Meio ambiente: poluição na Baía de Guanabara é tema de estudo na UFFA Baía de Guanabara é caracterizada por uma junção de elementos geomorfológicos, físicos, químicos e ecológicos, além de pela influência humana dos municípios do entorno, que conferem a ela uma complexidade de interações muito ricas e específicas. No entanto, a urbanização desprovida de infraestrutura e saneamento básico tem degradado intensamente a qualidade da água desse ambiente, especialmente em virtude do lançamento de esgotos sem o devido tratamento. Na UFF, foi inaugurado em 2016 o Laboratório de Ecossistemas e Mudanças Globais (Lemg), cuja missão é priorizar estudos transdisciplinares relacionados aos efeitos das mudanças globais sobre os ecossistemas tropicais, inclusive na Baía de Guanabara. Seu foco principal é a Biogeoquímica, ciência que estuda os processos intermediados pela atividade biológica e liberam à atmosfera gases estufa de carbono. Nesse contexto, tem sido estudado especialmente ecossistemas aquáticos desde áreas interiores - como Amazônia e Pantanal - a lagoas costeiras, baías e regiões marinhas de plataforma na costa do Brasil. O Lemg reúne cerca de 27 alunos de iniciação de científica e da pós-graduação, além de professores de diferentes áreas das ciências da natureza, abrangendo Geografia, Biologia, Geofísica, Química e Engenharia, os quais são beneficiados por estrutura multiusuária para análise de CO2 e CH4 em uma central de referência na UFF (CADEstufa/UFF). O Lemg possui um grupo multidisciplinar envolvendo diferentes áreas das Ciências Naturais e da Terra de três grandes universidades do estado do Rio de Janeiro. Os professores e pesquisadores Luana Pinho (Uerj), Vinícius Peruzzi (UFRJ) e Humberto Marotta (UFF) mantêm uma parceria e realizam estudos sobre a produção e a emissão de gases de compostos capazes de intensificar o aquecimento da biosfera por efeitos estufa. A poluição é um agente que pode causar ainda mais problemas do que os já conhecidos”, Humberto Marotta. Nesta parceria, a UFF entra especificamente com a Central Analítica de Alto Desempenho para Determinação de Gases do Efeito Estufa (CADEstufa/UFF). Nessa central, são analisados os gases dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4), compostos que apresentam a propriedade de intensificar o aquecimento global. A logística do projeto é gerenciada por professores responsáveis pelas análises de qualidade de água e outros parâmetros biológicos. De acordo com a professora da faculdade de Oceanografia da UERJ, Luana Pinho, além do reconhecido papel da queima de combustíveis fósseis e biomassa, são cada vez mais evidenciados os processos que liberam à atmosfera significativas quantidades de gases estufa a partir do aumento da decomposição de vastos estoques de matéria orgânica dos ecossistemas. “Regiões como a Baía de Guanabara são sítios preferenciais aos aportes de restos vegetais das florestas, que alcançam suas águas pela infiltração da água da chuva nos solos e pela contribuição direta de rios ou do escoamento superficial de água. A atividade de algas nas próprias baías pode representar outra importante fonte de fixação de gases estufa em matéria orgânica”, explica. Uma das ações do Lemg com foco de monitoramento é o Projeto Ecológico de Longa Duração da Baía de Guanabara, que vem sendo coordenado pelo professor Jean Valentin (UFRJ). Bimensalmente são realizadas coletas em dois pontos da Baía de Guanabara, um com mais influência de esgotos junto à Ilha do Governador e outro com maior troca de água com o oceano Atlântico em porção próxima do vão central da ponte Rio-Niterói. “Uma novidade é o início de monitoramento de 24 horas em um sistema totalmente contínuo, cujos testes foram de total êxito e seu início ocorrerá em 2018. Será o primeiro monitoramento de 24 horas em sistema contínuo diretamente da praia por meio de sistema de tubulações, visando avaliar os efeitos de longo prazo da poluição sobre a emissão de gases estufa à atmosfera”, esclarece o professor do Instituto de Geociências da UFF, Humberto Marotta. O sistema operacional coordenado pelo professor Humberto está sendo montado em colaboração com os professores Luana Pinho e Letícia Cotrim (ambas do Instituto de Oceanografia/UERJ) e do professor Vinicius Peruzzi (Instituto de Biologia/UFRJ) nas dependências do Hangar da Engenharia Naval da Ilha do Fundão (UFRJ). Para Humberto, esse estudo de qualidade da água e gases do efeito estufa permite diagnosticar os efeitos da poluição sobre o potencial de compostos que intensificam o aquecimento global. Dessa forma, pode-se gerar subsídios a governos e empresas sobre a temática. O professor afirma ainda que há dois impactos da pesquisa sobre o entorno da Baía: o primeiro é um confiável indicativo de qualidade da água da praia da Ilha do Fundão, que é crucial para determinar os usos de uma parte da Baía de Guanabara atualmente utilizada por uma população para fins de lazer, renda pesqueira ou de frutos do mar; o segundo é um melhor entendimento dos efeitos da poluição também sobre a emissão de gases do aquecimento global com implicações tanto locais, quanto de maior abrangência. Marotta finaliza relatando que os resultados parciais da pesquisa apontam um potencial papel social destes estudos. “A poluição é um agente que pode causar ainda mais problemas do que os já conhecidos. Para o futuro, nós pretendemos dar continuidade ao nosso projeto para obter resultados mais robustos”, conclui.
UFF atua com jovens do Preventório na prevenção ao uso de drogasDe acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde Escolar (PeNSE (https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv97870.pdf) de 2016, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), aumentou o número de estudantes do ensino fundamental, entre 13 e 15 anos, que já usaram algum tipo de droga. O consumo de drogas lícitas, como álcool e cigarro, subiu de 50,3%, em 2012, para 55,5% em 2015. Já o consumo de drogas ilícitas, como maconha, crack, cocaína, cola, loló, lança-perfume, ecstasy, etc., aumentou de 7,3% para 9% no mesmo período.  A iniciativa, que teve início no segundo semestre de 2017, conta com a participação de alunos do quarto período de Medicina, que promovem atividades de conscientização e prevenção ao uso de drogas entre os estudantes do sexto, sétimo e nono anos do segundo segmento do ensino fundamental - entre 11 e 16 anos de idade - no Colégio Estadual Maria Pereira das Neves, localizado na comunidade do Preventório, em Niterói, Agir na prevenção da doença, e não apenas no combate, é inteligente, funcional e mais econômico", Thiago Gomes, estudante de Medicina. Segundo o professor do departamento de Planejamento em Saúde, Carlos Dimas, a atividade é feita dentro de uma disciplina, chamada “Trabalho de Campo Supervisionado II”, ministrada no segundo ano do curso de Medicina. O objetivo é inserir os alunos nas unidades básicas de saúde (UBS), de modo que possam vivenciar e refletir sobre esse segmento do sistema de saúde. Assim sendo, eles acompanham os profissionais da área no seu processo de trabalho, conhecem a comunidade onde a unidade se situa e desenvolvem atividades assistenciais. “As turmas são divididas em pequenos grupos, que são inseridos em várias unidades de Niterói, entre elas, o Preventório”, relata. O professor explica que existe formalmente um projeto de extensão há mais de dez anos chamado “Diversificação de Cenário de Aprendizagem - a integração ensino-serviço e sociedade”, em que várias disciplinas estão inseridas, mas a atividade de prevenção ao uso de drogas no Preventório foi realizada pela primeira vez neste semestre. “É como se fosse um guarda-chuva, e em cada ponta dele está um tipo de trabalho e atividade que varia de acordo com a necessidade do público atendido. A demanda veio através da diretora de um colégio que estava dentro da comunidade e precisava de orientação nessa área, então aceitamos”, justifica. Para a aluna Uinalaiã Latessa, o intuito da atividade é integrar a unidade de saúde, a escola, a comunidade e a universidade. “Todo trabalho acontece dentro do colégio. Os profissionais das UBS vão até o local para dar assistência aos adolescentes no horário escolar, evitando assim a evasão. Se o adolescente tivesse que ir até a unidade de saúde, o projeto não teria a adesão que tem hoje”, ressalta. A atividade no Preventório é realizada por sete alunos do curso de Medicina, que atualmente atendem quase 100 alunos da rede pública. “São seis turmas, cada uma com em torno de 25 jovens. Cada roda de conversa conta com cerca de 15 estudantes do sexto, sétimo e nono ano”, destaca o professor. Carlos Dimas explica que ao todo, o projeto de extensão conta com aproximadamente 90 alunos de Medicina do 3º e 4º período. Esses alunos são divididos em pequenas equipes de, no máximo, dez alunos para cada professor. A atividade de prevenção às drogas é um subgrupo e cada um desses grupos está em uma unidade de Niterói realizando atividades distintas. O aluno de Medicina Paulo Postigo relata que na metodologia utilizada com os estudantes da comunidade, as atividades são desenvolvidas em dois encontros. Na primeira reunião, o grupo aborda os conceitos básicos e estabelecem uma aproximação com os adolescentes. “Nós nos apresentamos, perguntamos o que era droga, pedimos para darem exemplos, questionamos os conceitos de lícito e ilícito, etc. Queríamos investigar o que eles sabiam sobre o assunto, para planejar nossa ação no segundo encontro”, descreve. A aluna Camila Martins explica que o grupo queria que os participantes atuassem ativamente, trocando informações e construindo o conhecimento. “Antes mesmo do primeiro encontro, deixamos uma caixinha na secretaria, como se fosse um cofre, onde eles podiam depositar perguntas sobre o assunto sem se identificar. Além disso, distribuímos cartazes pela escola para chamar a atenção dos adolescentes, com memes e alguns fatos relacionados ao uso de drogas. Isso serviu como convite para que eles participassem das atividades”, relata. Em relação às drogas lícitas, o grupo tratou de álcool e cigarro, já nas ilícitas, focou em maconha, crack e cocaína. “Os próprios agentes comunitários sugeriram essas três, por serem mais comuns na comunidade. Além disso, apareceram com frequência nas perguntas deixadas na caixinha”, relata o aluno Thiago Gomes. Já no segundo encontro, Paulo conta que a equipe conversou sobre prevenção e questionou os estudantes sobre as atitudes que tomariam caso alguém lhes oferecesse algum tipo de entorpecente. “Os jovens montaram uma cena de teatro para simular a reação que teriam numa situação dessas e todos eles ficaram muito empolgados com a atividade”, ilustra. Os alunos de Medicina reafirmam a importância desse tipo de trabalho para sua formação acadêmica. Para Uinalaiã, as drogas são tratadas como assunto de polícia, quando deveriam ser de saúde pública. “Em questão de prevenção e conscientização, o fundamental é passar informação e é isso que nós, como futuros profissionais da saúde, devemos fazer. O médico deve atuar como educador e não apenas como alguém que detecta doenças. Isso faz com que a relação seja mais humanizada, pois ouve, conhece e interage com seu paciente”, afirma. Já para Thiago, “agir na prevenção da doença, e não apenas no combate, é inteligente, funcional e mais econômico”. O futuro médico Tássio Abreu concorda e acrescenta que a relação com o paciente consiste basicamente em lidar com uma realidade diferente. “Para a formação profissional do médico, essa relação humanizada é muito importante. Ser médico não é só ficar no consultório, é tratar a pessoa, considerar seus diferentes aspectos, não apenas doenças”, conclui.
TEDxUFF: um convite ao diálogo, reflexão e quebra de paradigmasO TEDxUFF (https://tedxuff.com/) é um evento organizado por alunos da universidade com intuito de transmitir conhecimento e gerar discussões relevantes para a sociedade. A proposta da iniciativa é trazer à comunidade interna e externa ideias e histórias muitas vezes pouco conhecidas, mas com potencial inovador e transformador. A ideia é inspirada no TEDx (link: https://www.ted.com/tedx/events/22047), que é um programa de alcance mundial idealizado para auxiliar comunidades, organizações e indivíduos a iniciarem diálogos e conexões em eventos, seguindo o modelo do TED - popular conferência que reúne os maiores pensadores e realizadores do mundo para compartilhar ideias e experiências. A temática do TEDxUFF - “Derrubando Muros” - tem o objetivo de estimular os participantes não só a adquirirem novos conhecimentos, mas também os convida à reflexão e quebra de paradigmas em suas próprias vidas. Atualmente ainda existem muitos muros invisíveis que isolam as pessoas, como preconceitos, tabus, ignorância, baixa autoestima e estagnação. "Entre tantas barreiras, é importante que as pessoas se disponham a quebrar o isolamento e distância do que é diferente. Entendemos que não basta expor o que há de novo e interessante no mundo, é preciso despertar o potencial que temos para promover as mudanças necessárias. No evento, as atividades colocam o público diante de palestrantes que já transpuseram diversas barreiras e certamente têm muito a compartilhar”, explica o aluno do quarto período do curso de medicina e um dos organizadores do evento, Jonadab Silva. De acordo com o estudante, a organização envolve voluntários de vários cursos, como medicina, jornalismo, desenho industrial, biomedicina, e das engenharias de produção e mecânica. “A falta de contato entre as diferentes áreas foi o primeiro muro que derrubamos. Assim, foi possível realizar um trabalho rico e plural. Embora o evento não seja de cunho estritamente acadêmico, os alunos envolvidos na organização têm a oportunidade de desenvolver habilidades bastante enriquecedoras tanto para a vida pessoal quanto para a vida profissional”, destaca. Entre tantas barreiras, é importante que as pessoas se disponham a quebrar o isolamento e distância do que é diferente", Jonadab Silva. O evento conta com a participação de diversos palestrantes (confira a lista (link: https://tedxuff.com/), entre eles, o astrofotógrafo brasileiro Carlos Fairbain, vencedor do concurso internacional de fotografia astronômica, e o educador Prince Pombos, nascido na República Democrática do Congo e hoje refugiado no Brasil, vítima de repressão política em seu país. Segundo Jonadab, “além das palestras, haverá momentos de interação e prática - TEDxExperience -, em que os envolvidos participarão de atividades incríveis e divertidas. Os temas das apresentações serão conhecidos na hora, principalmente porque o objetivo dessa experiência é estar aberto àquilo que não se conhece ainda”, justifica. Segundo a organização do evento, muitos palestrantes são servidores, alunos e ex-alunos da UFF, e isso proporciona um ambiente sem barreiras entre os diferentes cursos, títulos e profissões. “Haverá momentos para diálogo entre todos os envolvidos - palestrantes, participantes, organização e expositores - com o objetivo de estimular a troca entre pessoas que não convivem nos mesmos espaços tanto na universidade quanto fora dela. A promoção de uma conexão mais difusa entre as diversas áreas do saber traz para a nossa universidade um espaço de construção e futuras parcerias”, destaca Jonadab. Segundo o estudante, no TEDxExperience, além de convidados externos, haverá a exposição de diversos trabalhos de pesquisa e extensão desenvolvidos na instituição a fim de divulgar uma parte da produção científica da instituição. “A ideia é provocar o engajamento dos participantes naquilo que seja de seu interesse”, enfatiza. Segundo a organização, “o evento comporta 100 pessoas e os ingressos, no valor de R$ 47, podem ser pagos por boleto ou por cartão de crédito em até 18 vezes. O link para inscrição é: http://tedxuff.com/inscricao  Aberto à comunidade em geral, o TEDxUFF será realizado das 9h às 18h no próximo sábado, 18 de novembro, no Núcleo de Estudos de Biomassa e Águas (NAB), no Campus Praia Vermelha da UFF. Em caso de dúvida, basta entrar em contato através do endereço de e-mail: contato.tedxuff@gmail.com ou pelo Facebook: https://www.facebook.com/pg/TEDxUFFoficial/posts/
Alunos da UFF são contemplados em Prêmio Capes de TesesA Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) divulgou o resultado do Prêmio Capes de Teses 2017 concedido às melhores teses de doutorado defendidas em 2016. A premiação consiste em diploma, medalha e bolsa de pós-doutorado nacional de até doze meses para os pesquisadores premiados. A cerimônia de entrega dos prêmios acontece no dia 07 de dezembro de 2017, em Brasília. Na edição deste ano, três alunos da UFF foram premiados e receberam menções honrosas, que são Allan Sandes, da Geociências; Flavia Medeiros, da Antropologia; e Ludmila Gama, da História. O vice-reitor da UFF, Antonio Claudio Lucas da Nóbrega, enfatiza que a conquista destes prêmios pelos alunos da UFF representa não somente o mérito intrínseco dos trabalhos, mas também um universo crescente em toda a universidade de pesquisas de alto nível científico e com impacto social. Essa qualificação da pesquisa e da pós-graduação da UFF é resultado do talento e dedicação da comunidade acadêmica aliada a uma política institucional de apoio e incentivo ao trabalho qualificado.” Segundo o pró-reitor de pesquisa, Vitor Francisco Ferreira, ao longo dos últimos anos, o prêmio se tornou um importante reconhecimento aos trabalhos produzidos nos programas de pós-graduação. Além da medalha, valorização dos currículos do discente e do docente, do apoio financeiro dado ao aluno sob a forma de bolsa e o auxílio concedido ao orientador, há reconhecimento pelos Comitês de Área durante a avaliação quadrienal, pois receber uma deferência desta é uma honraria.  “As universidades também são reconhecidas com esse prêmio, pois demonstra a qualidade do ensino e da pesquisa na instituição. A Proppi tem incentivado que todos os nossos Programas de Pós-Graduação façam as suas seleções internas e submetam suas melhores teses à CAPES, como forma de prestigiar essa nobre iniciativa”, ressalta. O aluno do Programa de Pós-graduação em Dinâmicas dos Oceanos e da Terra (PGDOT), Allan Sandes recebeu o Prêmio Capes Teses na área de geociências pelo trabalho “Paleoclimate/paleoceanographic reconstructions of the Tropical South America", em que ele analisa a reconstrução climática da região equatorial da América do Sul, feita a partir de registros sedimentares marinhos retirados na Margem Equatorial Brasileira. Para Allan, que atualmente é aluno de pós-doutorado, o prêmio funciona como um elemento motivador, sobretudo neste período de cortes significativos no investimento em ciência e tecnologia, abrindo uma perspectiva pessoal interessante no meio acadêmico, pelo reconhecimento nacional de seu trabalho. “É um retorno extremamente positivo, não apenas pelos quatro anos investidos em um projeto de pesquisa científica, culminando com a tese de doutorado, mas, principalmente, por toda a minha trajetória acadêmica”, afirma. O estudante ressalta que a possibilidade de parceria com a universidade americana Duke (EUA), através do Programa de Doutorado Sanduíche no Exterior, foi de extrema importância para elaboração da tese, tanto no aspecto intelectual quanto prático. “Além de todo o esforço pessoal, o prêmio é resultado de políticas institucionais, através da universidade e dos órgãos de fomento à pesquisa, que permitiram o avanço da pós-graduação, projetando a ciência brasileira no cenário internacional”, declara Allan. Para o professor do  PGDOT que orientou a tese, Cleverson Silva, este prêmio demonstra que o programa desenvolve pesquisas de alto nível. “Esta pesquisa resulta do intercâmbio entre pesquisadores da UFF e da Universidade de Duke  (EUA), que foi iniciado com a vinda do navio americano de pesquisas Knorr ao Brasil, em 2008, para coleta de amostras do fundo submarino na região da margem continental do Amazonas. Esperamos que o prêmio ajude a divulgar ainda mais nosso Programa de Pós-Graduação e que seja um elemento positivo para nossa avaliação junto à Capes”, explica. A tese da aluna Flavia Medeiros, intitulada “‘Linhas de investigação’: uma etnografia das técnicas e moralidades sobre homicídios na Polícia Civil da Região Metropolitana do Rio de Janeiro”, recebeu a Menção Honrosa na área de Antropologia. O trabalho faz uma descrição etnográfica densa dos diferentes fluxos pelos quais sujeitos e coisas - documentos, armas, viaturas, objetos, etc. - que circulavam nos processos de gestão e administração institucional de mortes cometidas intencionalmente. “Minha questão inicial era compreender, desde a rotina de uma instituição policial dedicada exclusivamente para a investigação de mortes intencionalmente cometidas, como era a gestão pelo Estado, considerando o contexto brasileiro, onde há o maior número absoluto de mortes no mundo, cerca de 60 mil por ano.”, disserta. Segundo Flavia, a tese tem um tema cada vez mais relevante socialmente, considerando os homicídios como um problema social, e que merece ser discutido, especialmente pelas vítimas primordiais desses crimes: jovens, negros, moradores de favelas e periferias. O assunto, porém, é complexo e de difícil abordagem. “A menção honrosa demonstra que o investimento que temos realizado deu retorno, desde o trabalho em instituições de segurança pública e justiça criminal e até as interlocuções através das pesquisas, cursos ou em outras atividades acadêmicas. A abordagem da antropologia contribui por se preocupar com as especificidades locais e com a diversidade, na compreensão e reflexão de temas variados”, justifica. Para o coordenador do Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos (Ineac) e orientador, Roberto Kant, a tese de Flávia tem vários méritos. “É uma excelente etnografia, uma descrição de práticas e representações dos atores que entraram em interlocução com a pesquisadora e que tiveram seus pontos de vista incorporados ao da observadora, enfrenta preconceitos que existem, reciprocamente, entre o mundo acadêmico e o mundo policial e amplia o conhecimento e a reflexão necessários sobre esse campo da administração de conflitos e da segurança pública”, ressalta. Já a tese “Nenhuma ilha da liberdade: Vigilância, Controle e Repressão na Universidade Federal Fluminense (1964-1985)", defendida pela aluna Ludmila Gama, tem o objetivo de demonstrar como se deu o processo de investigação, controle, repressão e censura na universidade durante a ditadura empresarial militar no Brasil. A estudante trabalhou principalmente com o acervo do arquivo permanente da instituição, que, além de conter documentações acerca da Comissão Sumária criada na universidade para julgar opositores ao golpe de 1964, também guardou as fontes relativas à Assessoria de Segurança e Informações da UFF (ASI/UFF), órgão criado em 1971 como parte do Serviço Nacional de Informações. A estudante acredita que a menção honrosa mostra a relevância social da pesquisa e também remete à importância das questões que envolvem acesso à informação de órgãos e instituições públicas no Brasil na época da ditadura e na contemporaneidade. “Para mim, o trabalho tem valor por ter lidado com um conjunto de documentos extenso e por apontar as graves práticas realizadas no ambiente universitário durante a ditadura empresarial-militar. A tese trouxe uma lista preliminar de perseguidos políticos na universidade e acho que ela é um pontapé inicial para pesquisas futuras sobre o tema”, destaca Ludmila. Para o professor do Programa de Pós-graduação em História (PPGH) e orientador de Ludmila Gama, Marcelo Badaró, a tese de sua orientanda foi premiada porque combina de maneira exemplar uma extensa pesquisa empírica em fontes documentais, na sua maioria inéditas, com o rigor no debate da bibliografia acadêmica especializada e o uso adequado de um referencial teórico-metodológico pertinente. “Trata-se de um esforço fundamental para resgatar a história de práticas deletérias de perseguição política - às vezes com consequências fatais - no interior dessas instituições; práticas essas muitas vezes negadas ou silenciadas pela memória oficial das universidades e do país. Acima de tudo, porém, acredito que a atribuição dessa menção honrosa deva-se à relevância social do objeto do trabalho”, conclui.
