”, destinado aos usuários e servidores que frequentam a recepção do Huap, estendendo-se a alguns setores dos ambulatórios. Alguns exemplares são expostos em mesas e cadeiras de espera, para que sejam abertos, folheados e lidos por aqueles que aguardam atendimento. Além disso, segundo a professora, alunos do curso de medicina também têm demonstrado interesse em participar: “estamos em contato para viabilizar a participação de alguns a partir do próximo semestre como atividade extra-curricular”.  De acordo com a pedagoga e técnica em assuntos educacionais Lílian Silva, também participante do projeto, é possível se envolver de outras formas com a iniciativa; por exemplo, através de doações de livros. “Contamos com o apoio da Associação dos Colaboradores do Huap, que, por intermédio da sua presidente Rita de Cássia Barros, tem doado mesas, cadeiras, livros e brinquedos, que são muito bem aproveitados. Além disso, muitos exemplares são oriundos das bibliotecas populares municipais de Niterói, que se dispõem a repassar livros duplicados. Também contamos com a contribuição de professores, alunos, funcionários, sindicatos, pais, pacientes, médicos, enfermeiros, além de pessoas que tomam conhecimento do projeto”. Para quem quiser fazer doações, Lilian faz o convite: “os livros podem ser depositados diretamente nas estantes, entregues no Departamento de Psiquiatria e Saúde Mental do Instituto de Saúde Coletiva e também retirados nas casas das pessoas”, finaliza.
Pesquisa na UFF comprova a desigualdade de rendimentos entre homens e mulheres no BrasilMuitas e inegáveis são as diferenças entre homens e mulheres, desde as anatômicas até as comportamentais. Mas uma diferença, em especial, chama a atenção, num momento em que no Brasil e no mundo se fortalece o movimento feminista e, com ele, as conquistas de direitos negados historicamente. Trata-se das desigualdades de renda entre homens e mulheres, que vêm deixando, cada vez mais, de serem percebidas como “naturais” e absolutas. Esse tema vem sendo objeto de estudo das pesquisadoras Lucilene Morandi e Hildete Pereira de Melo, que coordenam o Núcleo de Pesquisa em Gênero e Economia (NPGE) da Faculdade de Economia da UFF. Voltado para estudos relativos à história dos feminismos, mercado de trabalho, distribuição de renda, trabalho não remunerado, entre outros, o Núcleo atualmente possui como um dos seus principais eixos de pesquisa a investigação acerca do Produto Interno Bruto (PIB) per capita na ótica de gênero. Para as professoras, “a perspectiva de gênero no estudo das relações socioeconômicas constitui uma forma mais consistente de analisar os papéis exercidos pelas mulheres e homens na sociedade, apreendendo as desigualdades e analisando, como um de seus componentes centrais, a assimetria de poder”. Por PIB compreende-se a soma dos valores referentes a bens e serviços produzidos por determinada região, durante certo período. Trata-se do mais importante indicador aplicado em análises socioeconômicas com o intuito de avaliar níveis de desenvolvimento. Já a terminologia “per capita” indica uma média por pessoa de determinado valor. Nesse sentido, o intuito da pesquisa é o de desenvolver uma investigação sobre a riqueza produzida ao longo de determinado período levando em conta os rendimentos do trabalho de homens e mulheres, em território nacional.  Segundo Lucilene, o estudo sobre PIB per capita na ótica de gênero possui como um de seus principais objetivos apresentar como a renda per capita está desigualmente distribuída entre homens e mulheres e como esta desigualdade persiste ao longo do tempo. De acordo com a professora, este é um projeto inovador, não disponível nas estatísticas oficiais, nas quais os dados de rendimento por sexo referem-se apenas ao rendimento médio do trabalho principal, não incluindo outros, de natureza complementar. A ideia é que projetos como esse possam avançar no aprofundamento das relações de gênero, que constituem “o fio condutor utilizado para trafegar entre os cânones estabelecidos pela macroeconomia”, enfatiza.  "As mulheres ainda são minoria em todas as instâncias de poder e de decisão, tanto públicas quanto privadas, e têm rendimentos menores que o dos homens […]”, Hildete de Melo. Apesar do aumento da participação feminina no mercado de trabalho nos últimos vinte e cinco anos, período pesquisado no estudo, Lucilene aponta o quanto se manteve quase inalterada durante esse tempo uma diferença de renda entre homens e mulheres, em prejuízo delas. Segundo ela, “mesmo com o aumento do nível de educação das mulheres (superior ao dos homens no período analisado), da maior participação no mercado de trabalho e do crescimento do rendimento feminino neste período, a renda das mulheres continua a ser menor que a dos homens”. Em outras palavras, “os avanços sociais das mulheres no campo educacional e do trabalho não foram suficientes para construir a igualdade de rendimentos entre os sexos”, destaca. Hildete de Melo complementa dizendo que “as mulheres ainda são minoria em todas as instâncias de poder e de decisão, tanto públicas quanto privadas, e têm rendimentos menores que o dos homens mesmo quando ocupam cargos e têm qualificação semelhante ao dos homens, apesar de toda evolução econômica, social e política no Brasil e no mundo”. De acordo com a professora, essa desigualdade de rendimentos entre os sexos tem relação, sobretudo, com a invisibilidade do trabalho da mulher, com a desqualificação da atividade doméstica, que constitui o tipo mais comum de trabalho não pago. Para ela, “o ocultamento das tarefas domésticas nas estatísticas oficiais de produção e consumo na sociedade, como algo que foge ao escopo da teoria econômica, porque não é objeto de troca/venda na sociedade, foi tratado pelo pensamento feminista como a construção da imagem partida da mulher, de cidadã de segunda categoria. Estas tarefas mantêm uma íntima relação com a situação de inferioridade da mulher no mundo atual”, explica. Em outras palavras, os estudos da teoria econômica, ao não contabilizarem o trabalho feminino no interior das famílias, por não possuir um valor econômico e não ser atravessado por trocas monetárias, subestima as atividades realizadas pelas mulheres e suas contribuições ao bem-estar econômico. Uma pesquisa como essa do PIB per capita na ótica de gênero, portanto, “evidencia que a plena participação das mulheres pode ser visualizada através da eliminação das limitações que as marginalizam ou as tornam invisíveis, seja nas atividades domésticas, seja nas atividades públicas e produtivas”, afirma Hildete. Para além da não aceitação do velho estereótipo do papel feminino e do desmascaramento do trabalho não pago, outra importante conclusão do estudo aponta para como essas desigualdades poderiam vir a ser equilibradas em um cenário futuro. Segundo as professoras, isso dependeria, em parte, da proposição de políticas públicas voltadas para as mulheres, como, por exemplo, o aumento da oferta de creches e escolas de ensino fundamental de tempo integral. Dessa forma, seria possível, conclui Lucilene, “uma maior liberdade de decisão sobre sua vida profissional”.    
Pesquisadores da UFF viajam à Antártica para estudar mudanças climáticas  Não é novidade que fenômenos de variação climática e de aumento da temperatura da Terra, como resultado de uma alteração no equilíbrio atmosférico, têm sido cada vez mais frequentes em todo o mundo. O que nem todos sabem é que outros eventos de transformações radicais na natureza também têm ocorrido, e com uma frequência preocupante, como a elevação do nível do mar e o esvaziamento de lagos. Esse tem sido o caso, por exemplo, do lago Boeckella, localizado na Antártica, local que tem sido frequentado por pesquisadores do Instituto de Geociências e de Física da UFF para investigar essas variações em âmbito planetário. Através de uma parceria com o Programa Antártico Brasileiro e outros centros de pesquisa estrangeiros, como o Instituto Antártico Argentino, algumas expedições são organizadas até a região durante períodos específicos do ano para coleta de dados geofísicos, oceanográficos e meteorológicos, além de amostras de água e de sedimentos do fundo marinho, de lagos, das geleiras etc. De acordo com uma das coordenadoras do projeto e do Laboratório de Processos Sedimentares e Ambientais da UFF, professora de Geografia Rosemary Vieira, “a ideia é produzir resultados que comprovem como o clima variava no passado e como ele