UFF se destaca em avaliação da Capes com nove cursos de nível internacionalCriada em 11 de julho de 1951, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal Nacional de Nível Superior (Capes) tem como objetivo expandir e consolidar os programas de pós-graduação stricto sensu (mestrado e doutorado) em todo o Brasil. A avaliação, realizada pela agência a cada quatro anos, é uma ferramenta para que a comunidade universitária mantenha um padrão de excelência acadêmica para os programas de pós-graduação e seu resultado serve como base para a formulação de políticas para a pós-graduação e para as ações de incentivo a bolsas de estudo, auxílios e apoio acadêmico. Segundo o vice-reitor Antonio Claudio da Nóbrega, ao todo, 17 programas da UFF tiveram elevação dos seus conceitos na avaliação, sendo que aumentaram em mais de 2,5 vezes o número de programas nível seis. “Este avanço não é obra do acaso, mas resultado de planejamento institucional com base no apoio aos programas na forma de melhoria da infra-estrutura e atividades acadêmicas, mas principalmente da dedicação e excelência do trabalho do corpo docente, discentes e servidores tecnico-administrativos. A UFF é hoje uma instituição madura do ponto-de-vista da sua pós-graduação, mas temos convicção de que o fortalecimento desse trabalho, mesmo diante das grandes restrições orçamentárias do governo, produzirá avanços ainda mais robustos”, ressalta. Na escala de avaliação utilizada pela Capes, os cursos que recebem seis e sete - que contam com mestrado e doutorado - são considerados no mesmo nível de seus pares internacionais. Este ano, oito programas de pós-graduação da UFF receberam nota seis - Economia, Física, Geoquímica, Geografia, Computação, Comunicação, Estudos de Literatura e Química -, e o curso de História recebeu, mais uma vez, o conceito máximo, sete. Isso significa que a UFF conseguiu um desempenho superior à avaliação anterior, mesmo com o atual cenário brasileiro de austeridade, com cortes profundos no orçamento destinado à pesquisa e à pós-graduação. Em relação à última avaliação, houve um aumento expressivo no número de programas da UFF com conceitos seis e sete - de quatro para nove. Isso significa que mais alunos da instituição serão beneficiados com as vantagens que uma boa avaliação pela Capes traz. Dentre elas, estão a elevação do status do programa dentro da universidade, a valorização acadêmica imediata dos diplomas de mestrado e doutorado, aumento no número de bolsas e acesso a editais e projetos restritos aos programas com avaliação seis e sete. Para o coordenador do Programa de Pós-graduação em Física (PPG-Física), Marcelo Sarandy, a pesquisa no país tem evoluído em seus aspectos quantitativos e qualitativos. Nesse contexto, é bastante relevante para os programas o destaque no cenário nacional, o que favorece a obtenção de recursos e o desenvolvimento contínuo da pesquisa na universidade. “Para o PPGF, esse conceito seis demonstra mais uma vez, a qualidade do nosso trabalho. Temos alto índice de produtividade em pesquisa, tanto de docentes quanto de discentes, espectro amplo de linhas de atuação e boa infraestrutura para as atividades acadêmicas”, afirma. O Programa de Pós-graduação em Computação (PGC) possui um corpo docente bastante produtivo e já formou cerca de 120 doutores e 480 mestres. Recentemente, o Instituto de Computação da UFF ampliou sua infraestrutura, contando com um prédio com área de 5 mil metros quadrados dedicados exclusivamente a laboratórios temáticos de pesquisa nas áreas de Algoritmos e Otimização, Computação Científica e Sistemas de Potência, Computação Visual, Engenharia de Sistemas e Informação e de Sistemas de Computação, que já estão em pleno funcionamento. “Esta avaliação promoveu o programa ao nível seis e o coloca entre os dez melhores do Brasil”, declara o coordenador do PGC, Célio Vinicius Albuquerque. Já o Programa de Pós-graduação em Economia (PPGE) conseguiu elevar sua nota de cinco para seis e foi o primeiro colocado nacional na pontuação por docente permanente - aquele que pesquisa, orienta e ministra aulas, tanto na graduação, como na pós-graduação. Além disso, o corpo de professores conseguiu ocupar as primeiras posições em rankings nacionais de publicações. Para o coordenador, Fábio Waltenberg, o objetivo é manter essa avaliação no próximo quadriênio. “Estamos introduzindo ações afirmativas nos processos seletivos, a começar já este ano no mestrado. Para os próximos quatro anos, nosso programa terá um dos maiores corpos discentes entre os programas de economia no país”, certifica o professor. O diferencial do Programa de Pós-graduação em Geografia (PPGEO), segundo o seu coordenador, Marcio Piñon, é a produção intelectual qualificada, além de sua inserção internacional, em especial em países da América Latina e Europa, mas também da África, Sudeste Asiático e Austrália. Diversos docentes já participaram como professores visitantes em instituições estrangeiras e têm atuação em movimentos sociais em nível internacional. Além disso, já receberam estudantes de diversos países, especialmente latino-americanos. “Para o quadriênio em curso, esperamos adequar as nossas metas, otimizar os nossos esforços coletivamente e traçar estratégias, com o apoio da Proppi, para melhorar ainda mais os nossos resultados. Para isso, é fundamental que a Capes continue destinando recursos e bolsas em um nível satisfatório, capaz de atender à enorme demanda”, explica. Já para o coordenador do Programa de Pós-graduação em Química (PPGQ), Ricardo Cassella, alguns pontos são relevantes para destacar o programa, como a decisão de credenciar imediatamente os jovens pesquisadores que chegam à universidade e a grande variedade de linhas de pesquisa oferecidas, que permite que os estudantes possam realizar trabalhos em praticamente qualquer campo da química. “O PPGQ está, neste momento, trabalhando em várias frentes, discutindo questões importantes como as estratégias para aumento da produção científica, a modernização do quadro de disciplinas oferecidas, entre outros pontos”, destaca. De acordo com o coordenador do Programa de Pós-graduação em Comunicação (PPGCOM), Marco Antônio Roxo, o curso se  destaca no cenário nacional pela qualidade da produção intelectual dos seus docentes, conta com um corpo discente muito engajado, produtivo e apresenta uma ousada política de internacionalização, na qual se destaca a sua participação no convênio Erasmus Mundus e, em particular, no consórcio internacional Interzones.  “O PPGCOM conta com uma ativa política de intercâmbio em duas vias, isto é, viabiliza tanto o acesso de seus pesquisadores a outros centros de pesquisa relevantes, situados fora do país, como recebe alunos e pesquisadores estrangeiros, interessados em aperfeiçoar a sua formação”, declara. Para o aluno de doutorado do PPGCOM, Marcelo Alves, o relatório mostra a excelência acadêmica do programa e da universidade como um todo. “Entrei como mestrando em 2014 e fiquei para o doutorado em 2016. Este processo de aprendizado está sendo imensurável, pois pude entrar em contato com um corpo de professores altamente qualificado e atualizado com o estado da arte internacional de minha área. É um grande orgulho fazer parte deste programa da UFF", reconhece. Segundo o coordenador do Programa de Pós-graduação em Estudo de Literatura (PPGEL), José Luis Jobim, a avaliação colocou o curso no patamar dos 13% melhores do país. No Estado do Rio de Janeiro, há apenas dois cursos com nota seis e nenhum com nota sete nas áreas de Linguística e Literatura. Para a ex-aluna do mestrado, Clarissa Marinho, o corpo docente é qualificado, engajado em atividades de extensão, colóquios, eventos e etc., e o programa é bastante organizado e articulado entre as linhas de pesquisa e projetos. “Concluí o mestrado em junho de 2016 e durante o período do curso executei minha pesquisa com uma orientação de excelência”, assegura. O coordenador do Programa de Pós-graduação em Geociências (PPGG), Emmanoel Vieira ressalta que o excelente quadro de pessoal docente, técnico-administrativo e de laboratório; a forte inserção internacional com projetos desenvolvidos em parceria com diversos países, como França, Alemanha, EUA e Argentina; além de uma ótima biblioteca setorial, são os diferenciais que fizeram o programa atingir o ótimo conceito. Para ele, a nota seis representa um selo de qualidade do curso, que dá aos alunos melhores condições não só de realização de seus estudos quanto valoriza o título que recebem. “Com toda certeza a formação adquirida pelos estudantes os qualifica melhor para os desafios de um mercado de trabalho mais exigente e competitivo”, garante. Para a ex-coordenadora do Programa de Pós-graduação em História (PPGH),  Ana Mauad, a nota sete na avaliação da Capes reafirma a excelência do PPGH como um coletivo de docentes, discentes e  funcionários, e confirma a autonomia do programa na gestão dos recursos financeiros concedidos pela Capes. “A renovação da nota sete pela terceira vez sucessiva, nos projeta no cenário nacional e internacional com a certificação de excelência acadêmica. Atualmente, isso implica na confirmação das redes de pesquisa dentro e fora do país que, nos últimos anos, foram fomentadas, bem como na garantia aos nossos alunos e alunas do acesso a uma formação diferenciada na área de história”, conclui. A ex-aluna do mestrado em história, Nathália Nicolau, afirma que o diferencial do PPGH é a sua ampla produção em diversos eixos da história, por trazer alunos de diversos lugares do país com temas de pesquisas variados, o que torna o intercâmbio de conhecimento mais rico. “Minha experiência com o programa foi impecável. Os professores foram solícitos em me ajudar, sanar dúvidas, dando suporte para minha pesquisa tomar forma. Consegui terminar no tempo planejado e tive ajuda financeira da Capes”, finaliza.
Libras: curso capacita servidores para a inclusão de alunos surdos na UFFCom o objetivo de cumprir com o estabelecido no Decreto 5.626/2005, que regulamenta a lei que reconhece e oficializa a Língua Brasileira de Sinais (Libras) como língua oficial da comunidade surda brasileira, a UFF criou o Curso de Extensão em Libras. Com início no primeiro semestre deste ano, o curso está em sua segunda turma. O propósito do projeto é garantir a inclusão do surdo na universidade e sua proposta se aplica, principalmente, no âmbito da capacitação dos servidores das instituições de ensino do Rio de Janeiro, incluindo a UFF. Também foram criadas vagas para atendimento à comunidade interessada no aprendizado da Libras. Para a coordenadora do setor de Libras, Mariana da Cunha, é importante que a universidade esteja envolvida em todo processo de inclusão. “Neste projeto, propomos um curso de introdução à Língua Brasileira de Sinais, módulo I e II, em duas modalidades de ensino: presencial e à distância (via plataforma moodle), alcançando assim um quantitativo maior de interessados em se aprofundar na área, bem como oferecer ao surdo o acesso à informação, educação e todos os seus demais direitos de cidadão brasileiro”, afirma. Mesmo com o auxílio de um decreto que garante o ensino da Libras pelas instituições de ensino, o processo de adoção dessa disciplina não é simples. As universidades brasileiras oferecem o mais variado cardápio de habilitações em línguas estrangeiras, mas não conseguem implementar em sua grade curricular a Língua Brasileira de Sinais. “Para a criação de uma habilitação existem exigências que o corpo docente atual ainda não pode oferecer, principalmente no que diz respeito ao número de profissionais”, explica Mariana. A pior barreira ainda enfrentada no cotidiano das pessoas com deficiência na universidade é a atitudinal, o preconceito", Lucília Machado. O decreto prevê a capacitação mínima de 5% da equipe de servidores das redes públicas de ensino em Libras, assim como o acesso do aluno à educação, informação e comunicação, além de tornar obrigatório o ensino da língua de sinais nas instituições federais. Sendo assim, a capacitação nessa área é de extrema importância quando o assunto é inclusão do surdo no ambiente educacional. O curso de extensão conta com a colaboração de cinco professores de Libras, entre surdos e ouvintes. No primeiro módulo, participaram 50 alunos no modo presencial e 50 à distância. Já no segundo, que teve início em 26 de agosto, o projeto está funcionando apenas com o presencial e com 60 vagas preenchidas. “A procura para essas vagas foi de 559 pessoas em 2 semanas de inscrição, uma grande demanda. Acredito que o número expressivo de candidatos seja resultado da pouca oferta de cursos de qualidade nesta área”, garante a coordenadora. De acordo com Mariana, a Libras é uma língua brasileira oficialmente reconhecida e que deveria ser ensinada nas escolas, assim como o português. No entanto, ela acaba sendo tratada como se fosse uma língua estrangeira, recebendo menos valor do que merece. Para a professora, é de suma importância capacitar os servidores da UFF para receber surdos no ambiente educacional, já que o acesso à educação e informação é direito de todo cidadão. “Atualmente, na universidade, contamos com a colaboração do segurança Mario Junior - que trabalha no bloco D do Gragoatá. O funcionário, por iniciativa própria decidiu aprender a língua, se tornando popular entre os surdos. Sempre que alguém precisa de alguma informação prática é a ele que recorre. Atualmente, acredito que ele seja o único servidor que tenha essa formação”, exemplifica. Já para a coordenadora do Sensibiliza UFF, Lucília Machado, é imprescindível que todos os servidores - técnicos administrativos e professores - sejam não só capacitados, mas também sensibilizados com as questões relativas à acessibilidade e inclusão. “A pior barreira ainda enfrentada no cotidiano das pessoas com deficiência na universidade é a atitudinal, o preconceito”, reforça. Segundo a aluna do 2º período de Ciências Contábeis, Vanessa Rodrigues Ildefonso, o curso de Libras é fundamental para o atendimento de uma parcela da comunidade surda, na qual ela se inclui. “Lembrando que nem todos os surdos sabem Libras, mas, pelo menos, os servidores saberão lidar melhor tanto com os sinalizados quanto com os oralizados”, ressalta. Na opinião de Vanessa, outros obstáculos em relação à inclusão dos surdos no universo acadêmico também precisam ser encarados. “Escassez de acessibilidade, não só a Libras, mas a falta de legenda (estenotipia), o pouco preparo dos professores sobre como passar os conteúdos para os surdos - já que muitos têm uma grande dificuldade com a interpretação do português - são obstáculos que precisam ser transpostos no processo de inclusão dos surdos no universo acadêmico”, conclui a graduanda. Eventos No dia 12 de setembro, aconteceu o I Seminário Libras em Debate: A urgência da difusão, valorização da Libras e a inclusão do surdo na sociedade (SELIDE), no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRJ), em Campos dos Goytacazes. O evento contou com palestras, oficinas, apresentação cultural e mesa de debates, tendo como objetivo divulgar e valorizar a Língua Brasileira de Sinais, além de conscientizar sobre o respeito e a inclusão à pessoa surda, capacitando profissionais. Sua realização se deu entre a parceria da UFF com o Instituto Federal Fluminense (IFF). Já no dia 20 de setembro será realizado na UFF, no Campus Gragoatá, o I Encontro de Professores Bilíngues de Surdos (I Probis). O evento visa proporcionar um ambiente de trocas de experiência e informações entre professores das rede pública e privada que trabalhem com surdos, pesquisadores na área de Libras, surdez e bilinguismo, alunos dos cursos de licenciatura e demais interessados. Além de palestras e apresentação de pôsteres, o evento contará também com minicursos oferecidos por profissionais da educação, de diversas disciplinas, que apresentarão formas de trabalhar com o aluno surdo em sala de aula, dentro de um contexto bilíngue.