está se comportando no presente”. Atualmente, o foco das pesquisas gira em torno do colapso do lago Boeckella. Em expedição realizada no início desse ano, a pesquisadora viajou até o norte da Península Antártica, a convite do Instituto Antártico Argentino, para estudar o local. Segundo Rosemary, “o esvaziamento do lago pode ser o primeiro caso deste fenômeno registrado na Antártica. Os esforços agora estão em realizar uma reconstituição dos eventos que levaram a esse desfecho, além de apurar suas causas, possivelmente associadas às mudanças climáticas e as consequentes alterações na área”. “A imensidão inóspita de gelo nos silencia e faz refletir o quanto somos pequenos e devemos respeitar e nos reintegrar à natureza”, Vanessa Costa Ainda de acordo com a Rosemary, estudar o fenômeno é importante não somente em nível local, mas também global: “As pesquisas realizadas na Antártica são de extrema relevância porque as alterações climáticas no continente influenciam diretamente nos padrões de temperatura e na incidência de chuvas na América do Sul e, por consequência, no Brasil. E a Península Antártica é uma das regiões com os maiores registros de elevação da temperatura nos últimos 60 anos, cerca de 3°C”. As alterações climáticas são cada vez mais perceptíveis e frequentes, para os pesquisadores brasileiros e também de outras partes do mundo que montam acampamento em solo antártico: “a precipitação em forma de chuva está aumentando, as temperaturas estão aumentando, os dias com temperatura acima de 0° C estão aumentando, muitas geleiras estão derretendo e de forma rápida”, enfatiza a geógrafa. Para a doutoranda da Geografia Vanessa Costa, que participa do projeto desde 2010, o trabalho coordenado pela professora Rosemary é um dos que tentam desvendar o quebra-cabeça do passado climático da Terra: “são muitos fatores que envolvem o clima e entendê-los se torna essencial no nosso contexto atual, onde eventos extremos estão realmente ocorrendo. As taxas de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera chegaram a um nível nunca visto antes na história da humanidade. Extremos de frio, calor, chuvas e secas são incontestáveis e acarretam problemas sociais que comprometem populações inteiras. A Antártica parece estar muito longe das sociedades, mas ela é uma parte muito importante do sistema Terra, controlando a circulação oceânica e atmosférica do planeta”, ressalta. Integrar o projeto das expedições à Antártica é, para Vanessa, um grande aprendizado e também uma grande responsabilidade: “primeiro somos treinados pela marinha e fazemos uma bateria de exames. No navio polar temos um médico e um dentista, mas não tem hospital no continente e o resgate é demorado, caso necessário. Por isso, todo cuidado é pouco, principalmente quando estamos em terra trabalhando. Temos que cuidado onde pisamos, se estamos bem aquecido, se alguma parte da roupa molhou... Há casos sérios de necrose devido à umidade a ao frio extremo. Porém, segundo relatos de pessoas que participam há mais tempo das expedições, a Antártica está muito mais quente ultimamente”, acrescenta a aluna.   Já de acordo com Rosemary, um dos maiores desafios das expedições é ter que conviver com as baixas temperaturas, os ventos fortes e também o afastamento dos familiares. “Alguns países, inclusive, como o Chile e a Argentina, mantêm militares em suas bases com suas famílias por todo o ano. Nesses locais há escolas, correios, enfim, toda uma estrutura”, explica. Além disso, “cada expedição tem histórias únicas: tempestades intensas, barracas arrancadas do solo por fortes ventanias, inclusive com pessoas dentro...”. Por outro lado, segundo a professora, “também tem as visões maravilhosas das baleias saltando em frente ao navio, dos pinguins em suas colônias e do eclipse da lua. A cada momento, a Antártica proporciona uma mirada especial”. Os belos eventos da natureza a que a aluna e a professora assistem, nas suas viagens até o continente gelado, não parecem deixar dúvidas quanto à grandiosidade da vida e à urgência em repensar nossos modos de ser humanos: “a imensidão inóspita de gelo nos silencia e faz refletir o quanto somos pequenos e devemos respeitar e nos reintegrar à natureza”, conclui Vanessa.