Pesquisador da UFF analisa ação das forças armadas no combate ao narcotráficoDe acordo com o Relatório sobre o Panorama das Apreensões de Drogas no Rio de Janeiro 2010-2016, a questão das drogas ilícitas é fundamental para entender o fenômeno da criminalidade no Rio de Janeiro e, no que diz respeito ao uso de entorpecentes, ainda há muitas lacunas a serem preenchidas. O professor do Departamento de Estudos Estratégicos e Relações Internacionais da UFF (Inest), Thiago Rodrigues, realiza uma pesquisa sobre militarização e combate ao narcotráfico, cujo objetivo central é investigar a história e os efeitos do emprego de forças armadas para combater grupos narcotraficantes na América Latina, com foco nos casos mexicano e brasileiro. Segundo o pesquisador, o interesse em realizar o estudo surgiu em 1997, quando começou a desenvolver um trabalho de iniciação científica sobre o tema do narcotráfico no Cone Sul, na graduação em Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC). Desse trabalho, desdobrou-se sua dissertação de mestrado, defendida em 2001 e que utilizou a metodologia da análise genealógica, proposta por Michel Foucault, para acompanhar a história política do proibicionismo, ou seja, o processo que levou à proibição de determinadas drogas psicoativas até o limite de transformar seu mercado ilegal (o narcotráfico) em um problema de segurança nacional e internacional. O trabalho, publicado em livro, ganhou esse ano uma nova edição atualizada e revisada: "Política e Drogas nas Américas: uma genealogia do narcotráfico" (Desatino, 2017). Já o projeto atual, que inclui Brasil e México, teve início em 2015, quando Rodrigues foi selecionado pelo Programa Álvaro Alberto de Indução à Pesquisa em Segurança e Defesa Nacional, promovido pelo Instituto Pandiá Calógeras do Ministério da Defesa e pelo CNPq. Nos dois anos de financiamento, ele contou com o apoio do também professor do INEST, Gabriel Passetti, e de duas bolsistas de mestrado no Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos (PPGEST-INEST), Raquel de Jesus e Thaiane Mendonça. O docente destaca também, no estudo do caso mexicano, a fundamental colaboração da professora do Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social (CIESAS/Guadalajara), Beatriz Caiuby Labate, com quem organizou dois livros: "Drogas, Política y Sociedad en América Latina y el Caribe" (CIDE, 2015) e, incluindo a pesquisadora estadunidense Clancy Cavnar, "Drug Policies and the Politics of Drugs in the Americas" (Springer, 2016). Rodrigues afirma que a pesquisa levanta questões e alertas sobre temas cruciais como a política de drogas e a militarização da segurança pública. São debates que a sociedade precisa fazer, mas que são, em geral, embotados por preconceitos e desinformação. Para enfrentar esses problemas, ele defende uma atitude aberta ao estudo, à análise crítica e ao diálogo. “Pude notar, nesses vinte anos de dedicação ao tema, que a maioria das pessoas deseja o mesmo: paz e tranquilidade na vida social. Então, com isso em mente, é preciso revisar as políticas e práticas que têm produzido justamente o contrário. A universidade é espaço que deve promover esse debate, gerando um ambiente acolhedor para que as diversas opiniões possam se expressar democraticamente, ou seja, sem impor versões, projetos ou preconceitos. Para tanto, é preciso uma disposição de pensar e alterar posturas, às vezes, arraigadas há muito tempo”, justifica. Abaixo, o professor explica um pouco mais sobre seu trabalho: Thiago, em sua pesquisa, como avalia o uso da força militar para combater o narcotráfico no Brasil, assim como foi feito no México? No Brasil, o emprego de militares no combate ao narcotráfico é ainda recente e relativamente incipiente quando comparado ao caso mexicano. As principais iniciativas no Brasil se dão a partir da Lei Complementar 97, de 1999, ampliada pela Lei Complementar 136, de 2010, que conferiram o chamado "poder de polícia" ao Exército e Marinha, na faixa de fronteira e nas águas territoriais brasileiras. A partir de 2004, o país passou a contar com uma "lei do abate", que permite a derrubada de aeronaves suspeitas pela Força Aérea, se autorizada pela Presidência. No entanto, o maior impacto do emprego de militares veio nas chamadas "operações de garantia da lei e ordem", ou GLO. Também detalhadas por aquelas Leis Complementares, as operações de GLO permitem a mobilização de militares para funções de segurança pública. Foi com base nesse dispositivo, previsto na Constituição (Art. 142), que aconteceram as Forças de Pacificação do Exército nos Complexos da Penha e do Alemão (2010-2012), no Complexo da Maré (2014-2015) e a atual presença ostensiva de militares na região metropolitana do Rio de Janeiro, prevista para se estender pelo ano de 2018. De que forma os militares agem nas comunidades por eles ocupadas? E quanto aos moradores, como eles recebem esses agentes? Militares do Exército e da Marinha (fuzileiros navais) não são treinados para funções policiais. Sua doutrina e objetivos principais são voltados à defesa do território e da soberania nacional. Militares são treinados para enfrentar inimigos no campo de batalha, sendo tais inimigos, militares estrangeiros. Desse modo, o deslocamento de militares para ocupar e policiar regiões de cidades de seu próprio país é um desvio importante de suas funções e preparo. Nesse caso, é compreensível que haja intransigência e abusos. Quanto à reação dos moradores, é preciso ter atenção. A grande mídia costuma divulgar cenas de apoio à chegada de militares. No entanto, via de regra, as opiniões colhidas são de comerciantes, empresários, turistas e moradores de bairros de classe média ou classe alta. Os moradores das comunidades ocupadas são pouco ouvidos e suas vozes pouco divulgadas. É fundamental ter em mente que militares não devem cumprir a função policial por períodos prolongados. Qual a relação entre a estratégia de combate ao narcotráfico implementada no México e no Brasil? A situação da economia do narcotráfico nos dois países é significativamente diferente. No México, há grandes organizações (os chamados "cartéis") que disputam ferozmente o controle das rotas de entrada e distribuição de drogas ilícitas nos EUA. Esses grupos controlam partes de cidades e de regiões interioranas, e possuem campos para cultivo ilícito de papoula (visando a produção de heroína) e de maconha. Possuem, também, laboratórios para a produção de drogas sintéticas e, mais recentemente, para o refino de cocaína, que vem em estado bruto da América do Sul (Colômbia, principalmente). O nível de penetração institucional desses grupos é enorme, com grande influência desde as polícias e políticos locais até as altas esferas da administração federal, da polícia federal e das forças armadas. A presença de narcodólares na economia legal é muito grande, sendo a lavagem de dinheiro em hotéis, construção civil, times de futebol e campanhas eleitorais, estratégias muito usadas pelos chefes do narcotráfico. A política adotada pelo Estado mexicano, principalmente desde 2007, foi a de militarizar o combate aos "cartéis" mobilizando, principalmente, o Exército e a Marinha. Essa postura está afinada à política de "guerra às drogas" financiada pelos EUA desde os anos 1970. No Brasil, apesar da aceitação total da proibição das drogas e da repressão ao narcotráfico, o modelo coercitivo é historicamente diferente. As polícias militarizadas têm enfrentado de forma muito letal aos traficantes e supostos traficantes, que agem em comunidades e periferias dos grandes centros urbanos. Historicamente, o país foi um lugar de trânsito para a cocaína destinada à Europa e de consumo secundário. Por isso, grupos como o Comando Vermelho e o Terceiro Comando, passaram a disputar violentamente favelas para garantir territórios a partir dos quais praticar o varejo do narcotráfico. Máfias italianas e nigerianas, por exemplo, cuidavam do trânsito internacional (o atacado) da cocaína ilegal. Hoje é produzida aqui uma quantidade expressiva de drogas sintéticas, refinada parte da cocaína produzida na Bolívia, consumida maconha paraguaia e de produção interna e existem organizações como o Primeiro Comando da Capital que agem de forma quase empresarial, visando a penetração nas instituições do Estado. Você afirma que não vivemos em uma guerra civil, mas em um “estado de violência” cotidiano. Como explica essa violência semelhante a uma guerra em que vivemos? Fale um pouco sobre esse “estado de violência” cotidiano em que vivemos. O conceito de “estado de violência" foi cunhado pelo filósofo francês Frédéric Gros em livro do mesmo nome, publicado em 2007. Ele estava interessado em oferecer elementos analíticos para explicar acontecimentos como o terrorismo fundamentalista e as intervenções militares contemporâneas (como as guerras no Afeganistão e no Iraque). Para o filósofo, as novas formas de violência organizada no mundo são muito diferentes das clássicas, ou seja, do embate entre forças armadas claramente identificadas por uniformes, bandeiras, veículos e subordinadas a um comando claro. Agora, os conflitos seriam entre grupos que se movimentam com agilidade através de fronteiras nacionais, não se identificam com roupas ou uniformes, defendem causas difusas (como o fundamentalismo islâmico) ou sequer defendem causa alguma (como os narcotraficantes, que são apenas negociantes ilegais). O conceito de "guerra civil" é reconhecido no direito internacional e pressupõe grupos em luta dentro de um território visando, por exemplo, a tomada do poder político ou a secessão de uma parte do território para a criação de um novo país. O narcotráfico não opera como "guerrilheiros de uma guerra civil", porque eles ocupam territórios que lhes são importantes para realizar seu negócio, mas não visam a independência política desses espaços. Quando penetram e influenciam políticos e agentes do Estado, não é para tomar o poder no sentido clássico, mas para viabilizar suas lucratividades (ou seja, evitando a repressão, facilitando a passagem por portos e aeroportos etc.). Ainda assim, polícias militarizadas e forças armadas são mobilizadas para enfrentá-los e os próprios grupos narcotraficantes entram em confronto quando cobiçam ou defendem rotas e territórios. Portanto, há violência, mesmo sem haver uma situação de guerra tradicional (entre Estados) ou de guerra civil. Daí o interesse no conceito de "estados de violência". Em sua opinião, qual o problema em utilizar as forças armadas  para combater o tráfico de drogas? Em primeiro lugar, há o problema mais geral de usar a via repressiva para combater o tráfico, seja com polícias, milícias, paramilitares ou militares. O negócio com drogas psicoativas é muito rentável e arraigado em muitas sociedades em todo o planeta. A relação dos seres humanos com drogas que alteram a consciência é milenar e a tentativa de proibir o uso de algumas delas não alcançou sua meta, mas acabou produzindo um potente e violento mercado ilegal que convencionamos chamar de narcotráfico. Há cem anos a via repressiva tem sido tentada e há cem anos o narcotráfico apenas cresce em poder, abrangência e influência. Essa via é falida e isso se verifica empiricamente. Quando se pensa em empregar os militares no combate ao narcotráfico, o que age é o raciocínio do "fracasso": "já que com a polícia não deu certo, então vamos usar a nossa força máxima". Daí, a importância do estudo comparado com outros países que fizeram o mesmo. Temos casos mais antigos, como Colômbia e Peru, e os mais intensos atualmente, como o México. O que aconteceu nesses países costuma ser parecido: 1) as forças armadas são penetradas pela corrupção, do mesmo modo que as polícias foram antes; 2) o contato direto com a população leva a abusos de poder e à perda de confiança por parte da população; 3) as práticas de treinamento e os meios (equipamentos, armas) são readaptados para a função "antidrogas", o que, na prática, transforma as forças armadas em tropas policiais de elite, do tipo BOPE; 4) termina por incapacitar as forças armadas a cumprir suas funções de defesa da soberania, transformando-as em forças policiais. E o narcotráfico continua. Quanto mais forte é a iniciativa repressiva, mais seleciona-se os grupos ilegais. Em outras palavras, se o mercado fica mais difícil, apenas os mais fortes sobrevivem. Por isso, se o mercado de drogas é violento porque é ilegal, não há solução possível que não passe pela revisão das leis penais sobre drogas. Isso não significa "defender o uso de drogas", mas apenas a urgência em regulamentar o que hoje é completamente desregulamentado e violento. Como o governo poderia combater o tráfico de drogas sem o uso de força militar? Não há repressão eficiente para lidar com o narcotráfico. Esse negócio é extremamente volátil e ágil. Nele, opera um fenômeno chamado "efeito balão": quando uma ponta é apertada, o outro lado infla. Enfatizar a repressão numa favela ou numa cidade, leva ao deslocamento de grupos para outras regiões; aumentar a vigilância num trecho da fronteira, desloca as rotas para outras passagens; destruir campos de cultivo ilícito, leva ao início de plantações em outras regiões ou países. E isso tudo acontece porque o negócio ilícito das drogas é bilionário. Insistir na via repressiva gera muita lucratividade para a indústria de armas (que vende para todos os lados em luta), para as empresas de segurança privada, para os novos equipamentos de vigilância eletrônica (de câmeras a satélites) etc. Gera muito lucro, também, para as próprias organizações do tráfico, que não pagam impostos ou direitos trabalhistas. É um desafio encontrar um traficante que seriamente defenda a legalização das drogas. Por isso, a contenção dos alarmantes índices de violência que atingem os países da América Latina, por exemplo, passa não pelo aumento da velha fórmula da repressão, mas pelo deslocamento para a regulamentação do que é ilegal. O tráfico de drogas não é um fenômeno antigo. Ele começou a existir quando as primeiras drogas passaram a ser proibidas nos anos 1910 e 1920. Antes disso, muitas das drogas que hoje impulsionam violência e corrupção, eram produzidas, vendidas e consumidas legalmente. Se todos queremos mais paz e menos violência, é preciso estudar e não repetir velhos chavões. Estudando a história do narcotráfico e o que tem acontecido com a militarização em outros países, teremos um debate menos passional e mais pragmático para lidar com esse problema aqui no Brasil. E, finalmente, como você explica a aceitação da população e esse tipo de prática violenta cometida pelos agentes de segurança e corroborada pelo governo? Nossa sociedade formou-se com base em valores que incluem a ideia de que "castigar educa". Essa noção é muito arraigada em nossos costumes, pois vem desde a educação religiosa, na qual a punição é reiteradamente colocada como algo bom, que faz pensar e regenerar. A violência que nós vemos na vida social não é culpa do governo ou da polícia isoladamente. Ela começa em casa, quando usamos da violência física ou moral para coagir, inibir ou formatar determinados comportamentos. A maioria das pessoas age assim com as melhores intenções e sinceramente amam seus familiares, amigos, colegas. Por isso é tão difícil reparar nos efeitos da "cultura do castigo". Mas ela existe e se reproduz. Basta reparar nos presídios. Oficialmente eles existem para "reintegrar" à sociedade pessoas que cometeram "atos antissociais". Pois bem, esse modelo foi criado na Europa no início do século XIX, quando se acreditava que a correta disciplina corrigiria os "criminosos". Desde então, há duzentos anos, constata-se o fracasso da prisão e novos planos são feitos para "corrigi-la". Os efeitos são sempre os mesmos: a sociedade manda prender as pessoas que considera indesejáveis e perigosas. Se o lugar é decrépito e insalubre, a maioria das pessoas acha que é merecido que os prisioneiros sofram. Por trás disso, está a crença no castigo como educador. Então, tendo essa cultura do castigo distribuída por toda a sociedade, das classes altas às baixas, não é de se espantar que as políticas mais repressivas ganhem apoio. Afinal, as pessoas querem, com toda justiça, mais paz e tranquilidade. Novamente, a análise comparada com outros países ajuda a olhar por novos ângulos. No México, hoje, após uma década de "guerra às drogas", foram mais de 100.000 mortes relacionadas a esse conflito, os "cartéis" não foram enfraquecidos e a violência segue desenfreada. Somente agora, depois de tanto sangue, a população que apoiou a militarização se abre a pensar alternativas, como a descriminalização do uso de drogas ilegais. Quem acreditava que o sofrimento educa está sendo educado pela dor.
UFF Volta Redonda se destaca em competições internacionais de robóticaUFFight Robótica é um Projeto de Extensão que surgiu em 2012 a partir da empolgação dos alunos dos cursos de engenharias da UFF Volta Redonda ao serem desafiados a construir um protótipo capaz de exemplificar princípios fundamentais da mecânica. Além de desafiar seus integrantes a estudar, aprender e inovar, o projeto tem como objetivo central introduzir os alunos à robótica - que integra várias modalidades da engenharia - e construir robôs para competições em várias categorias como sumô, seguidor de linha e trekking. De acordo com os professores do Departamento de Engenharia Mecânica da Escola de Engenharia Industrial Metalúrgica de Volta Redonda (EEIMVR) Flávio Feiteira e Flávia de Paula Vitoretti e coordenadores do projeto, a empolgação impulsionava tanto os estudantes que viravam noites acordados buscando soluções criativas para os problemas propostos. O capitão da equipe e estudante de Engenharia Mecânica, Sérgio Ribeiro, explica que todas as etapas da montagem dos protótipos são desenvolvidas na UFF. “Trabalhamos o robô do zero, fazendo todo o projeto mecânico e eletrônico. Após isso, partimos para a montagem, usinagem de componentes e produção de placas de circuito eletrônico”, enfatiza. Segundo Feiteira, desde sua criação, 184 alunos já contribuíram com o projeto. Em média, a cada ciclo competitivo, 25 alunos se dedicam ao trabalho. “A cada ano entram e saem participantes, mas procuramos nos manter com essa média, que garante que as atividades sejam realizadas dentro dos prazos estabelecidos”, descreve. Desde 2015, a equipe faz parte do calendário competitivo da robótica na América Latina. Nessa trajetória, já conquistou quatro troféus, sendo um de campeão, dois de vice-campeão e um de terceiro lugar. Além disso, já se destacou algumas vezes entre os dez melhores das competições. “Esses resultados fazem do nosso grupo uma referência em robótica e inovação tecnológica na região Sul Fluminense”, ressalta Feiteira. Atualmente, o projeto conta com a participação de alunos dos quatro cursos de engenharia oferecidos na EEIMVR: Mecânica, Metalúrgica, Produção e Agronegócios. Porém, como as necessidades do grupo são  interdisciplinares, os únicos pré-requisitos para se participar de um processo seletivo do UFFight são ser estudante de qualquer curso da UFF e se interessar por robótica. Para a estudante de Engenharia Mecânica e líder da gestão da equipe, Letícia Estrela, o UFFight Robótica agrega muito no desenvolvimento profissional do aluno de engenharia. A multidisciplinaridade do projeto, que une os conhecimentos das salas de aula com os estudos da área de eletrônica e programação, possibilita um salto no desenvolvimento dos participantes. “Aprendemos a lidar também com gestão, trabalhando como se fosse uma empresa, gerindo finanças e delegando funções. É motivador saber que fazemos parte de um time tão premiado e que cresce e se supera a cada competição”, conclui. As competições latino-americanas são realizadas pela RoboCore, responsável por patrocinar a maior competição de Robótica da América Latina. “É uma empresa brasileira, com sede em São Caetano do Sul, São Paulo, onde mantém uma loja com grande variedade de componentes mecatrônicos necessários à construção de robôs. Desde 2005, a RoboCore estimula a robótica no país através de competições entre grupos de várias instituições nacionais e estrangeiras, com a participação de universitários e de alunos dos ensinos médio e fundamental”, explica Feiteira. Segundo o coordenador, a equipe almeja expandir e competir em outros lugares do mundo. “Um dos nossos maiores sonhos é poder participar de duas competições, a RoboGames, que é o Campeonato Mundial de Robótica realizado anualmente na Califórnia, e o International Robot Sumo Competition, que é o Campeonato Mundial de Robótica exclusivo da categoria Sumô, realizado anualmente no Japão", acrescenta. Para o coordenador do projeto, além das aulas regulares de disciplinas do curso de graduação relacionadas à área (Mecânica, Dinâmica, Controle Linear e Introdução à Robótica, entre outras) e de disciplinas da Pós-graduação acessíveis através do Programa de Altos Estudos da UFF, (Propagação de Ondas, Redes Neurais Profundas, Processamento de Sinais, e Métodos Computacionais, entre outras), os professores da EEIMVR contribuem com o UFFight orientando trabalhos de iniciação científica, projetos de fim de curso e dissertações de mestrado em temas ligados à robótica. A partir deste segundo semestre de 2017, o UFFight conta com a participação de alguns estudantes da Escola de Engenharia de Niterói. De acordo com Feiteira, esta parceria está ainda na fase inicial. “Estamos marcando uma reunião entre estudantes dos dois campi, via videoconferência, para compartilhar a trajetória e os conhecimentos de cada equipe. Acreditamos que vários desafios computacionais, mecânicos e eletrônicos que enfrentamos, possam ser compartilhados com eles, pois em seus integrantes há graduandos dos cursos de Ciência da Computação, Telecomunicações e Engenharia  Mecânica. Além disso, o professor do Instituto de Computação da UFF (IC-UFF), Esteban Clua, doou-nos uma placa eletrônica da NVIDIA e colabora conosco convidando-nos para eventos e palestras de sua área”, justifica. Na opinião de Feiteira, a técnica de ensino baseada na expressão “hands on approach” (mão na massa), em oposição à abordagem excessivamente teórica, estimula os alunos. Segundo ele, não há exame nem prova de conhecimento mais real que a proporcionada por uma competição de engenharia, por isso, o sucesso de projetos de extensão como o UFFight, o BAJA, o UFForce e o de lançamento de foguetes. Flávio Feiteira argumenta que a necessidade de resolver problemas reais de seus protótipos mostra claramente aos estudantes a vantagem e a necessidade de se dedicarem ao aprendizado da teoria e de ferramentas matemáticas e computacionais indispensáveis à modelagem dos fenômenos físicos. “Estudar equações diferenciais, física, métodos numéricos e eletricidade passa a ser muito interessante, invalidando o uso da expressão “não serve pra nada”. Outro fator que eleva o entusiasmo e a integração de discentes e docentes no UFFight, é o desafio que robótica impõe. O sucesso a ela relacionado amplia nosso orgulho acadêmico institucional através da possibilidade de divulgar o nome da instituição”, enfatiza. Para o estudante de Engenharia Mecânica e membro do robô Trekking, Walter Chagas, a área da robótica é especialmente atraente pois é uma atividade que, além de prazerosa, é também muito instrutiva. “Meu interesse na área também surgiu pela busca de uma adequação ao mercado de trabalho atual e futuro, que cada vez mais cresce na área de automatização de processos e trabalhos com inteligência artificial”, justifica. UFFight conquista posição de destaque em competição Latino-Americana A equipe UFFight de robótica participou no período de 06 a 09 de julho da competição Winter Challenge realizada pela RoboCore na cidade de São Caetano do Sul, São Paulo. O grupo atuou em quatro categorias do evento e representou a UFF nas categorias Seguidor de Linha Pro, Trekking Pro, Mini Sumô Autônomo e Sumô RC 3Kg. A equipe da UFF se destacou competindo contra engenheiros de dentro e fora do país ,e alunos de universidades de todo o Brasil. O melhor resultado foi com o robô Paladino, que participa da categoria Sumô Rádio Controlado de 3Kg, e já foi vice-campeão da edição Summer Challenge de 2015. Após vencer grandes competidores, como USP e Unicamp, Paladino terminou sua participação no evento com o 4º Lugar. Agora, o UFFight já se prepara para novos desafios e busca resultados ainda melhores para o próximo ano. Confira o trabalho através da página no Facebook: https://www.facebook.com/uffightvr, pelo Instagram @uffightrobotica e acompanhe os combates através do canal do Youtube: UFFight Robótica.
Culturas indígena e africana são destaque em novos cursos do ProlemJá pensou em aprender Guarani Mbyá ou Yorubá? O Programa de Línguas Estrangeiras Modernas (Prolem) - espaço acadêmico vinculado ao Departamento de Letras Estrangeiras Modernas do Instituto de Letras da UFF - oferece pela primeira vez cursos desses idiomas, já no segundo semestre de 2017, com o objetivo de minimizar as desigualdades étnicas e raciais do ensino superior no Brasil. O Yorubá é um idioma de origem africana, da família linguística nigero-congolesa, falado por pelo menos 22 milhões de pessoas no mundo, principalmente na Nigéria, Benim, Togo e Serra Leoa. Já o Guarani Mbyá pertence à família Tupi-guarani e é usado por diferentes povos indígenas em países como Paraguai, Argentina, Uruguai, Bolívia e também o Brasil. De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional, complementada pelas leis 10.639/03 e 11.645/08, o ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena passou a ser obrigatório em todos os níveis do sistema educacional brasileiro. Visando implementar essa proposta de cunho social, o Prolem agora oferece os cursos de Yorubá e Guarani Mbyá com duração de quatro semestres. A oferta dos cursos é parte do projeto Encontro de Saberes - surgido no marco da elaboração e implementação de políticas de inclusão e ações afirmativas no Instituto de Inclusão no Ensino Superior e na Pesquisa (INCTI), Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Universidade de Brasília (UnB) e no Ministério da Ciência Tecnologia e Inovação (MCTI), implantadas em diversas universidades públicas brasileiras, em nível de graduação e pós-graduação, dentre elas a UFMG, UFJF, UFRGS, UECE, UFSC e o Museu Nacional/UFRJ. O objetivo do Encontro de Saberes é mapear, avaliar e interpretar o efeito das políticas de inclusão étnica e racial no ensino superior, especialmente seu impacto nos campos político, epistemológico, sociológico e geopolítico. “A ideia é produzir e disponibilizar um corpo de conhecimento que fundamente as propostas e diretrizes governamentais, políticas públicas e programas de ação específicos para a promoção da inclusão e a superação das desigualdades étnicas e raciais no ensino superior brasileiro”, explica o coordenador do projeto José Jorge de Carvalho (UnB). Já, na UFF a proposta do Prolem é a de contribuir, através de uma atividade extensionista, com a criação de um ambiente de motivação, conhecimento e reflexão em torno das temáticas afro-brasileiras e indígenas. Apesar do estudo ser promovido pelas leis citadas, as línguas de expressão não fazem parte do currículo oficial de nenhuma das licenciaturas existentes nos cursos de Letras da instituição, afirma a coordenadora pedagógica dos cursos Viviana Gelado, “Tratam-se de línguas que foram marginalizadas ao longo do processo de institucionalização do estado e da cultura modernos, mas que são constitutivas da heterogeneidade cultural brasileira”, ressalta. Diminuindo desigualdades étnicas e raciais Segundo Viviana, a UFF é uma das pioneiras no estudo das literaturas africanas de língua portuguesa no Brasil e conta com disciplinas de História da África, criadas nos últimos anos e ministradas por docentes com pesquisa na área. Além disso, conta com pesquisas relativas às populações indígenas e afro-descendentes no país, e com a inclusão dos saberes produzidos por essas populações em disciplinas de diversas áreas, como antropologia, psicologia, educação, história, letras, geografia, arquitetura e medicina. Entretanto, o estudo das línguas pelas quais essas populações se expressam não foi objeto de ensino/aprendizagem nos cursos de graduação ou pós-graduação ministrados na universidade, mas foi realizado individualmente por pesquisadores da instituição. Desta forma, a partir da aprovação das leis que instituíram a obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira e indígena em todos os níveis de ensino no Brasil, e da implementação da política de cotas, a UFF foi inserindo progressivamente os saberes produzidos por essas comunidades culturais na grade curricular de alguns dos seus cursos de graduação e pós-graduação. No entanto, essa inserção se deu seguindo o mesmo paradigma epistêmico europeu, legado do processo de colonização e razão histórica principal da marginalização ou exclusão desses saberes no âmbito do sistema de educação formal. A metodologia Guarani Mbyá e Yorubá são línguas exclusivamente orais, ou seja, não possuem sua forma escrita. De acordo com a coordenadora do projeto, a perspectiva que assume o ensino desses idiomas no Prolem é cultural, priorizando uma abordagem em que a língua é estudada como meio de expressão de universos culturais diferentes do europeu. Como material para o estudo do Guarani Mbyá e do Yorubá, existe uma produção bibliográfica que foi se desenvolvendo ao longo dos séculos, desde as sistematizações promovidas pelo interesse das metrópoles imperiais nas Américas e na África Ocidental até os dicionários, gramáticas e coletâneas de narrativa, teatro e poesia contemporâneas - elaboradas por especialistas e estudiosos membros das respectivas comunidades linguístico-culturais. Assim, a metodologia em sala de aula integrará uma introdução a formas narrativas e poético-musicais com o estudo sistêmico de ambas as línguas. Os dois professores que ministrarão as aulas são falantes nativos dos idiomas, agentes culturais de suas respectivas comunidades linguísticas e possuem formação acadêmica nas áreas de Educação e História Intercultural Indígena (UFSC) e em Letras (Universidade D'Abomey-Calavi, Benim). Além disso, eles possuem experiência no ensino de Guarani Mbyá e Yorubá como línguas segundas ou estrangeiras para brasileiros, em diversos níveis e modalidades, em outras instituições acadêmicas do país. Inscrições Para a coordenadora, a expectativa é que os cursos sejam não só de interesse da comunidade acadêmica, como da comunidade externa. Neste sentido, é importante frisar que se trata de cursos que atendem à política de cotas instituída pela UFF, bem como promovem a inclusão epistêmica dos saberes das comunidades que se expressam nessas línguas. De acordo com esses perfis e propósitos, os alunos terão descontos expressivos nas mensalidades. O público do Prolem está dividido, basicamente, em quatro grandes categorias: estudantes universitários (50%), servidores públicos (20%), idosos e aposentados (15%) e público externo (15%). Do total de matrículas, aproximadamente metade dos participantes faz parte da comunidade acadêmica da UFF, entre estudantes, docentes e técnicos administrativos. Por se tratar de um Programa de Extensão, podem ser inscrever interessados da comunidade interna e externa, com comprovação de ensino fundamental completo e mais de dezesseis anos. As aulas de Guarani Mbyá serão ministradas aos sábados, das 8h30 às 11h45, e as de Yorubá às terças-feiras, das 18h30 às 21h40 e sábados das 8h30 às 11h45. As matrículas devem ser realizadas presencialmente no Prolem - 3º andar (sala 316) do bloco B do Campus do Gragoatá até o dia 18 de agosto com vagas limitadas. Para outras informações, entre em contato pelo telefone (21) 2629-2517 ou pelo e-mail prolem.atendimento@gmail.com.
Identidade cigana ganha destaque em projeto da UFF Angra dos ReisAngra dos Reis, município localizado no litoral sul do estado do Rio de Janeiro - também conhecido como Costa Verde - possui grande diversidade cultural, surgida através da presença de aldeias indígenas, quilombolas, caiçaras e uma comunidade cigana na região. Pensando em como compreender melhor essa pluralidade local, a professora do Instituto de Educação de Angra dos Reis (Iear-UFF), Mirian Souza, deu início há três anos ao projeto de pesquisa “Ciganos e políticas públicas em Angra dos Reis, Rio de Janeiro”. Segundo a pesquisadora, no Brasil, associações ciganas e representantes do estado brasileiro indicam a existência de 800.000 a 1 milhão de ciganos no país. No entanto, não se sabe como se chegou a esse número, uma vez que identidades étnicas, como a cigana, não são reconhecidas pelo censo brasileiro. “Não existe um fundamento para  esse número, embora apresentado por associações ciganas e, inclusive, atores da gestão pública”, afirma Mirian. Para a professora, o reconhecimento formal da identidade cigana implica um compromisso com a existência e, portanto, com sua reprodução cultural. O objetivo central do projeto é produzir relatos etnográficos sobre a identidade cigana na esfera pública e as formas pelas quais a identidade cigana é construída e negociada, como se transforma e é manipulada dentro de contextos definidos por políticas públicas e práticas burocráticas. Segundo a professora, a coleta dos dados etnográficos da pesquisa se estrutura a partir de trabalho de campo antropológico, envolvendo observação direta e observação participante no acampamento cigano do Perequê, bairro de Angra dos Reis. O trabalho de campo antropológico e a coleta de dados etnográficos são feitos por pesquisadores de iniciação científica desde 2014. De acordo com Mirian, quatro bolsistas já terminaram suas pesquisas e dois estão escrevendo seus trabalhos de conclusão de curso sobre o tema, enfocando as políticas públicas para ciganos, no âmbito da secretaria de educação do município. Atualmente, o trabalho conta com a parceria institucional de dois professores do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (INCT-INEAC/UFF), um do Departamento de Geografia e Políticas Públicas, Frederico Policarpo, e o outro do Departamento de Antropologia, Felipe Berocan. “Em Angra, o professor Federico co-orienta estudantes da iniciação científica. Já em Niterói, o professor Felipe pesquisa ciganos há mais de uma década”, explica a professora. Abaixo, Mirian Souza explica um pouco mais sobre a pesquisa sobre ciganos no município de Angra dos Reis: Qual o tamanho da comunidade cigana em Angra dos Reis e no estado do Rio de Janeiro? Não existem números oficiais sobre ciganos. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indica a existência de dez municípios com acampamentos ciganos no estado. No Brasil existem 291 acampamentos ciganos, sendo 102 na região sudeste. Esse número é resultado de uma consulta feita pelo IBGE aos municípios através de um “questionário básico de pesquisa de informações básicas municipais”. Neste questionário consta a pergunta: “Existe no município acampamento cigano?”. A pesquisa é feita apenas com o acampamento cigano do Perequê? Há outros acampamentos na cidade? Sim, a pesquisa de campo é desenvolvida apenas no Perequê. Mas, neste contexto, existem vários acampamentos. Por acampamento quero me referir a terrenos nos quais encontramos casas e barracas. As barracas também são casas, uma moradia. A diferença fundamental entre elas é a natureza do material de construção. A categoria casa é usada para as construções de alvenaria. Casas e barracas podem ocupar um mesmo terreno. Algumas residências são mistas, isto é, um cômodo é construído com tijolos e argamassa e o outro é coberto por lona. No Perequê, no entanto, tem um acampamento que se caracteriza pelas barracas, ocupadas, via de regra, por ciganos que passam pouco tempo em Angra. Sim, existem outros acampamentos na cidade. Interlocutores mencionaram, por exemplo, acampamentos no bairro Bracuí. Qual a diferença entre identidades étnicas e raciais e sua importância na construção da identidade cigana? Identidades raciais e étnicas são construídas socialmente. Na antropologia, ao menos na literatura contemporânea, sempre problematizamos o enquadramento de indivíduos em categorias étnicas ou raciais. A diferença entre tais identidades é que a categoria raça mobiliza um discurso da biologia, um parentesco biológico, como disse Weber. As diferenças no fenótipo, no entanto, são percebidas culturalmente e não possuem valor para qualquer diferenciação biológica. Identidades raciais e étnicas mobilizam uma origem comum, mas, o parentesco, no caso da etnia, é mais subjetivo. A identidade racial incorpora questões relacionadas à biologia para parecer objetiva, mas certamente não é. No Brasil, a categoria cigana compreende uma pluralidade de identidades étnicas, como calon, rom, kalderash, moldowaia, sibiaia, horahano, lovaria, mathiwia e sinti. Tais grupos, que não se esgotam aqui, não descrevem unidades homogêneas e comportam outras diferenças étnicas, assim como de clã, nacionalidade, religião, ideologia e etc. Na construção da etnicidade cigana, outras configurações identitárias são relevantes, como, por exemplo, identidades nacionais, regionais, de classe e gênero. Qual o papel desempenhado por agentes políticos ciganos na construção da identidade cigana na esfera pública? Minha pesquisa focalizou o papel desempenhado pelo músico e ativista Mio Vacite, presidente da União Cigana do Brasil, a mais antiga associação cigana em funcionamento no Brasil. Acompanhei o trabalho dele em reclamar junto aos meios de comunicação e ao Estado brasileiro sobre as representações negativas veiculadas sobre os ciganos e seu esforço na difusão de uma narrativa nacional para os ciganos. Ele tem uma vida pública cuja agenda inclui conferências, palestras, apresentações musicais e entrevistas. Inclusive, durante a minha pesquisa de doutorado, ele estava sendo entrevistado por três antropólogos. Agentes políticos têm um papel na construção da identidade pública dos ciganos. Mio Vacite, por exemplo, contribuiu para que o decreto que instituiu o Dia Nacional dos Ciganos no Brasil mobilizasse como símbolo a bandeira cigana (definida no Congresso Cigano de 1971, primeiro World Romani Congress, na Inglaterra), em detrimento da imagem de Santa Sara. O dia escolhido é o dia da Santa, mas sua imagem não aparece no decreto. Quais são as principais políticas públicas do Estado brasileiro para ciganos, no contexto do município de Angra dos Reis? Desde 2005, vem se construindo um conjunto de políticas interministeriais para os ciganos, numa agenda positiva para eles, que passam a ser reconhecidos como um grupo étnico que contribuiu e continua contribuindo para a formação da sociedade brasileira. Políticas públicas têm sido anunciadas, mas não são necessariamente implementadas. Na pesquisa em Angra, os bolsistas Bruno Cerchi e Mariana Guerreiro mapearam não só as políticas do governo federal como investigaram se os agentes públicos as conheciam e qual o impacto delas em suas práticas. A monografia da graduanda de pedagogia e integrante do nosso grupo pesquisa no Iear, Gleice Barata, focalizou a resolução nº3, de 16 de maio de 2012, do Ministério da Educação, criada para garantir que as crianças em situação de itinerância tenham acesso à escola pública. Mesmo sem documento escolar, a criança deve ter sua matrícula realizada. Nesse caso, ela deve ser avaliada e colocada em série escolar compatível com sua idade. Como a pesquisa de nosso grupo mostra, as políticas no campo da educação para ciganos existem, mas não informam as práticas cotidianas dos atores da gestão escolar. No Brasil, ainda há estigmas e perseguição aos ciganos? Sim. Em minha pesquisa, abordo os custos sociais da identidade cigana. Agentes políticos ciganos reclamam dos velhos estereótipos associados à sua identidade e, como em situações de conflito, eles são facilmente acionados pelos indivíduos e pelo Estado. Os antropólogos Felipe Berocan Veiga (UFF) e Marco Antonio da Silva Mello (UFRJ),  que me incentivou e orientou a estudar os ciganos, têm um artigo sobre a incriminação pela diferença. Eles analisam casos recentes de intolerância contra ciganos no Brasil, envolvendo a vizinhança, a polícia, a justiça e a mídia. São casos de incêndio em acampamento cigano e sua pilhagem na Bahia; de uma família que teve sua vida devastada pela acusação fundamentada em boatos e acusações. O que mais me comoveu, já que assisti às imagens, foi uma mulher que teve sua bebê de um ano e dois meses arrancada dos braços e, posteriormente, encaminhada para um abrigo, causando um trauma visível em mãe e filha e “televisível”, já que foi transmitido em todos os grandes veículos de comunicação. Em relação à educação, as comunidades ciganas se sentem inseridas nos espaços educacionais? Há pessoas capacitadas para lidar com essa identidade étnica? Na pesquisa em Angra, ficou claro que eles querem ir para o colégio. Os pais das crianças ciganas, que não frequentavam, querem seus filhos estudando na rede pública de ensino, mas as famílias enfrentam dificuldades para a matrícula. Conhecemos casos de mães que não puderam matricular as crianças em razão da ausência de documentos comprobatórios do nível de escolaridade. O argumento culturalista de que os ciganos se casam cedo ou de que são nômades não convence. Famílias ciganas em Angra querem que seus filhos se casem cedo, mas que também tenham educação formal. Os ciganos nômades, como outros sujeitos em itinerância, permanecem durante meses e até anos em determinados lugares, de modo que é possível a criança acompanhar bimestres e quadrimestres nas escolas. O letramento é considerado muito importante pelos ciganos, apesar das críticas em relação à educação moral das escolas.E, acredito que sim, existem pessoas capacitadas. Participei de um fórum de educação inclusiva da Secretaria de Educação que pensava a diversidade cultural do município. Ainda que não fossem especialistas, eram pessoas sensíveis à pluralidade e entusiasmadas com as experiências culturais com as comunidades quilombolas, caiçaras, indígenas e de imigração em Angra dos Reis. Ao mesmo tempo, são essas as pessoas que não matriculam uma criança sem documento, ainda que se tenha uma resolução do MEC para isso. Considera que os estudos sobre ciganos no Brasil seja satisfatório? Existe uma lacuna no campo. Mas a produção tem crescido, ao menos no campo da antropologia, que conheço bem. Coordenei um grupo de trabalho na última reunião da Associação Brasileira de Antropologia sobre ciganos, onde foram apresentados mais de 15 trabalhos de pós-graduandos. Minha colega na coordenação desse grupo, a professora Patricia Goldfarb (UFPB), coordena um núcleo com muitos orientandos que se dedicam ao assunto. Espero que o tema cresça e desperte o interesse de pesquisadores. Os ciganos estão, atualmente, muito abertos a contribuírem para a produção de conhecimento sobre si. A produção de novas narrativas que reconheçam a diversidade de significados atribuídos à identidade cigana é muito bem-vinda.
Pesquisa da UFF comprova a relação entre distúrbios mentais e alimentaçãoUma boa alimentação é essencial para nossa saúde, mas o que poucas pessoas sabem é que os alimentos que consumimos também podem se relacionar ao desenvolvimento de distúrbios mentais, principalmente nos primeiros anos de vida. Desde 2002, o Laboratório de Plasticidade Neural (LPN) da UFF, vinculado ao Programa de Pós-graduação em Neurociência, realiza pesquisas sobre o desenvolvimento do sistema nervoso central (SNC) e trabalha também com nutrição experimental, através de testes para avaliar os efeitos causados por dietas. Contando atualmente com professores da UFF, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e estudantes da pós-graduação e da iniciação científica, o LPN iniciou suas atividades em 1994. Desde então, o objetivo é construir conhecimento acerca da natureza das condições normais e patológicas do desenvolvimento neural dos indivíduos, inclusive durante a formação do feto na gravidez. Nesse sentido, os projetos em andamento abordam questões centrais para a boa evolução desde o ventre materno com o propósito de evitar distúrbios, deficiências mentais e doenças neurodegenerativas. A má nutrição pode produzir quadros de atraso do desenvolvimento que limitarão de forma permanente o desempenho da criança e do adolescente, diz Serfaty. O professor e chefe do laboratório, o neurocientista Claudio Alberto Serfaty, realiza pesquisas na área de desenvolvimento cerebral há mais de 30 anos. Segundo o docente, que pesquisa o cérebro humano desde a iniciação científica, o interesse em aliar suas pesquisas à área de nutrição surgiu depois do doutorado em biofísica, quando já era professor da UFF. O projeto de pesquisa sobre nutrição e desenvolvimento do sistema nervoso central tem como principal objetivo estabelecer os danos provocados pela má nutrição ao cérebro e de que forma é possível restabelecer o desenvolvimento normal com mudanças nos hábitos alimentares e estratégias de suplementação de nutrientes. Atraso na fala, apatia e baixa interação social são alguns dos exemplos do que a carência nutricional pode causar. Segundo Serfaty, a expectativa é que os resultados dos experimentos que estão sendo realizados atualmente no laboratório possam contribuir para a questão da saúde pública e para a conscientização da população acerca da importância de uma alimentação equilibrada para os mais diversos aspectos do desenvolvimento humano. A seguir, o professor Claudio Alberto Serfaty esclarece alguns tópicos importantes acerca das pesquisas do LPN: Como surgiu a ideia de aliar as pesquisas de neurociências à área da nutrição? A ideia surgiu porque certos nutrientes que dependem exclusivamente da dieta, tais como o triptofano e o ômega-3, têm grande importância para o cérebro. O triptofano é precursor metabólico do neurotransmissor serotonina - substância responsável por regular o humor, o sono, o apetite, entre outros - e o ômega-3 é um ácido graxo fundamental para o funcionamento cerebral. A deficiência nutricional na mulher gestante pode afetar o desenvolvimento cerebral do feto? Por quê? Sim, a gestante tem que ter muita atenção à alimentação. É importante ter um bom aporte de proteína de origem animal, ricas em triptofano, e também um equilíbrio na ingestão de gorduras. Quanto menos gorduras saturadas e mais fontes de ômega-3, como peixes e sementes como as castanhas, melhor. Lembrando que o óleo de coco é uma gordura saturada e prejudica o metabolismo dos ácidos graxos ômega-3. É importante ressaltar também que uma gestante ou lactante mal nutrida vai alimentar mal o feto ou o recém-nascido. Qual é, ou em que consiste, o período crítico em que o cérebro da criança é sensível ao status nutricional e ao padrão de estímulo ambiental? O período crítico de desenvolvimento é um período que vai do nascimento até os cinco a sete anos de vida, mas que pode se estender até o final da adolescência. Durante este período as sinapses amadurecem e são formados circuitos neuronais que são necessários ao pleno desenvolvimento das funções neurais. A estimulação ambiental é de fundamental importância para o amadurecimento do cérebro assim como uma nutrição correta e equilibrada. Quais são as formas de desnutrição mais preocupantes durante a infância e suas consequências? A forma mais preocupante é a desnutrição proteico-calórica, em que as crianças são de baixo peso e baixa estatura. Mas esta desnutrição é tão óbvia que é relativamente rara, ou o menos é rapidamente detectada. No entanto, existem formas de desnutrição onde a criança tem um bom aporte energético (e, portanto, não perde peso) que são tão preocupantes quanto a forma mais grave de desnutrição, ao menos para o desenvolvimento do cérebro. São elas a desnutrição proteica com restrição de triptofano, um aminoácido que só pode ser obtido pela dieta e que é necessário à síntese do neurotransmissor serotonina e má desnutrição derivada de deficiência do ácido graxo ômega-3. Quais são as gorduras saturadas e quais os efeitos graves elas podem causar no desenvolvimento do SNC? Gorduras saturadas são gorduras de origem animal ou vegetal que não possuem duplas ligações. Ao contrário, as gorduras poli-insaturadas, notadamente os ácidos graxos ômega-6 e ômega-3 tem diversos papéis fisiológicos e exercem funções no nosso organismo. Por exemplo, os ácidos graxos ômega-e e seu principal derivado, o DHA, é fundamental para a diferenciação de neurônios, manutenção de sua sobrevida, formação de sinapses e circuitos neurais sensoriais. O excesso de gorduras saturadas (de origem animal ou vegetal) impede a conversão de ácidos graxos ômega-3 em DHA prejudicando de forma muito importante o desenvolvimento do cérebro. Como a desnutrição por restrição de triptofano e ácidos graxos ômega-3 afeta o desenvolvimento do sistema nervoso central? Ambas a formas causam atrasos no desenvolvimento das conexões neuronais que podem ser reversíveis, desde que a pessoa retome uma dieta equilibrada dentro dos primeiros anos de vida. Estas alterações podem vir a ser permanentes se a criança não receber a complementação adequada até os cinco anos, que é o período crítico de desenvolvimento sensorial. A má nutrição por restrição de triptofano é comum em famílias de baixa renda, já que o triptofano tem como principais fontes as carnes, derivados lácteos e ovos, é uma forma de desnutrição característica da pobreza extrema. Já a desnutrição relacionada aos déficits de ácidos graxos ômega-3 pode ser observada em qualquer classe social. Basta que a gestante ou a criança tenha uma dieta baseada em alimentos industrializados, ricos em gorduras saturadas e gorduras trans, ou até mesmo consuma excessivamente óleos vegetais saturados, como o óleo de coco. Nestas condições, o organismo produz menos DHA - produto final da via metabólica do ômega-3. Além do que, as fontes naturais mais abundantes de ácidos graxos ômega-e são relativamente raras na nossa dieta: peixes oceânicos, castanhas e algumas sementes, como a linhaça. Por que os  ácidos graxos ômega-6 são mais prejudiciais? Os ácidos graxos ômega-6 também são importantes para o organismo. O problema é a alta concentração de ômega-6 em dietas modernas. O excesso de ômega-6, presente nos  óleos vegetais saturados, é prejudicial ao metabolismo dos ácidos graxos ômega-3 e à síntese de DHA. Essas formas de desnutrição têm relação com distúrbios neurológicos? A má nutrição pode produzir quadros de atraso do desenvolvimento que limitarão de forma permanente o desempenho da criança e do adolescente. Crianças mal estimuladas e/ou mal alimentadas podem apresentar alguns sintomas característicos do autismo como o atraso na fala, apatia e baixa interação social. Em ambas as condições, observa-se uma menor eliminação de sinapses transitórias, que são conexões neuronais inadequadas. Durante o desenvolvimento do cérebro, produzimos um grande número de sinapses imaturas. Algumas destas sinapses não amadurecem corretamente e devem ser eliminadas (sinapses inadequadas) deixando apenas sinapses funcionais (adequadas). Este é um processo normal do desenvolvimento que é fortemente influenciado pela desnutrição seletiva de nutrientes essenciais. Quais medidas poderiam ser tomadas para que a má nutrição não interfira no desenvolvimento do SNC? Sem dúvida os programas sociais de renda mínima e o combate à pobreza garantem que as famílias tenham acesso à cesta básica e a um melhor padrão nutricional. Isso ajuda, com certeza. Além disso, devemos estar sempre alertas à educação nutricional. Os pais devem ficar atentos às crianças que consomem alimentos industrializados em excesso e se recusam a se alimentarem adequadamente com fontes proteicas. Comida saudável é aquela que fazemos em casa.