É preciso coração para fazer uma revolução: projeto da UFF discute urgência de se pensar sobre populações de excluídosHá quem tenha olhos para ver o que quase ninguém vê. Para reconhecer a existência de pessoas mesmo quando, há muito, a sociedade lhes destituiu do direito de serem vistas. Assim é Margareth Martins, professora da UFF de Pedagogia Social, idealizadora do projeto de extensão “PIPAS”, que há 18 anos forma educadores de crianças e jovens em situação de vulnerabilidade social. Uma criança nessa circunstância, segundo ela, “é atravessada por várias necessidades, atingida por muitos vetores de exclusão. Então, falamos em vulnerabilidades: a financeira, a material, a afetiva etc”. É nesse lugar sem lugar que a pedagogia social trabalha, explica a professora, lá mesmo onde nem a escola, nem a família e nem a sociedade reconhecem. Margareth iniciou sua trajetória de trabalho com crianças e jovens em situação de vulnerabilidade já nos primeiros anos de formada: “costumo dizer que Pedagogia Social me encontrou”. Foi nesse momento que se deparou com uma dificuldade de aplicar o conhecimento aprendido ao longo de sua graduação à realidade que se apresentava para ela: “Tudo o que tinha estudado até então não me possibilitava compreender como eu ensinava aqueles meninos, que não tinham casa, não tinham sequer espaço sanitário para ser utilizado. Comecei a entender que alguma coisa precisava chegar antes do processo educacional formal para trabalhar com essas crianças”, explica. Esse descompasso entre o conteúdo aprendido e a vida real foi uma das motivações para criar, alguns anos depois, o “PIPAS”. Os alunos na universidade, esclarece ela, “têm uma formação para lidar com uma criança que só existe na teoria. A criança real é outra”. O objetivo do projeto, portanto, é o de formar educadores sociais que possam trafegar por diferentes espaços de sofrimento onde essa criança se encontra: “muitas pessoas dizem que toda pedagogia é social. Ela deveria ser, mas não é. A pedagogia social é a pedagogia da humanidade. Se a gente não percebe isso, vai limitar nossa ação a fechar o diário, dar a matéria, fazer a prova e dar nota, e não é só isso. O sistema capitalista no qual estamos envoltos tem feito com que as pessoas não queiram conviver”. Ex-aluna do projeto “PIPAS” e atual integrante do grupo de pesquisa coordenado por Margareth, a professora aposentada e teóloga Conceição Maria acumulou experiências com crianças e jovens em situação de vulnerabilidade. Um dos projetos onde atuou como educadora social, com foco na erradicação do trabalho infantil, envolveu a comunidade do Morro do Céu: “comecei esse projeto numa salinha pequena, que depois cresceu muito. Chegou uma hora que tinha quase 300 crianças. Elas tinham uma capacidade tão grande! Por que viver só de catar lixo? Elas cantavam!”. Conceição explica que esse trabalho abrangia não somente acompanhamento escolar, mas o oferecimento de cursos de informática, esportes e lazer. Com isso, segundo ela, “foi sendo criada outra forma de organização na vida deles, de disciplina e respeito um pelo outro, que fez com que muitos deles virassem irmãos. Se você subir aquele morro hoje e fizer uma pesquisa, posso afirmar que não perdemos dez para o crime”. Nascida em bairro pobre, Conceição teve a experiência de viver na própria pele situações de exclusão, que foram determinantes na sua escolha profissional e nos trabalhos que desenvolveu na área. Com uma sensibilidade aguçada para entender o que é está em um lugar de vulnerabilidade socialmente, ela lança perguntas provocadoras: “Parece que a favela é um lugar violento, onde se faz o que não se deve, mas quem vai lá comprar coisas irregulares? Vejo crianças comercializando essas coisas e quem tem poder consumindo. Então quem é mais violento? Eles que vendem? Ou quem compra? Na verdade, essas crianças são praticamente escravas de uma situação que pessoas cultas colaboram para existir”. De forma simples e profunda, Conceição explica as razões que a fizerem escolher estar ali, junto dessas crianças, num lugar tão invisível quanto hostil: “as pessoas não entendem e dizem que esse trabalho é pesado e triste. Mas para mim isso é caminhar junto”. E emenda: “não adianta só pesquisar se você não age. Para que você quer dados se não vai mudar nada?”. Com questionamentos semelhantes, e também provocadores, Margareth faz ecoar a voz da sua companheira de pesquisa e também de vida: “ouço as pessoas dizerem: ‘como você trabalha com isso? Não dá nenhum tipo de pontuação no Lattes’ e respondo falando que é isso o que traz sentido para a minha vida: não trabalho na linha da reprodução, mas da transformação. E um trabalho como esse, que alia teoria e prática, é revolucionário. Tem hora que a gente senta e chora muito. Depois a gente lava o rosto e continua, porque sabe que o trabalho precisa ser feito. Hoje, no ‘PIPAS’, são 375 pessoas participando. E cada um delas é responsável por uma ação social”. Telma Regina, professora e facilitadora social na Escola Anália Franco, onde um dos projetos do “PIPAS” acontece, engrossa o coro das professoras, explicando como a Pedagogia Social se constitui como ferramenta útil para o mundo em que vivemos, por seu potencial de transformação da realidade e sua convocação ao engajamento das pessoas: “constato que a Pedagogia Social veio dar respostas para o momento que estamos vivendo. Ainda vamos ouvir falar muito do facilitador social, esse mediador de excelência. Dirimindo conflitos, contextualizando uma questão muito escassa no homem moderno, que é a fé em si mesmo, a fé no outro, a fé num mundo melhor”. Emocionada, Telma revela o quanto a pedagogia social é para ela mais do que uma profissão, mas uma forma de viver: “a pedagogia social faz a gente marejar. Se você ainda não marejou, marejará. Você acaba crendo no que a ciência mostra, que você é mais água do que qualquer outra coisa. Me sensibiliza, me espiritualiza, no sentido verdadeiro de espiritualidade, que é até citado na conceituação de Dalai Lama. Ele diz que espiritualidade é tudo aquilo que te transforma e aqui você se sente transformado dia a dia”. Com olhos para ver e coração para sentir, Margareth, Conceição e Telma, fazem um convite para um encontro inadiável com a diferença, num mundo onde ela parece não caber em lugar algum, experimentando com-viver com ela: “os cientistas chegaram à conclusão de que o órgão mais inteligente é o coração. Você viu essa pesquisa? Todo mundo acha que pensamos antes de sentir, mas os cientistas descobriram que não, que a sincronicidade é dada pelo coração”, conclui Telma.