Pós-Graduação da UFF leva ciência da universidade às escolas de NiteróiO Programa de Pós-graduação em Microbiologia e Parasitologia Aplicadas do Instituto Biomédico (PPGMPA) da UFF desenvolve a linha de pesquisa sobre paleoparasitologia, uma ciência pouco conhecida pela população, mas que possui grande potencial de despertar vocações científicas, inclusive na infância. Com o intuito de levar esse e outros tópicos às escolas, a professora do Instituto Biomédico e coordenadora do projeto de extensão “Paleoparasitologia para todos”, Daniela Leles, propõe a integração de alunos da educação infantil e dos ensinos fundamental e médio através de oficinas de divulgação científica. Segundo a professora, o objetivo dessa iniciativa é aproximar as escolas do que é produzido nas instituições de pesquisa, despertando vocações científicas. A primeira oficina foi oferecida no final de 2016 na Unidade Municipal de Educação Infantil (Umei) Rosalda Paim. A pedagoga da unidade, Lilian Simões Garcia, e Daniela decidiram adequar as atividades para a faixa etária de cinco anos. Neste primeiro semestre de 2017, a oficina foi oferecida também para a Umei Maria Vitória Ayres Neves. A expectativa é expandir a atividade a outras escolas da rede pública de Niterói. “Até o momento, 60 alunos participaram da oficina. Com o projeto de extensão aprovado e com a chegada de novos integrantes, pretendemos ampliar esse número. No segundo semestre de 2017, a oficina será oferecida para o ensino médio e para, pelo menos, três unidades de educação infantil já acordadas com a secretaria de educação de Niterói. Nossa perspectiva é atender uma escola por mês nos próximos anos”, explica Daniela. O interesse de Daniela em divulgar a ciência para o público infantil surgiu quando ela conheceu a estudante de biologia, Fernanda Guimarães - coautora do livro - e se interessou pela paleoparasitologia e faz o seu trabalho de conclusão de curso sobre o tema. A irmã de Fernanda, Leila Guimarães, graduanda em arquitetura pela UFRJ, também colabora no projeto de extensão como voluntária. A docente escreveu uma história para apresentar a paleoparasitologia às crianças, que deu origem ao livro “A vida dos nossos tá-tá-tá… tataravós”, com coautoria de Fernanda e ilustrações de Leila. A obra está disponível para download gratuito no site do Repositório Institucional da UFF (Riuff). Uma cartilha com atividades e jogos utilizados nas oficinas também foi produzida pela equipe. Atualmente, o projeto de extensão sobre paleoparasitologia conta com colaboradores da UFF e de fora da universidade, além de um aluno bolsista de ensino médio, Bruno César Bernardes. “Temos grande expectativa com a chegada do Bruno, porque, além da sua participação na oficina para as crianças, ele poderá nos trazer contribuições valiosas com o projeto que pretendemos realizar no ensino médio. Com o crescimento da ideia e oferecimento para outras faixas etárias, alunos que queiram participar do projeto serão bem-vindos também”, relata Daniela. Abaixo, a professora fala um pouco mais sobre o projeto: O que é estudado na linha de pesquisa sobre Paleoparasitologia do Programa de Pós-graduação em Microbiologia e Parasitologia Aplicadas da UFF (PPGMPA-UFF)? O programa PPGMPA-UFF para o mestrado e doutorado conta hoje com cinco áreas de pesquisa principais: bacteriologia, virologia, micologia, parasitologia e paleoparasitologia. A paleoparasitologia estuda os parasitas em material antigo datado de milhares de anos ou de períodos mais recentes. Usamos como fonte de estudo materiais arqueológicos e paleontológicos, como, por exemplo, coprólitos, que são fezes antigas, múmias, ossos dos nossos ancestrais humanos e de animais, até mesmo aqueles extintos, como os dinossauros. Normalmente, esses materiais ficam depositados em coleções com as quais mantemos contato, como a parceria com os pesquisadores da Fiocruz, de onde surgiu essa linha de pesquisa em nosso país. Existem vários métodos diagnósticos capazes de identificar quais são as parasitoses que circulavam no passado, onde surgiram e como se dispersaram pelo mundo, sendo que grande parte dos parasitos e microorganismos já identificados ainda estão presentes nos dias atuais e ainda causam agravos à saúde humana e animal. Com pouco material já é possível fazer os estudos, minimizando os danos à peça ou às coleções. Como e quando surgiu a ideia de integrar a linha de pesquisa sobre paleoparasitologia à oportunidade de desenvolver atividades com crianças? Inicialmente, esse projeto começou como uma contrapartida de uma bolsa “Jovem Cientista” que possuo até o final de 2018 e é financiada pela Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Assim, quando submeti o projeto para a Faperj em 2015, eu já vinha amadurecendo a ideia de oferecer oficinas para divulgação científica nas escolas, foi quando conheci a Fernanda Guimarães, que se interessou pela linha de pesquisa e pelas ideias prévias que eu tinha para a realização das atividades. Na época, eu havia escrito uma história infantil para ser usada como fio condutor para apresentar a paleoparasitologia às crianças, e, para minha surpresa, ela disse que sua irmã, Leila Guimarães, poderia ilustrar a história. Foi quando surgiu a ideia de, além de contar a história com as ilustrações que a Leila havia feito, escrever o livro e publicá-lo. Mas, para nós, era fundamental que o livro pudesse ser de acesso aberto, pois sabíamos que não teríamos livros suficientes para serem doados para todas as crianças. O projeto cresceu e, além do livro de história, fizemos também um livro “passatempo”, com atividades sobre a paleoparasitologia com a coautoria da Fernanda Guimarães, que funciona também como um elemento catalisador da imaginação das crianças, e que elas podem levar para fazer em casa, e trocar informações com os pais, amigos e familiares. Conte-nos mais sobre a metodologia usada nas oficinas. A oficina para as crianças tem início com a história “A vida dos nossos tá-tá-tá...tataravós”, onde trabalhamos os elementos para compreensão da paleoparasitologia. Contamos uma história que envolve o “cocô muito muito antigo”, que é o coprólito, o arqueólogo, o paleoparasitologista, o “paleoíndio”, um indiozinho criança, e os animais extintos. Depois disso, as crianças passam por um circuito de atividades, com jogo da memória e quebra-cabeça, que reforçam o que acabaram de ouvir. Como duas atividades principais, temos a miniescavação, em que as crianças têm a oportunidade de “descobrir” os coprólitos, os ossos e também a entrada em um ambiente escuro com uma lanterna. A ideia é mimetizar uma caverna, elas iluminam e vêem as pinturas rupestres nas paredes. No final, elas recebem dois livros, o da história contada no início da oficina e o de atividades, intitulado “Quem estuda as doenças dos nossos tá-tá-tá...tataravós?”. A metodologia usada será a mesma em todos os segmentos da educação básica, como educação infantil, ensino fundamental e médio? Se não, explique a diferença. A metodologia não será mesma para todos os segmentos. Para o ensino médio, faremos uma apresentação inicial com as principais descobertas na área e depois acontecerá um jogo interativo com a turma, o “PaleoQuiz”, que, em médio prazo, gostaríamos que se transformasse em um aplicativo para celular, também para ser baixado gratuitamente. Para a atividade para o Fundamental II, já elaboramos algumas ideias, em que pretendemos integrar melhor a parte da pesquisa com a divulgação desses resultados. Como avalia os resultados obtidos nas oficinas? Os resultados são avaliados tanto pelas conversas que temos com os profissionais das escolas, como entre nós que fomos até a escola oferecer a oficina. Mas, em uma delas, tivemos a oportunidade de pedir para as crianças fazerem desenhos sobre a oficina, onde foi possível perceber que ao menos naquele momento elas conseguiram expressar o que tinham acabado de vivenciar, foi muito recorrente o coprólito e a caverna, que faziam parte das atividades mais interativas, além dos personagens da história. Como as crianças recebem a oficina? Qual a reação delas? A primeira reação ao “cocô muito muito antigo”  é o “eca!” mas depois que a história vai sendo contada, todos eles querem ser o arqueólogo e entram na imaginação da história. Se tem um assunto que desperta o interesse das crianças é o espaço ou os Dinossauros e eu logo digo “Olha, o dinossauro também fazia cocô, você sabia? Dá para saber o que ele comia, quais doenças tinha, e um montão de outras coisas que vocês nem imaginam!”. É divertido, porque as crianças são muito genuínas. Tenho a impressão de que algumas dessas crianças serão meus colegas de profissão, espero que eu esteja trabalhando na área até lá. Acho que temos vários arqueólogos, paleontólogos e paleoparasitologistas por aí. Nós, pesquisadores, que precisamos dedicar grande parte do nosso tempo lendo, escrevendo, trabalhando em experimentos e em uma vida tão corrida, percebemos que essas experiências fazem com que retomemos a aqueles momentos especiais da infância que nos fizeram optar por nossa profissão e reavivam aqueles bons sentimentos. Caso alguma escola tenha interesse em receber a oficina, basta enviar e-mail para: dleles@id.uff.br.
Mulheres na ciência: grupos da UFF combatem a desigualdade de gêneroSegundo o Relatório sobre Igualdade de Gênero da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) de 2012, há um abismo de desigualdade entre os sexos nas áreas de ciência e tecnologia. Apesar de a participação feminina ser maioria nos cursos de graduação, de acordo com dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), as mulheres ainda são minoria no campo das ciências exatas. Pensando em como incentivar jovens estudantes a se interessarem por essas áreas, predominantemente masculinas, alunas e professoras dos cursos de Engenharia e Tecnologia da Informação (TI) da Universidade Federal Fluminense criaram grupos que fomentam a participação feminina na ciência e tecnologia e na ocupação de cargos de liderança. Um deles é o Include Meninas, projeto de extensão da Proex criado no começo de 2016 por duas professoras do Instituto de Computação (IC-UFF) com o objetivo de realizar eventos e atividades relacionadas à diversidade de gênero na área de Tecnologia da Informação (TI). Outro grupo é o O IEEE WIE UFF, que surgiu no final de 2015, visando formar uma comunidade acadêmica forte e participativa de mulheres e homens, igualmente capacitados, frente às entidades acadêmicas, ao mercado de trabalho e à sociedade. Include Meninas O Include Meninas tem como principal objetivo aproximar as alunas do ensino médio e fundamental à UFF, incentivá-las a seguir carreira na área de TI e empoderar as que já estão na área. O projeto faz parte do programa Meninas Digitais da Sociedade Brasileira de Computação (SBC), que atualmente está sob a coordenação dos professores Cristiano Maciel (UFMT) e Silvia Amélia Bim (UTFPR). Ele possui algumas filiais regionais, como o Meninas Digitais Regional Sul, Regional Mato Grosso, o Emili@as e o Cunhatã Digital.  O Include Meninas e o Digital Girls in Rio (UNIRio) são os únicos representantes no estado do Rio de Janeiro. O projeto começou em 2016 com apenas quatro alunas voluntárias. Já em 2017, a equipe do Include conta com cinco discentes que atuam efetivamente, trabalhando na elaboração e execução das atividades. Em todas as ações oferecidas pelo projeto, além de uma expressiva participação das estudantes de ambos os cursos - Ciência da Computação e Sistema de Informação - há também por parte delas um crescente engajamento em ações voluntárias. O público-alvo do Include Meninas é de estudantes dos ensinos fundamental e médio de Niterói e alunas matriculadas nos cursos do Instituto de Computação da UFF. Como afirma uma das professoras e coordenadoras do projeto, Luciana Salgado, o Include Meninas pretende despertar o interesse das jovens dos ensinos fundamental e médio para a  área tecnológica e apoiar a permanência e o desenvolvimento das alunas da graduação. “A diminuição da inclusão feminina na área de TI é um problema grave não só no Brasil, mas no mundo todo. O curso de Ciência da Computação da UFF, por exemplo, existe desde 1985 e possui atualmente 520 alunos matriculados, oferecendo 140 vagas anuais. Dos mais de 3000 estudantes que já passaram pelo nosso instituto, somente 16% eram mulheres. Além disso, esse número vem diminuindo a cada ano, chegando a valores alarmantes como a inscrição de somente uma menina em 2008”, explica. As palestras promovidas pelo grupo são abertas a todos os interessados, porém ministradas, exclusivamente, por profissionais do sexo feminino, com o intuito de garantir exemplos de profissionais bem-sucedidas em suas áreas de atuação. No entanto, fora da universidade, o foco é sempre nas meninas, na realização de cursos e aulas que atraiam um número maior de alunas para os cursos de tecnologia da informação. Para a professora e também coordenadora do Include Meninas, Karina Mochetti, o objetivo principal da iniciativa é atrair garotas para a área de TI, mas também são realizados eventos em que os meninos são bem-vindos. “Fazemos uma gincana de acolhimento todo período e abrimos a discussão a todos os alunos. É importante que os rapazes possam escutar o que as calouras têm a dizer para que eles contribuam para melhorar o ambiente das alunas já inscritas para cursar a graduação”, ressalta. Segundo Luciana Salgado, a baixa participação feminina em TI é uma questão preocupante, já que a diversidade em qualquer ambiente profissional é de importância vital para sua evolução. Ela explica que pesquisas recentes confirmam a participação minoritária das mulheres nos cargos de liderança e que não há indícios de mudança nessa realidade. “Mulheres e homens estudam, se esforçam e trabalham muito e as oportunidades de acesso a lugares de liderança deveriam ser iguais, pois ambos têm competência e potencial para serem líderes. A diversidade de gênero nos altos cargos gerenciais certamente trará benefícios às organizações, como maior representatividade às decisões, respeito à capacidade feminina e a inclusão de novos pontos de vista e habilidades”, analisa. Entre as ações para assegurar a presença feminina na área de TI, há duas frentes principais. Uma tem por objetivo atrair mais alunas da educação básica para este universo, oferecendo cursos e aulas dadas a colégios da região, ensinando pensamento computacional e programação, e mostrando áreas mais específicas como Inteligência Artificial. A segunda tem como propósito empoderar as meninas já inscritas nos cursos do IC-UFF, em que se realizam palestras, visitas a empresas e o acolhimento de calouros, mostrando a situação desigual já nos primeiros dias do curso e tentando deixar o ambiente mais aconchegante para as garotas. “Elas estão mais confiantes e mais confortáveis em dizer o que as incomoda. Ao mesmo tempo, os alunos também estão preocupados em manter um ambiente menos hostil para elas”, justifica Karina. O projeto já conta com dois artigos publicados e apresentados no Women in Information Technology (WIT), iniciativa da SBC para discutir os assuntos relacionados a questões de gênero e TI. Em julho será realizado um congresso em São Paulo e três alunas viajarão para apresentá-lo. Além disso, alguns trabalhos de conclusão de curso estão em andamento junto ao Include. “Estamos aproximando alunas da UFF e da educação básica a pesquisadoras e profissionais da área. Aos poucos pretendemos diminuir esse estereótipo de que computação é ‘coisa de menino’ apenas”, conclui Luciana. WIE UFF O Woman in Engineering (WIE UFF) surgiu em fevereiro de 2016 como grupo de afinidade do Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE), uma organização internacional e profissional sem fins lucrativos que começou com engenheiros eletricistas e hoje abrange as demais áreas da engenharia. Os grupos de afinidade, como o WIE e o Young Professionals (para engenheiros recém-formados) realizam práticas de cunho humanitário, que utilizam a tecnologia disponível e desenvolvida nos mais variados ramos da ciência para ajudar as pessoas. O IEEE, criado em 1963 nos Estados Unidos, está atualmente em 160 países e forma uma comunidade com 415.000 membros. Na UFF, a iniciativa conta com 26 integrantes, sendo 22 mulheres e quatro homens, e em sua gestão participam apenas alunos da universidade. Entretanto, são aceitos membros voluntários de qualquer outra instituição, não necessariamente da graduação. O grupo atua principalmente nos cursos de engenharia química, agrícola, ambiental, elétrica e civil, além dos demais cursos que promove a produção científica e tecnológica. O WIE UFF é uma organização profissional mundial com a missão de dedicar seus projetos e ações ao avanço da tecnologia em benefício da humanidade, reforçando a igualdade de gênero, o empoderamento feminino e rompendo paradigmas. A presidenta do WIE UFF e aluna do curso de engenharia agrícola e ambiental, Thaís Silva, explica que as protagonistas são mulheres, no entanto, também há a presença de homens, dependendo do ramo. “Vivemos em uma estrutura em que esses homens são privilegiados. Romper com o patriarcado é necessário, mas acreditamos na solidariedade deles às mulheres e que eles podem somar na construção de uma nova consciência política e no combate ao sexismo na ciência”, corrobora Thaís. Para Thaís, as características de gênero que frequentemente são atribuídas às mulheres, como cuidado e fragilidade, as distanciam da carreira científica. “Nosso grupo tem como missão superar esses estereótipos, afirmando a equidade de gênero, engajando e nos inspirando a estarmos em todos os espaços”, defende. Para assegurar a presença feminina nas áreas tecnológicas e científicas, Thaís afirma que é importante reconhecer o trabalho das pesquisadoras, pois elas inspiram futuras gerações. Segundo a presidenta, não questionar a ausência da mulher na produção de conhecimento científico faz com que a tecnologia não alcance o público feminino como deveria e desigualdades sociais também influenciam na aquisição do conhecimento. “Estamos cada vez mais nas sala de aula, sim, mas ainda temos que conquistar as mesmas oportunidades no mercado de trabalho, remuneração salarial, equidade de gênero e raça. Desde o princípio, nós, mulheres, lutamos para ocupar esses espaços, o problema é que somos invisibilizadas”, reforça. Segundo dados de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), as mulheres representam 51,5% da população no Brasil, no entanto, constituem uma minoria quando se trata de igualdade de direitos. Thaís explica que a participação feminina em cargos de liderança, seja na ciência, na política, em empresas ou na pesquisa, é pouco representativa. Essa desigualdade se dá pelas barreiras construídas socialmente e é necessário reverter esse quadro, principalmente no mundo corporativo, que é majoritariamente masculino. “Somos tão capacitadas quanto homens para assumir esses cargos, isso traz um olhar atento à nossa condição e transmite um legado para todos”, argumenta. Há dois projetos do WIE para assegurar a presença feminina nas áreas tecnológicas e científicas. O IEEE Star, cuja finalidade é apresentar as carreiras científicas para alunos e alunas e dar uma nova perspectiva de vida para as meninas, e o evento WIE Day, em que o grupo recebe a visita das profissionais que ascenderam nas áreas de ciência, tecnologia e empreendedorismo, com reconhecimento e valorização dentro e fora do país. Além disso, o grupo promove, junto ao IEEE, viagens, visitas técnicas, cursos, parcerias com startups e um encontro da Reunião Nacional dos Ramos Estudantis - IEEE (RNR).  “Essa motivação colabora na  permanência das alunas na universidade e potencializa suas carreiras. Dentro do WIE, asseguramos o lugar de protagonismo dessas mulheres em todas as nossas atividades, o que as influenciam em todo seu cotidiano, somos agentes transformadoras”, explica Thaís. A cor do grupo é o lilás, pois é a síntese entre o azul e o rosa, e historicamente é usado para representar a luta das mulheres por igualdade. Segundo Thaís, o WIE UFF é recente, comparado aos ramos de outras universidades, mas a cada evento é possível perceber seu crescimento, com grande participação da comunidade acadêmica. Atualmente, seu principal objetivo é sua consolidação como referência na educação científica e de gênero. “Acreditamos que nossas ações fortalecem a vida acadêmica das mulheres, possibilitam o  estabelecimento de redes de contato, fomentam pesquisas e nos engajam. Somos o ponto de apoio e encorajamento da ideia de que os espaços na ciência e tecnologia são também lugares de atuação feminina”, conclui. Para conhecer um pouco mais sobre os projetos e enviar sugestões, basta acessar as fanpages do Include Meninas e do WIE UFF no Facebook.
Cinema e educação: projeto da UFF aproxima Brasil e América LatinaPropor metodologias de ensino que vão além do tradicional é um desafio. Pensando nisso, pesquisadores do curso de cinema da Universidade Federal Fluminense criaram, em 2013, o projeto “Inventar com a diferença - cinema, educação e direitos humanos”. Reunido no espaço do Laboratório Kumã, o grupo propõe outras metodologias de ensino por meio de processos artísticos e direitos humanos que possam ser aplicadas pelos espaços educacionais sem que seja necessário o conhecimento das técnicas cinematográficas e da linguagem audiovisual. O foco central do projeto é na formação continuada de professores, buscando compartilhar saberes e práticas que unam o cinema à educação. Atualmente, o trabalho conta com, pelo menos, 16 integrantes, entre docentes, pós-graduandos, alunos bolsistas e ex-alunos e já foi aplicado em todos os estados brasileiros. Ao todo, mais de 4 mil alunos de escolas públicas já participaram das propostas do grupo. O coordenador do Laboratório Kumã e do Inventar com a Diferença, Cezar Migliorin, afirma que trabalhou por muitos anos em uma escola de cinema em Nova Iguaçu, a Escola Livre de Cinema e, em 2013, a Secretaria de Direitos Humanos do Ministério de Justiça e Cidadania entrou em contato com a equipe do projeto para propor uma parceria. Além disso, em 2016, um grupo de ex-alunos de licenciatura venceu um edital nacional e está montando uma escola de cinema no Colégio Universitário Geraldo Reis (Coluni-UFF). “Temos um engajamento com educação há muito tempo, bem antes da licenciatura, a relação com temas educacionais sempre foi muito forte”, declara. Cezar reforça que os professores não precisam ter uma formação profissional em cinema para trabalhar com essas metodologias. “Não trabalhamos com montagem, fotografia, roteiro e outras técnicas do cinema profissional, mas com jogos expositivos, com uma forma muito lúdica de lidar com o cinema na escola, pautado por uma experiência que parte do trabalho da pesquisa há muito tempo, que é ligado ao cinema documental. A metodologia que desenvolvemos envolve uma organização de trabalhos, possibilidades, dispositivos e formas de acompanhamento para que os professores possam trabalhar com cinema e direitos humanos”, descreve. De acordo com o pesquisador, o engajamento do curso de licenciatura em cinema com o Inventar com a Diferença proporcionou o contato com a secretaria de direitos humanos e foi proposto um projeto nacional de cinema e direitos humanos vinculado às escolas. “Em 2013 propusemos esse trabalho, que acontecia em pelo menos uma cidade de cada estado. Chegamos a ter 40 bolsistas da UFF e mais de 50 pessoas contratadas pelo projeto. Hoje em dia trabalhamos com o Inventar com a Diferença em 23 estados e 13 universidades”. O professor afirma que o objetivo do projeto atualmente é ensinar de maneira prática e partindo da experiência da imagem, diferente das oficinas mais tradicionais, em que os processos são feitos em etapas - primeiro é feito um roteiro, depois a escolha dos planos de filmagem, montagem e, por fim, a filmagem em si. “Desde o princípio queríamos que os professores e alunos pudessem ter uma experiência direta com a imagem, entrando em contato com pessoas, com comunidades e com o entorno das escolas”, justifica. Em 2014, o projeto Inventar com a Diferença ofereceu formação e acompanhamento a 459 educadores e 3859 estudantes de 257 escolas públicas do Brasil. Nesse contexto, foi produzido por uma equipe de quatro estudantes universitários de Cinema e Audiovisual o documentário “Pelas Janelas”, resultado do acompanhamento de parte dos processos e experiências em sete cidades ao longo de três meses. Oficina na Bolívia Em maio de 2017, Cezar Migliorin e o doutorando Isaac Pipano, também idealizador do Inventar com a Diferença, estiveram na Bolívia representando o projeto da UFF. Ambos ministraram um curso de cinema, educação e direitos humanos. A oficina foi oferecida em parceria com o Ministério da Educação da Bolívia, através da equipe de Formação Artística de Direção Geral de Educação Superior Técnica, Tecnológica, Linguística e Artística, em cooperação com a Embaixada Brasileira. Segundo Cezar, essa oportunidade surgiu quando alguns colegas bolivianos, chilenos e argentinos começaram a demonstrar interesse pela metodologia brasileira. A palestra foi direcionada a alunos e professores de ensino superior, já a oficina foi organizada nos moldes em que é feita no Brasil, de formação de docentes. “Na oficina da Bolívia, metade do público era de educadores da rede pública, de diversas áreas de ensino, e metade era de estudantes de licenciatura interessados na formação em cinema”, explica. O professor destaca a relevância de se produzir tecnologias e propor metodologias que unam cinema e educação em uma universidade brasileira. Ele avalia que para a UFF é muito interessante que outros países latino-americanos demonstrem interesse por uma iniciativa desse tipo realizada em um laboratório da instituição. “É um projeto que há alguns anos tem o apoio do Governo Federal, já ganhou editais da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj), já trabalhou com dezenas de alunos da graduação e bolsistas. Precisamos romper barreiras, o que UFF faz deve ser levado a outros setores da sociedade”, esclarece. O próximo país da América Latina a receber o projeto é a Argentina, a partir de agosto.  Além disso, segundo Cezar, o projeto voltará à Bolívia pela terceira vez até o final do ano. “Já existe um grupo de educadores bolivianos aplicando de forma independente a metodologia do nosso projeto, pois conheceram o trabalho através de uma ação que fizemos no Acre e reconheceram seu valor”, acrescenta. O professor defende o papel fundamental do Brasil na América Latina, pois somos vistos como uma grande referência no campo dos estudos de cinema, por exemplo, e o curso da UFF tem grande responsabilidade nesse contexto. “Sou presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Cinema e Audiovisual (Socine), que é formada por quase mil pesquisadores. A Bolívia é um país muito pequeno da América Latina, talvez seja um dos mais pobres, e lá não há nenhuma graduação em cinema. A Argentina é maior, mas, mesmo assim, ainda tem um campo pequeno se comparado ao Brasil”, argumenta. Migiorin afirma que historicamente o Brasil não se envolve tão diretamente nas questões da América Latina, diferente do olhar dos outros países latinos em relação ao nosso país. “Eles sabem exatamente o que está acontecendo aqui e sabem a importância que temos na área da educação e das artes. Não é à toa que se interessaram e nos convidaram a estreitar os laços, levando nosso projeto até eles”, defende. Direitos Humanos na Educação Para o pesquisador, no tema dos direitos humanitários, o princípio da igualdade é um dos principais pilares. “Nossa relação com os direitos humanos não é temática, segmentada e verticalizada. Nós não chegamos na escola definindo os tópicos sobre os quais vamos tratar, pois é fundamental reconhecer a importância dos saberes de alunos e professores igualmente”, esclarece. Migliorin acredita que, depois de um tempo nesse projeto, os educadores, escolas e estudantes que passam por ele saem mobilizados. A relação entre cinema, educação e direitos humanos promove o engajamento dos participantes com o entorno, com a comunidade. “Em agosto, estaremos encerrando as atividades em muitos estados e estamos dando grande ênfase ao trabalho em centros socioeducativos, em que os jovens estão privados de liberdade. Estamos trabalhando em seis unidades socioeducativas, em Recife, Belo Horizonte e Vitória, que vão até o final do ano”, observa. No trabalho com os centros socioeducativos de reabilitação de jovens, o cinema e o audiovisual permitem novas experiências na relação com o espaço, com os direitos e com a construção da identidade dessa população. O exercício do cinema permite uma reconfiguração dos sentidos, já que a violência é colocada como algo dado antes mesmo da experiência do mundo por esses adolescentes. No caso dos jovens privados de liberdade, há também uma restrição à reprodução de suas imagens, pois seus rostos não podem aparecer enquanto estiverem cumprindo sua penalidade. Desta forma, os exercícios proporcionam outra vivência da liberdade. Para ele, a centralidade da escrita e da matemática na escola carece de um terceiro pilar, que seria a ampliação da relação com o sensorial e estético através da imagem. “Eu diria que o projeto atingiu o sucesso no que ele se propõe. Porém, precisamos ir além, somente o engajamento de professores e alunos, com a aproximação da dimensão estética das imagens, pode transformar a educação mundial”, reconhece. Cezar avalia a experiência como incrível, apesar das dificuldades encontradas. O que os motiva a continuar são relatos de sucesso. “Hoje, a função da UFF é dar suporte às pessoas, grupos, ONGs, universidades e escolas que têm interesse em aplicar a metodologia. O que fazemos é dar um suporte, ajudando nas oficinas de formação de professores, mandando alunos para auxiliar em uma questão mais técnica. Fizemos uma publicação, o Cadernos de Inventar, que contém sugestões de atividades para as oficinas a serem ministradas nas escolas. Ela é distribuída gratuitamente em português e espanhol para todos os espaços que têm interesse”, finaliza.