UFF se destaca internacionalmente com pesquisas sobre cidades inteligentesJá imaginou uma cidade inteiramente conectada, com seus sistemas de transporte, governança, educação, iluminação pública e energias renováveis operando de forma integrada com os cidadãos? Esse tipo de funcionamento urbano já existe e é chamado de cidade inteligente ou Smart City (SC). Na UFF, sob a coordenação do professor Luiz Satoru Ochi, um grupo de pesquisadores do Instituto de Computação se dedica a estudar esse fenômeno no Brasil e também no mundo, estabelecendo parcerias com diversas empresas brasileiras, como a Petrobras e o IBGE, e com universidades francesas, a exemplo da Avignon Université e da Université de Versailles-Saint Quentim. Segundo Luiz Satoru Ochi, “o conceito de SC envolve a utilização da tecnologia para facilitar o planejamento e a construção de serviços inteligentes para as cidades. Seu maior benefício, portanto, é o de trazer qualidade de vida para as pessoas”. Os encontros do grupo de pesquisadores, formado por professores de diversas universidades brasileiras e francesas, assim como estudantes de pós-graduação, acontecem também na UFF, no Laboratório de Inteligência Computacional do Instituto de Computação da UFF (LabIC). A ciência precisa estar sempre à frente de seu tempo, prevendo adversidades e também propondo soluções”, Elias Lawrence. Nesse espaço, eles têm se dedicado a desenvolver novas tecnologias através de pesquisas acadêmicas e junto às empresas e indústrias, na formação de recursos humanos e no desenvolvimento de novos produtos direcionados à população como um todo. Algumas dessas tecnologias estão voltadas, por exemplo, à melhoria dos setores de serviços públicos e privados do país. Um exemplo é o trabalho desenvolvido por Elias Lawrence, aluno de mestrado do departamento de computação, orientado por Satoru Ochi. O mestrando pesquisa o roteamento de drones com o intuito de encontrar rotas para que os veículos cumpram seus objetivos de forma rápida, econômica e segura. Os drones seriam empregados para inspeção de áreas de risco, em pontes, rede elétricas etc. Segundo Elias, “uma economia que negligencia condições sociais de sua população não pode ser considerada inteligente. A cidade deve saber tudo o que está acontecendo dentro de seus limites, guardando dados sobre trânsito, crimes, desastres... Falta de informação não pode ser um obstáculo para autoridades resolverem os problemas dos cidadãos”. O conceito de Smart City, explica o mestrando, “vai além da crença popular de uma cidade cheia de robôs, como no desenho animado dos Jetsons e em outras ficções científicas. Trata-se de cidades planejadas e tratadas de forma inteligente pelas autoridades, em conjunto com a comunidade científica, visando ao crescimento econômico, mas sem deixar de lado a sustentabilidade”. Outro exemplo possível de utilização da tecnologia para a construção de uma SC gira em torno do problema de desperdício da água potável e de análise de sua qualidade. Algumas empresas já pensam, num cenário futuro, por exemplo, a realização de um monitoramento e gerenciamento de ecossistemas aquáticos inteiros, desde rios e reservatórios até bombas e canos das casas, de modo a conferir informações úteis aos indivíduos; se possível, diminuindo também a demanda. Também pode ser citado o emprego de tecnologia digital para solucionar questões de governança, o que implicaria um melhoramento da comunicação do setor público e incentivaria a população a participar dos processos de tomada de decisão. Os sistemas de votação se tornariam mais eficientes e contribuiriam para um governo mais transparente e responsável. Perspectivas futuras A equipe coordenada por Satoru Ochi tem muitos projetos que, tais como os citados anteriormente, relacionam-se à construção das SC. Dentre os promissores planos para o ano de 2019, por exemplo, está o de inaugurar no Rio de Janeiro uma Escola de Verão para estudantes de graduação e pós-graduação com a temática das Smart Cities. A iniciativa será realizada em conjunto com universidades francesas e terá o apoio dos consulados da França no Rio de Janeiro e em São Paulo. A ideia central do evento é reunir durante uma semana estudantes de graduação e pós-graduação do Brasil, da França e de países da América Latina para a realização de atividades diversas, e em tempo integral, sobre o estado da arte, novas tendências e a importância das SC. No evento, serão convidados alguns especialistas do Brasil, da França e, eventualmente, de outros países, para ministrar minicursos e palestras sobre o tema. Além disso, os estudantes que já atuam na área irão fazer apresentações e abrir discussões entre eles para produzir novas ideias sobre as SC. Para Luiz Satoru Ochi, pensar as SC se faz urgente e fundamental na construção de outro modo de viver e na abertura de uma nova forma de “diálogo entre as cidades e os cidadãos”, e a ciência é um campo fértil para isso. Como explica Elias, entusiasmado com sua pesquisa, “a ciência precisa estar sempre à frente de seu tempo, prevendo adversidades e também propondo soluções”.