Ambulatórios da Nutrição oferecem tratamentos para doenças crônicas a adultos e idosos Com o dia a dia mais corrido e a falta de tempo para se dedicar ao preparo de refeições mais saudáveis, houve, nos últimos anos, um aumento na incidência de doenças crônicas não transmissíveis (DCNT) em pessoas mais jovens. Uma preocupação que era predominantemente dos idosos, hoje atinge as pessoas cada vez mais cedo. As DCNT são algumas das principais causas de morte evitável no mundo, influenciadas por dietas ricas em gorduras, tabagismo e baixo nível de atividade física, o que vem aumentando juntamente com a expectativa de vida, e faz de doenças cardiovasculares o principal problema de saúde da população. Com o objetivo de realizar a avaliação nutricional e metabólica de adultos e idosos que apresentam doenças crônicas, como obesidade, hipertensão e dislipidemia, o projeto de extensão Avaliação e Intervenção Nutricional de Adultos e Idosos, oferecido como uma disciplina na Faculdade de Nutrição, fornece atendimento e tratamento aos pacientes que procuram por auxílio nutricional. Os idosos recebem o atendimento no ambulatório de nutrição do Centro de Referência e Atenção à Saúde do Idoso (CRASI), do Serviço de Geriatria da UFF, e os adultos são atendidos no ambulatório de nutrição da Faculdade de Nutrição. No atendimento são realizadas avaliações antropométrica, composição corporal, exames laboratoriais e aplicação de inquéritos alimentares, para que depois seja aplicada a intervenção necessária a cada caso. Como surgiu A ideia de montar o projeto surgiu em 2012, mas o funcionamento iniciou oficialmente em 2013. Anteriormente, os atendimentos com idosos aconteciam no Mequinho e era vinculado apenas à disciplina de Prática Integrada em Unidade Hospitalar, em que os alunos da graduação assistiam como era feito o atendimento ambulatorial. Os idealizadores e coordenadores do projeto de extensão, os professores e nutricionistas Gabrielle Souza, Sérgio Barroso e Sílvia Custódio, decidiram que seria interessante ampliar os atendimentos e o tempo de oferta deles, já que, anteriormente, funcionava apenas durante o período de duração da disciplina e, hoje, atende o ano inteiro. “Os atendimentos eram pequenos e com intervalos grandes entre eles, o que aumentava o número de faltas dos pacientes”, explica Gabrielle. No início de 2013, o ambulatório passou a receber alunos residentes, o que facilitou o entendimento durante todo o ano. “ Eu atendia e ficava com os alunos. Pedimos bolsistas, que davam suporte na organização, por exemplo, cuidando das fichas dos pacientes, da confirmação das consultas por telefone, lembrando das consultas pois, como são idosos, eles precisam desse apoio”, descreve. No ano seguinte, a equipe ficou com três atendimentos, professor e residentes, e recebendo ainda os alunos da prática integrada e os bolsistas. “Eu dou assistência às residentes, que estão em processo de aprendizagem, e alunos, orientando como é que eles deveriam fazer avaliação nutricional, como é que poderiam fazer orientação pros pacientes e também pros cuidadores, pois recebemos muitos pacientes que têm déficit cognitivo, alzheimer, então, é interessante que eles também sejam acompanhados. Alguns pacientes vão com os cuidadores, que também são orientados” ilustra Gabrielle. Os ambulatórios O projeto de extensão Avaliação e Intervenção Nutricional de Adultos e Idosos é composto por dois ambulatórios, o Ambulatório de Idosos, gerido pelas professoras Gabrielle Souza e Sílvia Custódio, e o Ambulatório de Nutrição e Obesidade, Hipertensão e Dislipidemia, que é voltado aos adultos e o responsável é o professor Sérgio Barroso. O objetivo principal de ambos é atender essa demanda de idosos e adultos obesos. Os idosos contam com o CRASI, coordenado pela geriatra  e professora Yolanda Boechat, que funciona em um pólo de geriatria no Mequinho. “Os alunos vão pra lá, assistem e participam dos atendimentos”, descreve Gabrielle. Para ela, o ambulatório tem crescido e atualmente é reconhecido. Os profissionais de nutrição conhecem o tipo de trabalho oferecido e o valorizam. Os pacientes também reconhecem a importância do ambulatório. A docente afirma que é fundamental manter o ambulatório funcionando para que os professores envolvidos consigam manter o atendimento à população. “A participação dos alunos é basicamente o pilar da nossa estrutura e do nosso trabalho como professor”, destaca. O ambulatório atende idosos entre 60 e 90 anos e recebe uma demanda de, aproximadamente, oito a dez atendimentos semanais.  A equipe é composta por, pelo menos, 11 pessoas, entre bolsistas, graduandos de trabalho de conclusão de curso, residentes, nutricionistas, psicólogo, geriatra e terapeuta ocupacional. Gabrielle Souza explica que, no início, era complicado manter a adesão e a assiduidade dos pacientes, mas, hoje, eles têm mais compromisso com o atendimento e com tratamento. “O retorno é bom, pois percebemos a efetividade do tratamento e das orientações que nós damos para os pacientes e como isso tem feito diferença na qualidade de vida deles”, ressalta. Já o ambulatório voltado aos adultos, atende pacientes com doenças que caracterizam a síndrome metabólica, como, por exemplo, obesidade, hipertensão, dislipidemia e diabetes mellitus tipo 2. O ambulatório atende, semanalmente, de três e quatro pessoas entre 18 e 60 anos. Sua equipe é formada por, pelo menos, dez alunos de graduação e pós-graduação, além de nutricionista. De acordo com Sérgio Barroso, o objetivo do ambulatório é atender essa necessidade dos pacientes e fazer com que os alunos participem desse tipo de atendimento ambulatorial, para exercitar a prática deles e aprimorar sua formação. “Temos muitos alunos interessados, alguns voluntários, inclusive. Às vezes, temos que recusar, pois não tem espaço para inserir mais gente no projeto”, afirma. Vivemos em uma cultura em que as pessoas precisam ser reeducadas a se alimentar direito, porque é tudo muito prático”, diz Gabrielle Rocha. O aumento de DCNT se deve ao  estilo de vida, nós vivemos em um ambiente obesogênico. “Somos programados para ganhar peso para que, no futuro improvável, a gente não passe fome. Neste sentido, não tivemos uma evolução. As DCNT matam depois da idade reprodutiva, normalmente, não há seleção natural para isso. Se formos comparar, nossos antepassados alternavam períodos de escassez com abundância, hoje não temos mais isso”, salienta Sérgio. “As pessoas são influenciadas o tempo inteiro a consumir mais, e não é consumo só de bens materiais, mas também de alimentos, principalmente os processados e industrializados. Por isso é interessante ter uma equipe multiprofissional para dar esse estímulo. Vivemos em uma cultura em que as pessoas precisam ser reeducadas a se alimentar direito, porque é tudo muito prático”, corrobora Gabrielle. A “dietoterapia”, ou reeducação alimentar, é o principal tratamento oferecido pelo programa, mas nem sempre seu foco é na perda de peso, e sim na melhora nos exames, tudo depende da necessidade de cada paciente. “Se eu receber um paciente diabético, o tratamento vai ser de controle glicêmico, se é hipertenso, a gente vai fazer um controle dessa hipertensão. A reeducação, a atividade física e a medicação devem ser feitas em conjunto, mas alguns pacientes não entendem isso, e é preciso desmistificar isso na cabeça do paciente. A orientação é bem específica e individual”, salienta Gabrielle. O programa realiza a avaliação nutricional dos pacientes, que envolve peso, estatura, circunferência abdominal, cálculo de índice de massa corporal (IMC)  e exame de sangue para que o paciente seja incentivado a retornar. “O paciente fala quando está bem, como se sente feliz porque emagreceu, porque está comendo melhor, porque está mais disposto, nós percebemos isso na consulta”, expõe Gabrielle. De acordo com os professores, os pacientes não recebem alta do tratamento, mas são direcionados para um grupo de terapia ocupacional. É preciso manter o vínculo com os pacientes de alguma forma, fazendo com que eles tenham sempre contato com a equipe. “Também estamos inseridos no grupo da terapia ocupacional. Levamos os alunos da disciplina de prática integrada para fazer essa exposição, falando sobre alimentação saudável, evitando uma dieta muito rica em gordura e tudo mais”, realça Gabrielle. O projeto de extensão A proposta do projeto de extensão é integrar os alunos à pesquisa e dar assistência à comunidade. O projeto, além do atendimento ao público interno e externo à UFF, também suporta programas de pesquisa menores, o que ajuda na formação do aluno. Para Gabrielle, os dois ambulatórios, dentro do programa, devem expandir e incorporar alunos de pós-graduação e manter o de graduação, sempre agregando e incorporando, não substituindo. Para ela, ensino, pesquisa e extensão devem estar juntos. “Pretendemos ampliar para receber mais alunos e mais pacientes. Temos os ambulatórios, mas não temos espaço físico. Com essa expansão, poderemos receber mais alunos para trabalhar e atender mais pacientes”, enfatiza. Além disso, Gabrielle conta que seria interessante a participação de pessoas da comunidade, como de alguma associação de moradores, para apresentar as reais demandas da sociedade. “Hoje fazemos muito por nossa conta, mas não sabemos a necessidade da população, seria legal ter esse tipo de contato para saber o quanto a gente precisa manter de atendimento, pois, assim, poderíamos otimizar o atendimento”, conclui. Para saber mais sobre dias e horários das consultas, acesse: Ambulatório de Idosos e Ambulatório de Adultos.
Projeto da UFF oferece atendimento humanizado a pacientes com câncerDe acordo com dados do Instituto Nacional do Câncer (Inca), mais de 12,7 milhões de novos casos de câncer são diagnosticados por ano em todo o mundo. Em 2016, estima-se a ocorrência de mais de 596 mil casos no Brasil. Pensando em como tornar menos doloroso o tratamento e elevar a autoestima e esperança dos pacientes, um grupo de profissionais da Universidade Federal Fluminense, conhecido como “Equipe das Amarelinhas”, decidiu colorir e alegrar os corredores, enfermarias e salas de espera do Hospital Universitário Antônio Pedro (Huap). O programa Terapia Expressiva como veículo de Cuidado Integral no Hospital Universitário Antônio Pedro (Teci-Huap) é um conjunto de ações voltadas à integralização e humanização do cuidado em saúde. O “Cuidar de si com arte”, que existe desde 2010 e está em sua sétima edição, é um curso de extensão da Pró-reitoria de Extensão (Proex), conta atualmente com 42 alunos e oferece sessões de terapia expressiva a aproximadamente 50 pacientes oncológicos por semana. A atividade é realizada de março a dezembro, durante os dois semestres letivos. Os estudantes e voluntários do programa promovem atividades artísticas, exposições, eventos, vídeos, dança circular no saguão do hospital, apresentam um coral terapêutico e também organizaram um livro, o “Terapia expressiva - a arte do afeto colorindo um hospital”, publicado pela Editora da UFF (Eduff). O projeto é composto por três equipes, com aproximadamente 15 voluntários multiprofissionais, que participam do trabalho de campo e auxiliam nas atividades do projeto. O “Cuidar de si com arte” é a principal ação do Teci-Huap, cujo objetivo é que o profissional de saúde e universitários de diversas áreas tenham um espaço para cuidar de si, revisitar sua subjetividade e entrar em contato com sua profissão. A “Infusão de Vida” é uma atividade que dá assistência aos pacientes do Huap na sala de quimioterapia para casos graves. Neste trabalho, os alunos e voluntários do projeto vão ao Núcleo de Atenção Oncológica (NAO), onde os doentes recebem o tratamento de quimioterapia intravenosa para câncer, e à sala de espera do NAO, onde estão também parentes e acompanhantes. Dentre as ações oferecidas pelo programa, destaca-se a “Hora da Visita”, que acontece na enfermaria de hematologia para os casos mais graves, simbolizando saúde e esperança. Quíron e a humanização do cuidado O Quíron, do grego Kheíron (mão), é o ícone escolhido para representar o Teci-Huap. Quíron, um centauro da mitologia grega, parte homem, parte animal, nos remete à dupla natureza dos seres humanos e era mestre de diversos heróis gregos, a quem ensinou todas as artes, a filosofia e as ciências da cura. Paradoxalmente, Quíron foi ferido na perna por uma flecha lançada sem querer por seu discípulo Héracles, embebida no veneno da Hidra de Lerna, que provocava feridas incuráveis. Como era imortal, padeceria de dores terríveis de forma perene. Ele era agora o curandeiro que não podia curar a sua própria ferida. Por isso, Quíron representa a filosofia do programa de terapia expressiva, no qual profissionais de saúde podem perceber que, embora tratem e curem tantas pessoas, também têm suas próprias mazelas e precisam de um espaço para cuidarem de si mesmos. “O que queremos trazer para as pessoas que fazem o curso e nossos voluntários é que não devemos nos esquecer de nós mesmos, para que possamos atender com mais humanidade. Fazemos questão de entrar em contato permanentemente com a nossa dor, com a nossa humanidade, para fazer as coisas com o coração”, afirma a médica terapeuta, professora e supervisora do curso, Denise Vianna. Para a médica, é um paradoxo falar em humanização em um trabalho cujo pressuposto é exatamente humanizar. Segundo Denise, os estudantes de medicina e ciências da saúde em geral são estimulados a não se expressarem. No curso “Cuidar de si com arte”, existe essa permissão para transformar a dor em algo produtivo. “Numa área em que você tem que se responsabilizar pelo outro, não há momento para demonstrar fraqueza. O treinamento é para você se desumanizar, ficar duro, enrijecer. É preciso ter compaixão e sentir junto. Isso é o Quíron, é a humanização”, explica. Cuidando de si Para a voluntária Edwiges Barros, a terapia expressiva age em todos os que estão envolvidos em oferecer esse tratamento. As tarefas não são impostas, as ideias surgem e são construídas em conjunto. As atividades são intensas e mobilizam toda a equipe. “Planejamos o que os participantes farão e entregamos o material. Ali, eles vão se expressando, dando vida ao material de acordo com o que estão pensando, e isso também começa a mexer conosco. Às vezes, pensamos em um trabalho totalmente abstrato, mas não acontece nada de abstração, vem um trabalho de muita interiorização, que mexe com eles e nosso íntimo”, ilustra. Segundo Edwiges, a forma como enfrentamos as adversidades nos fortalece para a vida. Portanto, ver a força com que alguém enfrenta uma doença tão agressiva como o câncer nos faz refletir sobre a dimensão dos nossos problemas. “É uma via de mão dupla. Não estamos aqui fazendo o trabalho porque somos bonzinhos ou apenas porque gostamos. Nós os tratamos e também recebemos tratamento”, reforça. Já para a voluntária Nilma Araújo, são muitas as experiências vividas no programa. Algumas vezes, as pessoas chegam tristes e, após as atividades, suas expressões mudam. Para Nilma, o trabalho manual feito é a expressão daquilo que mudou dentro de cada paciente e isso demonstra uma transformação nos sentimentos. “Certa vez, pedimos para uma participante colar um coração vermelho em um papel, mas ela quis pintar de preto o espaço em seria colocado o coração, pois era como ela se sentia naquele momento, e depois afirmou que um dia ela colaria o coração vermelho naquele espaço. Ou seja, cada um tem o seu tempo e ela abriu a possibilidade de um dia aquele coração preto, cheio de mágoa e dor se transformar em algo melhor. Esse é o grande benefício”, descreve. Diversos materiais são utilizados durante as sessões de terapia expressiva, como papéis, tintas coloridas, pedras, lã, cola, material plástico, tecidos, colagem de materiais de diversas texturas, música, contação de histórias e até meditação. Denise Vianna afirma que não gosta de usar o nome “arteterapia”, pois pressupõe que a pessoa tem que ser artista. “É terapia pela expressão, pois expressão pode ser qualquer coisa, rasgar, pintar, fazer o que quiser”, ressalta. A partir do trabalho de terapia expressiva, foi desenvolvida uma pesquisa qualiquantitativa que virou livro. O estudo observou o que a equipe fez e atestou a eficiência do tratamento. “Eu sabia da eficácia, mas precisava comprovar. O nosso trabalho não é apenas uma brincadeira, é um tratamento”, atesta Denise. Ela também acredita que cada pessoa que passa pelo tratamento tem em si o poder de cura e transformação. “Tentamos ficar invisíveis para que eles fiquem à vontade para definirem a atividade que vão desenvolver, a gente não impõe nada”, justifica. Edwiges Barros explica que, na condição em que se encontram os pacientes, é muito fácil se negar a participar da terapia. “Se você der um empurrãozinho, eles cedem e se desarmam. O ato de se defender é um impulso muito forte, mas naturalmente respeitamos os limites de cada um e os deixamos à vontade”, alega. Já segundo Nilma Araújo, a produção dos pacientes durante as sessões os empodera e isso se reflete em sua melhora tanto emocional, quanto física. Abaixo, Denise Vianna fala um pouco mais sobre o programa de Terapia Expressiva: Como surgiu a ideia de montar o programa? Trabalho com terapia expressiva desde 2000. No Campus do Mequinho, dava um curso de formação, que durava três anos. Nesse formato de um ano apenas, o curso é denominado de humanização. Quando fui transferida para o Huap, resolvi aprofundar esse trabalho. Sempre tive vontade de fazer um curso voltado para os cuidadores, para que eles se aprimorassem. O objetivo era aperfeiçoar o cuidado e a qualidade de vida deles. Rapidamente as portas se abriram. O Departamento de Saúde e Sociedade e o Instituto de Saúde Coletiva foram bem receptivos e muito abertos a essas iniciativas inovadoras. A UFF prima por essas iniciativas. Em 2009, ministrei uma disciplina obrigatória chamada “Trabalho de campo supervisionado”, em que comecei com a terapia expressiva, ali começou a se formar essa ideia. Minhas amigas e os voluntários vieram comigo, para me ajudar. Qual é a importância do trabalho voluntário no projeto? Estamos aqui há sete anos trabalhando voluntariamente. A participação voluntária é fundamental e sem ela o Terapia Expressiva não existiria. Compramos os materiais, pedimos aos alunos que façam doações e estamos todos sempre aqui. Somos uma escola de terapia expressiva, aprendemos juntos o tempo inteiro. Temos uma rede solidária muito grande, de amizade muito profunda, pois partilhamos muitas coisas e é isso que nos impulsiona a continuar. Contando com essa união, nosso trabalho foi premiado por três anos (2011, 2012 e 2014) pelo Programa de Extensão Universitária (Proext) de saúde. Qual a importância da relação e interação dos pacientes com outras pessoas, como família, amigos e profissionais? É interessante trabalhar com o paciente que está recebendo a quimioterapia e com quem o está aguardando fora da sala. Primeiro, porque o acompanhante fica feliz de saber que estamos com a pessoa que está recebendo a quimioterapia, pois é reconfortante ter certeza de que ela está se distraindo e recebendo apoio. Depois que termina a sessão, o paciente vai ao encontro de seu acompanhante e ambos recebem apoio para encarar aquela realidade de outra maneira. Um fortalece o outro. Os pacientes respondiam a um questionário qualiquantitativo. Qual a importância dessa análise? No início, aplicávamos um questionário para avaliar as condições físicas e psíquicas antes e depois das sessões, perguntando aos participantes quais sentimentos tinham antes e depois da atividade. Fizemos a pesquisa com base nessas respostas. Atualmente, apenas conversamos com os pacientes, perguntando quais foram suas impressões sobre a atividade e então preenchemos um relatório. Durante a pesquisa concluímos que os pacientes consideram a experiência útil e prazerosa, ajudando-os a relaxar e expandir sua criatividade e expressar melhor suas emoções. Além disso, as pessoas relataram que a família, a fé e a saúde eram as questões mais importantes para suas vidas, o que eles mais valorizavam. Percebeu-se que antes de cada sessão de terapia, os pacientes afirmavam estar emocionalmente bem, mas, na verdade, não estavam. Só depois da atividade, eles tomavam consciência dessa realidade e começavam a se expressar melhor em relação aos seus sentimentos. Por isso, mesmo fazendo uma análise quantitativa, a narrativa dos pacientes é fundamental. É importante olhar sob as duas óticas, do antes e depois, para analisarmos os dados de forma correta. É necessário saber o porquê, como e quando as coisas acontecem. Para a eficiência da terapia expressiva, o diálogo é indispensável. Como avaliam os resultados obtidos nessas sessões? Comprovamos a eficácia da terapia expressiva e percebemos transformações não apenas no paciente, mas também no ambiente, pois os laços entre as pessoas se estreitam e a energia do lugar muda. Quando entramos de férias, os participantes sentem a nossa falta e querem fazer a quimioterapia apenas nos dias do projeto. O essencial é que o tratamento medicamentoso aconteça, nosso papel é complementar a quimioterapia. A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) tem pouco mais de dez anos e está abrindo para o Sistema Único de Saúde (SUS) tratamentos de homeopatia, medicina ayurvédica e acupuntura. A terapia expressiva também foi instituída no SUS como uma prática integrativa. Anteriormente, as pessoas não levavam a sério sua importância, mas nossa pesquisa prova o contrário. Durante as sessões, a magia acontece. Todos entram no clima de entrega, saindo da dor e adentrando num espaço em que o sofrimento não é o foco principal. Enquanto a quimioterapia trata o câncer, nós colorimos a vida.