Sispro: novo sistema de gestão economizará tempo e recursos para a UFFEm evento realizado no dia 09 de janeiro de 2019, no auditório da Fundação Euclides da Cunha (FEC), foi apresentado à comunidade universitária o Sispro: um inovador sistema eletrônico para a gestão de projetos apoiados pela FEC, desenvolvido pela Pró-Reitoria de Planejamento (Proplan) e a Superintendência de Tecnologia da Informação (STI) da UFF, que visa agilizar a tramitação de projetos da instituição. Essa nova plataforma eletrônica, integrada ao SEI-UFF e, brevemente, ao sistema de informações da FEC, impactará todo o cotidiano da universidade ao reduzir custos e conferir maior transparência das informações. Desde o dia 07 de janeiro, data de seu lançamento oficial, as rotinas para cadastramentos de projetos na Universidade foram modificadas, não sendo mais necessário abrir processos físicos. Entre alguns dos benefícios e inovações do Sispro, destacam-se a modernização da gestão de projetos da Universidade, o aumento da produtividade, um maior controle da gestão e, por fim, uma integração em tempo real com a FEC. “O Sispro representa mais uma etapa fundamental na modernização e aperfeiçoamento dos processos da Universidade, conferindo agilidade, transparência e eficiência à tramitação dos projetos com a FEC. Com menos papel e burocracia, damos um passo importante na direção de uma gestão que valoriza o tempo dos docentes, como foco no desenvolvimento de suas atividades de pesquisa”, ressalta o reitor Antonio Claudio da Nóbrega. Ana Maria Lana Ramos, coordenadora de MBA em gestão de RH da Faculdade de Administração e Ciências Contábeis da UFF, também destaca algumas das inovações trazidas por essa plataforma. Segundo ela, ao possibilitar o gerenciamento eletrônico de projetos pelas coordenações de cursos, “o Sispro permitirá maior rapidez no encaminhamento de processos e redução de custo por meio da automatização de tarefas”. Já segundo Alberto Di Sabbato, Diretor-Presidente da FEC, “o Sispro significa evolução e aprimoramento da relação entre UFF e FEC no que diz respeito à administração dos projetos apoiados, uma vez que possibilita a efetiva integração dos sistemas. Desse modo, garante-se maior confiabilidade e agilidade às informações e aos processos que transitam entre as duas instituições, o que possibilitará o aumento da inteligência do fazer das equipes envolvidas e, em consequência, da sua produtividade”. Em caso de dúvidas, entre em contato com a Proplan pelo telefone: 2629-5217 ou e-mail: lvalle@id.uff.br.
A importância do afeto na cura de doenças é destaque no curso de Medicina da UFFFisiologia, Patologia, Histologia, Oftalmologia... e Espiritualidade. Essas disciplinas, que podem parecer incompatíveis, à primeira vista, fazem parte de um mesmo currículo, na graduação de Medicina da UFF. Criada em 2017, como fruto de uma parceria entre o urologista e professor da UFF, Genilson Ribeiro, e seu colega médico, Sérgio Felipe, “Medicina e Espiritualidade” é parte de um esforço em incorporar na formação dos futuros médicos um olhar humanizado em relação ao paciente e à possibilidade de ressignificação da doença. De acordo com Genilson, coordenador do curso, “vivemos um momento em que o mais importante é o ter e não o ser. As relações humanas estão deterioradas e isso também se reflete na Medicina e na relação com o paciente. O que estamos procurando ensinar é o resgate dos valores ético-morais esquecidos e a espiritualização das relações humanas”. Ausência de toque, relações mediadas por aparelhos, consultas rápidas e impessoais. Muitos são os elementos que compõem esse cenário descrito pelo professor, frequentemente vivenciado por quem visita consultórios médicos, onde a relação com o paciente se torna cada vez mais distante. A emoção, ponte através da qual o médico se conecta com ele e, também, instrumento fundamental de seu trabalho, sem o qual o diagnóstico se torna um ato puramente mecânico, é deixada cada vez mais à parte. Isso ocorre a despeito de o principal pré-requisito para um profissional de saúde, segundo Genilson, ser justamente a possibilidade de “se sensibilizar com a dor e com o sofrimento de um ser. Muitas vezes, a medicina convencional cartesiana-newtoniana se dedica apenas a tratar o efeito das doenças, ou seja, a sua manifestação física, esquecendo-se do binômio corpo-mente”. Saúde é bem-estar físico, psíquico, social, ambiental, funcional e espiritual, e não necessariamente ausência de doença", Genilson Ribeiro. Nem sempre foi assim. Um passeio pela história da Medicina revela momentos em que o ser humano era enxergado sob uma perspectiva mais integral, tal como nos períodos mais remotos da civilização. Naquela época, explica ele, “a Medicina esteve envolvida no seu aspecto místico e era exercida pelos curandeiros e xamãs”. Também no período clássico, com a escola Hipocrática, o homem era entendido como uma unidade, sendo considerado saudável aquele que possuía um estado mental e físico em perfeito equilíbrio. Posteriormente, passou-se por “um momento de obscurantismo no período medieval, no qual a superstição, o charlatanismo e a ignorância foram responsáveis pelo período tenebroso que a Medicina passou. Somente com o renascimento e a contribuição de Descartes que modificou-se radicalmente o pensamento da época, afastando a ciência da religião e deixando esta última a cargo da Igreja”. O desenvolvimento da Medicina tal qual a conhecemos hoje ocorreu apenas no século XIX, com o auxílio da Mecânica Newtoniana. Naquela época, “o ser humano se assemelhava a uma máquina e a influência da mente não era cogitada em nenhuma hipótese”, explica o professor. Atualmente, vive-se um novo paradigma, com o auxílio da Física Quântica, que estuda os fenômenos relativos às partículas atômicas e subatômicas; dos Campos Mórficos de Sheldrake, que questiona a visão mecanicista; e da Biologia da Crença de Lipiton, que se propõe a explicar como todas as células do corpo são influenciadas pelo pensamento. De acordo com Genilson, “não podemos afastar o efeito da mente sobre a gênese das doenças, tampouco a importância da vontade colocada a serviço da cura, conhecida popularmente como fé”. Ao contrário do que se pode supor, esse enfoque proposto pela disciplina não propõe, como explica o coordenador, a “substituição de uma anamnese detalhada e o contato com o paciente através do exame físico. O que nós fazemos é estimular o estreitamento da relação médico-paciente, pois acreditamos que este seja o seu primeiro ‘medicamento’. Como entender o sofrimento de alguém e auxiliá-lo a se tratar se não nos sensibilizamos com sua dor?”. E esse exercício de contato inicia-se em sala de aula com a discussão, por exemplo, de alguns grandes males da sociedade contemporânea, tal como a depressão, que possui componentes químicos, mas também relacionais e subjetivos. O professor reitera ainda que “há atualmente um aumento substancial dos casos de depressão e o aluno de Medicina está suscetível a desenvolver este quadro. Discutimos, em sala de aula, este fenômeno e buscamos encontrar soluções para o mesmo. Também tem aumentado consideravelmente os casos de suicídio no mundo e nós abordamos este tema, assim como muitos outros envolvendo emoções e sentimentos”. Paralelamente a isso, “enfatiza-se que os pacientes têm que aprender a desenvolver mecanismos interiores de ‘copping’ (enfrentamento) ou ressignificação do adoecimento, procurando o entendimento do sentido da doença na vida da pessoa. Isso está de acordo com a Carta de Otawa, pois a saúde é bem-estar físico, psíquico, social, ambiental, funcional e espiritual, e não necessariamente ausência de doença”, explica ele. Sob essa perspectiva, portanto, o médico não é um mero técnico executor de procedimentos, mas um ser humano, dotado da capacidade de sentir, sensibilizar-se com a dor do outro e, por meio dela, encontrar um caminho para a cura, de forma singular e cuidadosa. A despeito de todos os avanços tecnológicos das últimas décadas no campo da Medicina, da sofisticação diagnóstica, terapêutica e medicamentosa, uma coisa é inegável: o afeto continua revolucionário.