Programa de Pós-Graduação em Geociências: 45 anos com foco nas questões ambientaisFundado em 1972, o Programa de Pós-graduação em Geoquímica, ligado ao Programa de Geociências, completa 45 anos neste ano. Até aproximadamente o final da década de 70, o enfoque de suas pesquisas era na geoquímica clássica. A partir daí, deu-se início a um movimento voltado para o meio ambiente, com a formação de grupos multidisciplinares, aulas em tempo integral e professores estrangeiros incorporados ao seu quadro docente, cuja pesquisa de alinhava à questão ambiental. Atualmente, o programa, que tem conceito seis na Capes, obteve sua autonomia administrativa após a criação do Departamento de Geoquímica, em 1978, juntamente com outros departamentos, como o de Química Orgânica, Inorgânica, Química Analítica e Fisicoquímica. “Fomos o primeiro grande programa de geoquímica ambiental do Brasil, com uma visão interdisciplinar e uma forte presença de pesquisadores internacionais, como, por exemplo, indianos, alemães, ingleses, holandeses e americanos”, afirmou o coordenador do Núcleo de Estudo em Biomassa e Gerenciamento de Água (NAB), Raimundo Damasceno. Em uma breve análise dos estudos ambientais feitos pela Geoquímica na América do Sul, é possível observar que todas as áreas possuem um projeto. “Temos uma participação geográfica muito intensa. No estado do Rio de Janeiro, somos destaque em pesquisas na Baía de Guanabara, na Baía de Sepetiba e na Baía da Ilha Grande, além de termos de pesquisa na Amazônia e no Centro Oeste. Temos uma inserção muito grande e funcionamos como um núcleo disseminador na área ambiental, inclusive com cooperação com outros grupos, como o da Biologia Marinha, do Laboratório de Geologia Marinha (Lagemar) e com o NAB”, destaca o professor Renato Campello. Abrão foi o articulador da vinda de importantes pesquisadores para compor a equipe do Lagemar e foi um notável incentivador da pesquisa da pós-graduação", conclui Sidney Mello. Para o docente, que também  é ex-aluno, muitos egressos adquiriram posições de destaque não só no Brasil, como também no cenário internacional. “Temos alunos que estão no Canadá, na Suíça, na Austrália, nos Estados Unidos, espalhados por vários centros de pesquisa, universidades e laboratórios. O percentual de egressos que conseguem boas colocações é muito elevado, mais de 90%”, afirma. A pós-graduação recebe estudantes de outros estados, como Pará, Rio Grande do Sul, Paraná, entre outros. Além disso, estrangeiros, como iranianos, colombianos, venezuelanos, peruanos, espanhóis, chilenos e norte-americanos compõem o quadro discente. “Isso mostra o nosso padrão internacional. Recebemos alunos de outros países, formamos esses profissionais que vão se destacar em diversas universidades e países, que às vezes nem são os de sua origem”, enfatiza Renato. Segundo o professor e pesquisador decano John Maddock, o programa também capacita educadores dos níveis fundamental e médio. “Tivemos, há alguns anos, uma turma que era composta por professores de educação básica e que fizeram o mestrado aqui para enriquecerem sua formação profissional”, explica. As linhas de pesquisa O Programa de Geoquímica conta, hoje, com três grandes áreas de pesquisa: Contaminação, Degradação e Recuperação Ambiental; Biogeoquímica Ambiental; e Paleoambiente Paleoclima e Mudanças Globais. "Recebemos, aproximadamente, entre 60 e 70 alunos de mestrado e doutorado todos os anos. "Temos, pelo menos, 60 projetos de pesquisa sendo desenvolvidos anualmente nessas três linhas”, relata Campello. A linha de pesquisa sobre Contaminação, Degradação e Recuperação Ambiental enfoca os processos de contaminação e degradação de sistemas terrestres, sistemas originados ou proveniente de lagos e costeiros por matéria gasosa, líquida e particulada de origem industrial e doméstica. Os objetivos são a análise do impacto e da acumulação, remobilização e especialização de contaminantes e também o desenvolvimento de estratégias de monitoramento, gestão, valorização e recuperação ambiental. Já em Biogeoquímica Ambiental, os estudos abordam os processos de transferência, ciclagem e destino de elementos biogênicos e não biogênicos em sistemas continentais, costeiros e oceânicos, focando nas transformações e fluxos de matéria através das interfaces atmosfera-solo, atmosfera-água, água-sedimento e continente-mar. Estudos climáticos, hidrográficos e oceanográficos dão suporte a esta linha de pesquisa. Finalmente, as pesquisas sobre Paleoambiente, Paleoclima e Mudanças Globais, estudam a reconstrução do clima e mudanças ambientais em sistemas continentais, costeiros e oceânicos durante o Quaternário, enfatizando as mudanças durante o Holoceno e o Pleistoceno. O objetivo é fornecer subsídios à reconstrução do clima global e ajustar as mudanças do passado com o funcionamento atual dos ecossistemas. Professor Jorge João Abrão No processo de construção e crescimento da Pós-Graduação em Geoquímica, é importante destacar a participação do professor Jorge João Abrão, que faleceu no mês de março. Ele atuou ativamente na reestruturação do programa ocorrida na década de 80, além de ter sido responsável pela contratação de professores estrangeiros e pela autonomia administrativa do Departamento de Geoquímica. O professor, através de seu empenho, conseguiu o primeiro financiamento para o programa com a Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM). “Jorge Abrão era muito obstinado e não se deixava derrotar. Graças a ele pudemos expandir o nosso departamento fisicamente”, ressalta Raimundo Damasceno. O reitor Sidney Mello destaca a relevância do professor para o Programa de Geoquímica. “Abrão foi o articulador da vinda de importantes pesquisadores para compor a equipe do Lagemar e foi um notável incentivador da pesquisa da pós-graduação. Contribuiu direta e indiretamente na criação de vários programas na universidade, com destaque para a nossa Geoquímica, que é uma referência nacional e internacional. Ele era controverso em ações políticas internas, mas incontestável na busca constante de colocar a UFF no cenário da pesquisa global. Ele sempre teve a minha compreensão e admiração”, conclui. Congressos O Programa de Geoquímica está organizando dois eventos para promover os seus 45 anos. De 22 a 25 de agosto acontece, em Búzios, o Congresso Brasileiro de Geoquímica, que é um evento oficial bianual da Sociedade Brasileira de Geoquímica, que está fazendo 32 anos. De 6 a 10 de novembro, acontece, no NAB do campus Praia Vermelha, o HYBAM, uma cooperação internacional do programa com os franceses sobre a hidrologia da Bacia Amazônica.
UFF Angra dos Reis atua na educação escolar guaraniHá quase 30 anos atuando como educador, o professor e vice-diretor do Instituto de Educação de Angra dos Reis (Iear) da Universidade Federal Fluminense (UFF), Domingos Nobre, dedica sua vida ao ensino escolar, à formação de professores e à construção de currículos escolares em comunidades indígenas guarani. O projeto liderado pelo docente envolve mais de 100 pessoas, dentre elas, dez professores indígenas e oito não indígenas de escolas estaduais, três professores do curso de Geografia do instituto, 67 alunos indígenas do 6º ao 9º ano e 18 alunos bolsistas da UFF (Pibic, Pibid e Proext) das graduações de Pedagogia e Geografia do Iear. O trabalho faz parte de três ações de ensino, pesquisa e extensão da universidade. O educador também desenvolve há 21 anos, junto aos Guarani Mbyá da Aldeia Sapukai, em Angra dos Reis, atividades de assessoria pedagógica nas áreas de educação e cultura. Uma das últimas publicações de Nobre é o livro “Entre a escola e a casa de reza - Infância, cultura e linguagem na formação de professores indígenas guarani”, lançado pela Editora da UFF (Eduff) no 2º Congresso de Diversidade Cultural e Interculturalidade de Angra dos Reis, realizado no Iear em novembro de 2016. Nessa obra, o autor analisa os impactos da escolarização entre as crianças Guarani Mbyá com a chegada da luz elétrica e outras tecnologias nas aldeias, além  de refletir sobre a construção de currículos diferenciados que levem em conta essas transformações na formação de professores. De acordo com o docente, a proposta da pesquisa é problematizar com a comunidade os processos de transformação na cultura Guarani Mbyá, presentes no cotidiano da aldeia Sapukai. Tais questões afetam profundamente a infância e mantêm permanente interação com o currículo da escola, abrangendo também os processos de formação de professores indígenas do grupo. Segundo Nobre, o estudo foi feito sob uma perspectiva sociocultural, que privilegia o interculturalismo crítico e utiliza diferentes metodologias de base etnográfica e diversas linguagens, como o vídeo, a fotografia e o texto. A seguir, o professor Domingos Nobre explica um pouco mais sobre seu trabalho educacional  junto à comunidade indígena: Quais os impactos da escolarização e da chegada da luz nas aldeias, entre as crianças Guarani Mbyá do Estado do Rio de Janeiro? A escola causou alguns impactos, em especial nas aldeias pequenas, mais afastadas da cidade e com menor grau de contato com o mundo não indígena. Por exemplo, acelerou o uso da língua portuguesa nas comunidades; aumentou o contato com os não indígenas, devido à circulação de profissionais em torno da escola, principalmente professores do Fundamental II, que, em sua grande maioria, não são indígenas; aumentou o uso de novas tecnologias de informação e comunicação, como os computadores e celulares; introduziu novos portadores de textos, como DVDs, livros, revistas, etc. trazendo influências no processo de letramento. O senhor define a “escola indígena” como uma instituição. Pode explicar esse conceito? Na verdade, “escola indígena” é uma construção, que ainda está em processo de elaboração. É uma construção teórica sócio-histórica em processo, que se tornou território de disputa, de luta ideológica. Há aqueles que querem fazer dela instrumento de resistência cultural, de preservação da língua indígena, fortalecimento de identidades étnicas e de contribuição a um projeto autônomo, autossustentável e comunitário de futuro e de sociedade; e há aquelas que querem fazer dela uma ponte para cidade, uma travessia para o mercado de trabalho capitalista ocidental competitivo e individualista. Vai depender do grau de protagonismo indígena nessa construção. Na sua visão, qual é a relação das tradicionais comunidades Guarani Mbyá com a instituição "escola indígena"? A escola passou a ser um “mal necessário” para as comunidades, mesmo as tradicionais, devido ao contato, à  proximidade com as cidades e ao grau de interdependência com a sociedade. Uma necessidade de aprender a língua do “jurua” (não indígena para os Guarani) para lutar pelos seus direitos e não ser enganado nem explorado. A escola pode ajudar os indígenas a conhecer e compreender melhor o funcionamento da sociedade não indígena, pois o convívio é inevitável. Mas, os Guarani Mbyá vêm, a nosso ver, “guaranizando” a escola, imprimindo a ela características próprias, agregando elementos culturais indígenas e modos de fazer impregnados pela sua lógica própria. Que mudanças o uso de tecnologias, como a energia elétrica, a televisão e o computador provocam nas aldeias? Um acelerado uso social maior da língua portuguesa; uma mudança em alguns hábitos culturais, incorporando novas atitudes, especialmente entre crianças, adolescentes e jovens, como: ver TV todo dia, assistir futebol, jogar videogame, assistir vídeos em DVDs, ouvir músicas do Brasil e do mundo; e a consequente perda de alguns hábitos culturais tradicionais, entre eles ir quase todos os dias na Opy (Casa de Reza) para rezar, cantar e dançar; reunir-se no centro da aldeia, ao final da tarde em torno da fogueira e ouvir histórias e ensinamentos dos mais velhos (os Xeramoi); e o desuso de brincadeiras tradicionais Guarani. Em contrapartida, ganharam alguns aliados: seus documentos, suas manifestações, suas demandas, mobilizações políticas potencializadas nas redes sociais; textos e projetos digitalizados; a comunicação entre aldeias e lideranças se intensificou, o que facilitou a luta política por seus direitos e a própria organização e divulgação do movimento indígena na luta pela terra, pela saúde e pela educação. O que podemos entender por interculturalidade? Interculturalidade é um fenômeno sociocultural do contato interétnico entre duas culturas. A escola indígena é um equipamento intercultural, pois nela se confluem a cultura não indígena e a cultura indígena; a língua portuguesa e a língua indígena. O problema é que as culturas não estão em situação de simetria para as trocas. Há uma enorme desigualdade, um desequilíbrio entre as culturas, uma assimetria. A cultura ocidental é avassaladora e tende a engolir as culturas indígenas. Daí defendemos a ideia de um interculturalismo crítico, que busque nas práticas pedagógicas escolares suprimir essas assimetrias, lutando contra as suas causas. Por exemplo, dando lugar de destaque e prestígio à língua guarani no currículo. “Aspectos da infância indígena - e, em particular, da infância guarani - têm sido objeto de poucas pesquisas no Brasil, razoavelmente esporádicas e pontuais”. O que motivou o senhor a se aprofundar nesta pesquisa? Trabalhei um longo período, aproximadamente 15 anos, com a Educação Infantil. Um grande interesse nasceu quando conheci as crianças Guarani Mbyá, em 1995, e a concepção de infância sagrada que eles têm. Uma criança Guarani Mbyá não é um ser que virá ainda a ser, quando crescer. Para os Guarani, uma criança já é um ser completo, pois no corpo dela veio habitar um espírito que é maduro e que só o rezador, na cerimônia sagrada do batismo (Nhemongarai) revela, nominando-o. Os nomes Guarani Mbyá são, portanto, os nomes dos espíritos que aqui vieram ter entre nós, no corpo das crianças. Isso é fascinante e tem muito a nos ensinar. “O objetivo do livro é refletir na formação dos professores, a respeito da construção de currículos diferenciados que levem em conta essas transformações”. Quais seriam esses currículos diferenciados para a formação de docentes? Currículos de formação que levem em conta as mudanças ocorridas nas crianças Guarani Mbyá e também nas concepções que eles próprios têm de suas infâncias. Para isso, é necessário adotar uma perspectiva da Sociologia da Infância que interprete essas transformações como construções sócio-históricas. Importante também estudar as especificidades culturais que as crianças indígenas demonstram ter em seus processos de aprendizagem; em suas formas próprias de relações sociais, baseadas em sua estrutura de organização social tipicamente Guarani Mbyá, baseada no intenso convívio nos “joapygua” (famílias extensas); sua cultura imaterial, rica em jogos, brincadeiras tradicionais, cânticos, no aprendizado do artesanato, no convívio com a natureza, etc. No papel de educador, como avalia a sua participação na formação de professores para as comunidades indígenas como a Guarani Mbyá? É um papel político, que advém do compromisso social que a universidade pública, no nosso caso o Instituto de Educação de Angra dos Reis, tem com as comunidades tradicionais da região que incluem os Quilombolas e os Caiçaras. São povos que têm o direito de construir propostas próprias de educação escolar diferenciadas, específicas e interculturais, tais como prescreve a legislação. Qual é a importância de formar professores capacitados para atuar em comunidades indígenas como a Guarani Mbyá? É fundamental, no sentido de que os próprios guarani possam assumir a docência nas escolas das aldeias. Numa perspectiva de médio prazo, há que se pensar numa Licenciatura Intercultural Indígena para habilitar os professores Guarani a assumir os ensinos Fundamental II e o Médio. Nossa luta, a curto prazo, é implantar o Curso de Magistério Indígena para habilitá-los ao exercício da docência no Fundamental I. O Rio de Janeiro está historicamente muito atrasado em relação à implantação de políticas públicas efetivas e estruturantes de educação escolar indígena. Seus estudos serão referência para as pesquisas sobre educação escolar e infância guarani no Brasil e em países vizinhos, como Argentina e Paraguai. Como analisa a importância de sua pesquisa para o desenvolvimento de outros trabalhos na América Latina? Há comunidades Guarani em oito estados brasileiros, além de Argentina, Paraguai e Uruguai. Os estudos sobre infância têm crescido nos últimos anos. Penso que o trabalho trouxe uma contribuição ao debate de como se organizam e produzem cultura as crianças indígenas Guarani Mbyá, o que interessa aos programas de formação de professores indígenas nestes países. Pensar currículos de formação de professores que levem em conta essas especificidades é um desafio para o continente. Para saber como adquirir um exemplar do livro “Entre a escola e a casa de reza - Infância, cultura e linguagem na formação de professores indígenas guarani”, clique aqui.