Em parceria com a Itália, UFF garante verba para a criação de serviço de saúde pioneiro no BrasilA UFF sediou, nos dias 29 e 30 de novembro, o Seminário Internacional “Reformas Sanitárias Italiana e Brasileira: trajetórias e perspectivas”, no qual foi debatido o projeto de instalação de uma “unidade de cuidados intermediários” em Niterói, entre outras questões. A iniciativa se deu como parte de uma parceria entre a universidade, a Secretaria de Saúde da cidade e o Serviço Social Sanitário da região de Emilia Romagna, em Bolonha (Itália) e acarretará na captação de uma verba de oitenta mil euros derivada do acordo de cooperação entre os países. Direcionado a pessoas em condições crônicas que agudizaram os sintomas e não têm possibilidade de serem assistidas em domicílio, a unidade oferecerá serviços de assistência para melhorar as condições de cuidado dos pacientes do sistema público de saúde, utilizando basicamente tecnologias leves, voltadas para a reabilitação, com baixo custo e alta eficácia. Para o reitor Antônio Cláudio Nóbrega, “este projeto representa uma importante inovação na rede de saúde de Niterói. Acompanhando a tendência internacional, ele prepara os serviços de saúde para os tempos atuais e futuros, com o aumento significativo da população idosa em relação à população geral, com elevação significativa das condições crônicas. Ele propõe um cuidado mais eficaz na recuperação ao crônico sem a necessidade de internação hospitalar, melhorando a eficiência dos serviços, com a redução de custos nesta atividade”. Dividido em duas frentes, o projeto, além de prestar esse atendimento, por meio de um programa piloto no Hospital Municipal Carlos Tortelly, inclui a capacitação de uma turma de profissionais para atuar nele. A previsão é de que o processo de formação tenha início nos próximos meses. Identificamos uma proposta inovadora para a saúde, que potencialmente tem a possibilidade de evitar internações, reduzindo a utilização de leitos hospitalares e cuidando melhor da população”, Túlio Batista. Segundo o coordenador do projeto e professor do Instituto de Saúde Coletiva, Túlio Batista, este é um processo de “transferência de tecnologia, em que Niterói será contemplada com os saberes e as práticas de uma experiência de cuidado similar na Itália. E em contrapartida, a UFF levará para eles o que nosso sistema de saúde pode oferecer em termos de aprendizado”. Conhecendo os serviços da região de Emilia Romagna, explicou o coordenador, “identificamos uma proposta inovadora para a saúde, que potencialmente tem a possibilidade de evitar internações, reduzindo a utilização de leitos hospitalares e cuidando melhor da população”. Esse serviço de cuidado, mais conhecido como “cuidados intermediários”, seria um ponto de apoio às atividades desenvolvidas na Atenção Básica, na qual não se faz necessária a assistência hospitalar ou paliativa. Para a diretora geral da Secretaria de Saúde da região de Emilia Romagna e uma das palestrantes do seminário sobre reforma sanitária, Kyriakoula Petropulacos, essa é uma parceria muito relevante, através da qual se estabelece uma conexão entre a universidade e o sistema de saúde: “temos uma população muito envelhecida e necessitamos tomar conta dela por meio de cuidados intermediários. Podemos compartilhar os resultados do nosso trabalho e, por outro lado, levar do Brasil todo esse trabalho desenvolvido no campo da educação”. De acordo com Emília, apesar de o Brasil ser um país muito mais novo do que a Itália, ele está enfrentando os mesmos problemas: “Aqui, a população também está envelhecendo e desenvolvendo doenças de caráter crônico. Temos que encontrar opções eficazes de tratamento, fazendo uso da pesquisa para esse fim. Nesse cenário, a colaboração entre Brasil e Itália é importantíssima”. Integrante do Conselho Científico do Centro Internacional de Saúde da Universidade de Bolonha, o professor Ardigò Martino explicou que a rede criada entre os países “facilita as pesquisas nos dois contextos, possibilitando a permanência mais prolongada dos profissionais nos diferentes lugares. Num primeiro momento, isso é um choque, entender as diferenças, se adaptar. Mas, com esse ‘incômodo’, facilita-se o entendimento, por parte dos envolvidos, dessas conexões globais que são determinantes de saúde nos diferentes contextos”.