Pesquisadores da UFF discutem sexualidade sob a perspectiva do direitoFundado no final de 2014 pelo professor Eder Fernandes, do Departamento de Direito Privado, o grupo de pesquisa "Sexualidade, Direito e Democracia" (SDD) desenvolve pesquisas jurídicas interdisciplinares por meio dos conceitos de sexualidade, governança e poder. Atualmente é composto por 23 pesquisadores, sendo 18 alunos de mestrado e doutorado do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Direito, cinco graduandos de iniciação científica e orientandos de trabalhos de conclusão de curso. O grupo de pesquisa surgiu a partir das observações de Fernandes, coordenador geral, sobre questões pouco debatidas no Curso de Direito da UFF. Para ele, a graduação trata de personalidade, vida, autonomia do corpo, entretanto, quando o assunto é sexualidade, o debate é raso e tratado com recato, pois ainda é tabu. “Encontrei uma oportunidade de abordar afirmativamente. O objetivo era colocar o nome sexualidade como instrumento de afirmação, de um recorte analítico que praticamente não se fala e não se encontra na área jurídica. Nós tentamos pensar o direito a partir do conceito de sexualidade”, explica. Estabelecer o conceito de sexualidade, promover ações de enfrentamento, empoderamento da mulher e discutir a violência são formas de enfrentar o tabu. O professor relata que o principal embate sofrido no início da disciplina não foi com o departamento ou com os professores. Alguns estudantes não aceitaram a proposta e começaram a se mobilizar pela internet, questionando a legitimidade da disciplina. “O questionamento veio de um grupo que a gente menos esperava, os alunos”, revela. Fernandes pensou na ideia de criar o grupo de pesquisa sozinho. Primeiro, propôs oferecer uma disciplina optativa com o nome de “Direitos Sexuais Reprodutivos”, mas logo mudou para “Direito e Sexualidade”. Com o aumento da demanda de alunos interessados, surgiu o grupo "Sexualidade, Direito e Democracia". “A primeira turma da disciplina tinha 60 vagas, com uma lista de espera de 120 pessoas. No primeiro semestre tive que oferecer duas optativas juntas, uma de manhã e outra à noite. Então eu vi que, realmente, a demanda existia. Foi a partir daí que criei o SDD”, declara. Não é que estamos nos esquecendo dessa ideia da igualdade, mas pra chegar até isso eu preciso pensar a sociedade enquanto racista, enquanto heteronormativa e assim sucessivamente, afirma.” Tanto a graduação quanto a pós-graduação participam ativamente das pesquisas, inclusive com disciplinas e atividades de extensão, que são oferecidas pelo professor e pelos alunos do mestrado e do doutorado como estágio em docência. Cada participante produz um trabalho específico e, a partir dele, é oferecido um determinado número de disciplinas a cada semestre para a graduação e pós. Neste segundo semestre de 2016, pelo menos 20 pesquisas estão em andamento. De acordo com Eder, o SDD desenvolve um estudo central, o “guarda-chuva”, que engloba os temas investigados pelos pesquisadores e estão relacionados entre si. A optativa “Direito e Sexualidade” é fixa na grade do curso e, segundo Eder, é a guia mestra da equipe. Além dessa optativa regular, duas orientandas do mestrado estão desenvolvendo outras duas disciplinas, chamadas “Teoria Feminista do Direito” e outra sobre “Marcadores Sociais de Diferenças”. “Dependendo do estágio em que o aluno está, ou que tipo de pesquisa que está desenvolvendo no SDD, propomos uma disciplina para o semestre seguinte sobre este tema”, esclarece. A ponte entre Direito e Sexualidade O SDD não discute apenas questões sobre sexualidade. Debate, principalmente, a democratização da esfera privada. Por isso, a palavra “democracia” está no nome do grupo. A ponte entre direito e sexualidade é realizada a partir do questionamento sobre a sexualidade que implica em situações normativas e jurídicas. Envolve todos os marcadores quando se identifica a mulher enquanto mulher, a pessoa transexual enquanto transexual, existe a discussão de gênero e de sexualidade. “Faz-se uma afirmação pela diferença que surge pelo conceito de sexualidade. Há um marcador social dessa diferença, ou seja, é ler o direito a partir destas discussões”, analisa Eder. Por exemplo, é possível ler o direito a partir de uma perspectiva feminista, perceber o quanto ele reproduz de estruturas masculinizadas, de uma determinada posição social do homem, que, muitas vezes, menospreza a mulher. É possível, também, fazer uma leitura por um viés heterossexual, como o direito privilegia determinadas orientações sexuais e assim por diante. É um vetor analítico, capaz de provocar determinadas questões sobre o direito, que tem ligação direta com a democracia. Segundo Eder Fernandes, se observarmos a época moderna e sua relação com o direito, percebemos que nosso sistema jurídico é baseado numa ideia de liberdade universal, isto é, todos são iguais perante a lei. Atualmente, é possível notar que há um aprofundamento da diferenciação, pois quanto mais se diferencia, mais se percebe a singularidade para realmente produzir uma situação de liberdade e igualdade. Assim sendo, a ideia dos marcadores sociais de diferença provoca o sistema para que ele se sensibilize para essas particularidades e, havendo a sensibilização, o sistema encontrará formas mais satisfatórias de lidar com a desigualdade num sentido mais material. “Não é que estamos nos esquecendo dessa ideia da igualdade, mas pra chegar até isso eu preciso pensar a sociedade enquanto racista, enquanto heteronormativa e assim sucessivamente. São os novos direitos. Temos a ideia de direito universalizado e direitos particularizados, dentro de uma mesma proposta”, conclui. Sexualidade, Governança e Poder Para Eder, não é possível pensar a sexualidade sem pensar as dinâmicas de poder, pois senão o enfoque da discussão recai apenas sobre diferenças e identidades. “Essa é outra discussão, que tem mais a ver com a psicologia e outras áreas. A nossa maior preocupação é como essas dinâmicas acabam formatando sexualidades”, salienta. Segundo o professor, o grupo analisa a sociedade por dois vetores, o heterossexual e homossexual, e que dinâmicas de poder acabam formatando sexualidades “normais” e sexualidades “desviantes”. Desta forma, toda essa dinâmica produz certa governabilidade sobre os corpos, como a de controle do corpo da mulher, ela tem a função reprodutiva e a obrigação de cuidar dos filhos. Isso contamina os sistemas de poder e eles reproduzem estas estruturas em legislação específica. “Depositar mais responsabilidade sobre a mulher do que sobre o homem, é um fator de poder que acaba governando os corpos, governando a subjetividade, por meio da sexualidade”, reitera. O coordenador explica que se fala muito sobre sexualidade e se produz muito controle sobre ela. Uma das pesquisas realizadas coleta informações normativas que tocam a sexualidade, em que se percebe que da década de 80 até o tempo atual, existe uma inflação legislativa sobre essa questão. Fala-se demais sobre o tema e, quanto mais se fala, mais se produz dinâmicas de poder, e cada vez mais essas dinâmicas produzem normatividades sobre o corpo e a sexualidade. “Nós estamos tentando entender como o direito está falando sobre sexualidade, por que ele está falando, para quem ele está falando e qual a consequência da sua fala. São esses vetores analíticos que trabalhamos”, completa. O projeto de extensão O projeto de extensão “Corporalidades, Diálogo e Acolhimento: ações contra violências” desenvolve oficinas abertas ao público e conta, atualmente, com três atividades promovidas por quatro pesquisadores. São táticas de empoderamento feminino, mais voltado a práticas de luta física e de enfrentamento à violência. Um aluno da Pós-Graduação em Sociologia e Direito da UFF é praticante de kung-fu e responsável em dar aulas de defesa corporal. Apesar das oficinas serem abertas ao público, elas são dedicadas às mulheres. “Outras incluem intervenções, determinadas ações artísticas, etc.”, acrescenta Eder. O projeto nasceu da demanda de algumas alunas do direito, que, ao saírem da faculdade à noite, eram assediadas. Elas passaram a compartilhar informações nas redes sociais e se deram conta da fragilidade do corpo feminino. Com isso, questionaram se a forma como a mulher é criada socialmente não leva a uma situação de vulnerabilidade. O fato de discutir corporalidades, a forma como se porta o corpo da mulher na sociedade, já que não pode ser forte e ostensivo, são alguns dos motivos que levou o grupo a pensar uma ação de extensão voltada para essa realidade. As oficinas são realizadas na Faculdade de Direito. Além de desenvolver práticas multicorporais, os pesquisadores também organizam ações de roda de conversa com mulheres no sistema prisional e com aquelas que foram vítimas de violência. Isso faz parte da pesquisa sobre violência de gênero e também do aspecto mais profundo da extensão, que é levar outra dinâmica para a sociedade, a partir de demandas existentes. Uma atividade que já foi promovida em duas edições anuais foi um desfile no Colégio Estadual Conselheiro Macedo Soares, no Barreto, em Niterói, sobre empoderamento da mulher negra e como produzir sua estética. A ação foi organizada por um aluno do mestrado, que é professor de artes do ensino fundamental, junto com outros pesquisadores. Eder Fernandes lembra que o SDD é o primeiro grupo de pesquisa no direito que debate sexualidade no Brasil e oferece uma disciplina fixa todo semestre. “É o nome da UFF que a gente leva para outros lugares. Estamos em vários eventos, seminários e grupos de trabalho. Além disso, temos provocado uma importante mudança no corpo discente, pois, só neste segundo semestre de 2016, foram orientados dez trabalhos de conclusão de curso. O nome da universidade vira referência”, enfatiza. O livro O primeiro livro do grupo "Qual o futuro da sexualidade no direito?", fruto de uma pesquisa de dois anos, terá seu pré-lançamento no dia 14 de dezembro, na Universidade do Porto, em Portugal, e, no Brasil, será lançado, em fevereiro de 2017. A publicação trata de vários temas de uma mesma pesquisa, como aborto, transexualidade, mercado de trabalho, homossexualidade e outros assuntos que tocam a sexualidade e voltados para o direito. A publicação reúne 14 trabalhos sobre política sexual no direito, sendo três em coautoria, escritos por 17 pesquisadores. Para saber mais sobre as pesquisas do grupo "Sexualidade, Direito e Democracia" e como participar das atividades de extensão, acesse http://www.sdd.uff.br/.
UFF se destaca no cenário científico internacional A UFF, através do Programa de Pós-Graduação em Patologia, avança e reafirma sua inserção no âmbito científico internacional. O aluno de doutorado do programa, Marcos Gabriel Pinheiro, é um dos autores do artigo publicado em um relevante periódico, “Science Translational Medicine”, voltado à área médica e criado em 2009 pela Associação Americana para o Avanço da Ciência. O estudo contou com a orientação do vice-coordenador do curso de Biomedicina, Fábio Alves, e participação da professora do Departamento de Ciências Básicas da Faculdade de Odontologia e Fonoaudiologia, Etyene Dip, ambos do campus Nova Friburgo. O trabalho intitulado “Investigação de genes de virulência em modelo de pneumonia causada por Staphylococcus aureus resistentes à meticilina em coelhos” foi desenvolvido durante o treinamento de Marcos com o pesquisador Binh Diep da Universidade da Califórnia de San Francisco (UCSF), onde o aluno teve a oportunidade de trabalhar em um dos laboratórios de referência mundial na pesquisa de doenças infecciosas.  O estudo, publicado em setembro deste ano, visa a utilização de imunoglobulinas por via intravenosa para proteção contra pneumonia necrosante causada por Staphylococcus aureus em um modelo de infecção em coelhos. Este modelo pré-clínico propõe o uso de imunoglobulinas, isoladas ou combinadas com antimicrobianos, para conceder proteção e melhorar o prognóstico da doença causada por diferentes tipos de cepas epidêmicas do vírus resistentes ao antibiótico meticilina. Segundo o orientador, Fábio Alves, “esta publicação tem grande importância para a UFF e, com certeza, para o Programa de Pós-graduação em Patologia. Uma publicação de alto impacto como esta propicia novas colaborações, possibilidades de conseguir novos projetos de pesquisa e aumenta a qualidade da pesquisa nos setores onde os pesquisadores envolvidos estão inseridos”. Para a professora Etyene Dip, o trabalho “Investigação de genes de virulência em modelo de pneumonia causada por Staphylococcus aureus resistentes à meticilina em coelhos”, resultado de seu pós-doutorado na UCSF, possibilitou levar a tecnologia  de indução de pneumonia em coelhos para  o campus Nova Friburgo, onde coordena o Laboratório do Biofilme do Staphylococcus aureus. “É um passo muito importante da nossa pós-graduação em estudos translacionais e na internacionalização da UFF”, conclui. Abaixo, o doutorando Marcos Gabriel Pinheiro explica alguns aspectos relevantes da pesquisa. O que motivou a realização de uma pesquisa sobre a utilização de imunoglobulinas por via intravenosa para proteção contra pneumonia necrosante causada por staphylococcus aureus? Imunoglobulinas são células de defesa que, dependendo de onde atuam e onde são produzidas, pode ocorrer uma variação de sua estrutura, existindo, assim, várias formas desses anticorpos. Alguns estudos já foram realizados utilizando as imunoglobulinas como tratamento adjuvante em pneumonia causada por Staphylococcus aureus resistentes à meticilina (MRSA), porém muitos países ainda não adotaram esta prática clínica. A necessidade de soluções que diminuam a ocorrência da doença ou potencialize seu tratamento nos levou a investir nesta ideia. A imunoglobulina intravenosa (IVIG) contém anticorpos que, agrupados, neutralizam as toxinas e danificam células e tecidos pulmonares produzidos pelas Staphylococcus aureus resistentes à meticilina adquiridas na comunidade (CA-MRSA). O que é a pneumonia necrosante? Fale-nos um pouco da importância dos resultados obtidos na pesquisa em relação à imunização ativa e passiva em modelo desse tipo de pneumonia. Pneumonia necrosante é uma complicação associada à desvitalização do tecido pulmonar durante a infecção e aparecimento subsequente de focos de necrose em áreas consolidadas. Os resultados positivos são de grande relevância para o tratamento e profilaxia da pneumonia causada por MRSA, pois, atualmente, não temos estas ferramentas claramente definidas para a prática clínica. O crescimento da resistência bacteriana a diferentes classes de antibióticos faz com que o tratamento desta doença esteja cada vez mais prejudicado. Há previsão de que esse modelo pré-clínico utilizado em coelhos durante a pesquisa seja testado em humanos? Não posso afirmar se há uma previsão. Porém, os testes em coelhos mimetizam de forma bem próxima a resposta imunológica dos seres humanos, além dos coelhos também serem sensíveis as duas principais toxinas que são importantes para que ocorra a infecção nos pulmões a PVL e α-hemolisina. Como surgiu a chance de desenvolver o trabalho durante seu treinamento com o pesquisador Binh Diep da Universidade da Califórnia de San Francisco (UCSF)? O meu doutorado sanduíche pelo Ciência Sem Fronteiras foi programado na mesma época em que este estudo estava sendo desenvolvido, por isso ganhei espaço no laboratório desse professor. A necessidade do aprendizado das diversas técnicas utilizadas no laboratório para desenvolvimento do doutorado me deu a oportunidade de participar deste trabalho e de mais três, que também serão publicados em breve. Além disso, estou defendendo a tese para voltar à UCSF e fazer o pós-doutorado o quanto antes no laboratório, a convite do meu co-orientador externo, Binh Diep. O laboratório da UCSF é referência mundial em pesquisas com doenças infecciosas. Como você avalia a experiência adquirida lá? Trabalhar no laboratório do pesquisador que foi autor do primeiro artigo que eu li na minha iniciação científica foi uma experiência sem igual. Pude aumentar bastante meu conhecimento, tive contatos com pesquisadores renomados na nossa área, além de contar com a enorme estrutura da Universidade da Califórnia, que é referência em diversas áreas de pesquisa. Em sua história acadêmica, a universidade já recebeu quatro prêmios Nobel. O que o artigo publicado na Science Translational Medicine representa para seu crescimento enquanto pesquisador? É uma satisfação muito grande participar desta publicação de altíssima qualidade científica. Através dela, pude desfrutar do aprendizado de diversos métodos e novas técnicas que irão me auxiliar no desenvolvimento de habilidades fundamentais para a vivência acadêmica. Para ler o artigo, acesse: http://stm.sciencemag.org/content/8/357/357ra124.full.pdf+html
Agenda Acadêmica 2016: “Ciência Alimentando o Brasil”A 13ª edição da Agenda Acadêmica será realizada durante a Semana Nacional de Ciência e Tecnologia (SNCT), entre os dias 17 e 22 de outubro. O evento tem como principal objetivo apresentar à comunidade universitária e à população a produção acadêmica em suas três grandes áreas de atuação: ensino, pesquisa e extensão. O tema deste ano é “Ciência Alimentando o Brasil” e a intenção da universidade é buscar uma interface das áreas e disciplinas em seus cursos. A temática foi construída de acordo com a proposta de seguir os objetivos de desenvolvimento sustentável da ONU – combate à fome, agricultura sustentável, melhoria da nutrição e segurança alimentar. O vice-reitor e coordenador da SNCT, Antonio Claudio Lucas da Nóbrega, ressalta que a Agenda Acadêmica representa um momento muito valioso, quando a universidade se abre para a comunidade, ratificando o seu compromisso social, prestando contas de suas atividades acadêmicas e traduzindo a linguagem científica para toda a população. “Esse ano a UFF terá a chancela oficial do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação por ter sido contemplada no edital de apoio aos eventos da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, consagrando assim a nossa participação e reafirmando o nosso compromisso com a divulgação científica do país. A UFF estará de portas abertas para receber a comunidade e, principalmente, os estudantes em todas as cidades onde atuamos", conclui. A abertura será às 15h do dia 17, no Centro de Artes UFF, com apresentação do Música Antiga da UFF. Haverá também a apresentação do coral Crianças da Vila Ipiranga, que participou da cerimônia de abertura das Olimpíadas deste ano. O encerramento será no dia 21, com premiação de trabalhos dentro e fora da sede. A Agenda Acadêmica ocorrerá em todos os campi de Niterói e nos outros municípios em que a UFF está presente. As atividades serão realizadas de segunda a sexta-feira. No dia 22, com o apoio e parceria da Prefeitura Municipal de Niterói, haverá atividades no Campo de São Bento, em Icaraí, onde nos finais de semana ocorre uma feira de artesanato, artes e orgânicos, tradicionalmente conhecida pela comunidade. Outras universidades e instituições com foco em tecnologia também apresentarão seus projetos no local. A proposta Segundo uma das coordenadoras da Agenda Acadêmica, Monique Feder, além da programação geral, cada unidade propõe suas próprias agendas específicas, suas jornadas acadêmicas para a comunidade interna, com oficinas e workshops voltados para os alunos, além das atividades de popularização da ciência. “Essa é uma iniciativa de todas as áreas de atuação, mas a iniciação científica tem uma tradição em fazer essa interlocução”, afirma. A jornada científica promove o “UFF de Portas Abertas”, que trabalha com visita guiada, visita técnica, palestras e exposições, além da “Casa da Descoberta” e “Ciência Sob Tendas”. Tradicionalmente, a UFF proporciona essas atividades todos os anos ao público. As práticas realizadas têm como objetivo a divulgação científica, convidando escolas de ensino fundamental e médio e a comunidade para conhecer o que a universidade oferece. A intenção é dialogar com uma linguagem acessível, aproximando as escolas do meio científico. Para o reitor Sidney Mello, a produção e a difusão da ciência são reconhecidamente pontos fortes da UFF. “O processo de expansão da nossa universidade viabilizou não só o acolhimento de milhares de estudantes, proporcionando acesso ao ensino universitário como também promoveu o contato direto com o desenvolvimento da ciência”, destaca. Segundo Mello, a UFF consolida a cada dia sua posição como uma das maiores instituições de ensino e pesquisa do país, crescendo em todos os pontos do Estado do Rio de Janeiro com alto nível docente e técnico e formando estudantes com destaque profissional. Nesse sentido, o reitor destaca que “a Agenda Acadêmica 2016 é um congraçamento de toda comunidade da UFF e ressalta o nosso papel como vanguarda de uma sociedade em busca de conhecimento e justiça social”. A Agenda Acadêmica conta com a Resolução Nº. 189/2005, que prevê a substituição das aulas por atividades vinculadas à SNCT. O evento é realizado durante o período letivo, fazendo parte do calendário acadêmico. Toda a universidade se mobiliza para sair da rotina, desenvolvendo atividades diferentes daquelas tradicionais de sala de aula, com um público diversificado e com maior liberdade de experiências acadêmicas em outros formatos. Alguns cursos da UFF aproveitam a semana para promover oficinas, workshops e grupos de trabalho aos participantes. Segundo o pró-reitor José Rodrigues, a Pró-reitoria de Graduação (Prograd) pensa em como integrar as ações dos programas de ensino com as realidades dos 130 cursos de graduação, buscando facilitar o percurso formativo dos nossos alunos e garantir o sucesso acadêmico, estabelecido a partir da quantidade de alunos formados. “Momentos como os da Agenda Acadêmica despertam em todos o pensamento crítico em relação às atividades desenvolvidas e seus reflexos sobre o ensino, promovendo incentivos à pesquisa referenciada e à extensão universitária”, enfatiza. Já a participação da Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação (Proppi) na Agenda Acadêmica, segundo o pró-reitor Roberto Kant, está relacionada às bolsas de Iniciação Científica e às bolsas de Iniciação Tecnológica, administradas pela Coordenação de Pesquisa da Proppi e pela Agência de Inovação da UFF (Agir). “Essas bolsas consistem em um dos mais antigos programas de apoio à pesquisa na UFF e são financiadas pelo Programa PIBIC do CNPq e por recursos próprios da UFF, de forma complementar”, complementa. Nas primeiras edições da Agenda, a mobilização era feita buscando, principalmente, o comprometimento de todos os estudantes bolsistas nas apresentações de trabalhos e, atualmente, também busca uma estrutura física adequada para o evento, com a disponibilização de salas e auditórios. A Agenda Acadêmica ocorre durante o período letivo para possibilitar a ampla participação de docentes, discentes e funcionários na apresentação de trabalhos, em suas diferentes manifestações no âmbito dos programas de Monitoria, de Pesquisa e de Extensão. Semana de Extensão A Semana de Extensão (Semext) está inserida na Agenda Acadêmica desde sua primeira edição e é promovida pela Pró-Reitoria de Extensão (Proex-UFF). Seus objetivos são divulgar, avaliar, integrar e, através do Prêmio Josué de Castro de Extensão, destacar os trabalhos apresentados pelos alunos da universidade dentro das oito áreas temáticas - Comunicação, Cultura, Direitos Humanos e Justiça, Educação, Meio Ambiente, Saúde, Tecnologia e Produção e Trabalho - definidas pela Política Nacional de Extensão/MEC/Forproex 2012. Segundo a coordenadora da Semext, Ellen Cortez Contreiras, na Semext de 2016, o intercâmbio com outras instituições de ensino superior e com a sociedade permanece sendo estimulado, ampliando a disseminação de informações referentes à dimensão extensão universitária. Essa edição traz a inovação da autenticação dos certificados on-line, através da utilização de um código de barras bidimensional (QR Code). Para consultar a programação da Agenda Acadêmica, visite o endereço http://www.agendaacademica.uff.br/atividades/.
Núcleo Girassol: cidadania, políticas públicas e meio ambiente em focoInspirado no programa piloto Ecocidades, que foi desenvolvido em 2006 na Universidade Federal de São João Del-Rei (UFSJ), o Núcleo Girassol - EConsCiencias e EcoPolíticas, vinculado ao Departamento de Análise Geoambiental do Instituto de Geociências da UFF, atua desde 2010 na área de ciência da informação. Ele trabalha com projetos de pesquisa e extensão que abordam os temas Educação em Cidadania, Responsabilidade Social e Desenvolvimento Sustentável (Linha EConsCiencias) e Governança e Políticas Públicas em Desenvolvimento Sustentável (Linha EcoPolíticas). O foco do Núcleo Girassol atualmente é na orientação e formação dos alunos de graduação. O objetivo é formar alunos no campo da educação e políticas para o desenvolvimento sustentável, de forma que eles compreendam a realidade brasileira, articulando ensino, pesquisa e extensão. “Temos a educação como meta e partimos da extensão e da pesquisa em seus diversos contextos para contribuir com a formação de estudantes num campo tão importante, mas que ainda carece de clareza”, explica a professora do Departamento de Análise Geoambiental e coordenadora do projeto, Patricia Ashley. Patricia destaca o papel da extensão para o núcleo, já que são as ações extensionistas que unem a universidade e a sociedade, ressaltando os objetos da pesquisa científica relevantes para a comunidade. “Se ficarmos apenas focados na pesquisa, esquecemos o impacto social. No entanto, a questão ambiental precisa do diálogo, da democracia e da participação de todos”, enfatiza. A coordenadora esclarece também que o Girassol não atende a interesses privados, mas a instâncias de participação social e do Estado, educadores independentes e instituições de educação, organizações da sociedade civil que defendem os direitos humanos, estudantes, famílias, coletivos e organizações comunitárias. “Nós agimos para a agenda pública, por meio da educação e de políticas para a participação e o controle sociais, a transparência e a formação dos agentes públicos”, observa. O acesso ao conhecimento de qualidade dá autonomia ao cidadão, por isso atua nas áreas da ciência da informação e da educação. Segundo a professora, para que o trabalho tenha repercussão, é necessário o uso de diversas linguagens, facilitando uma maior integração com o interesse do público. Patricia relata também que o Girassol atua na catalogação das práticas pedagógicas para auxiliar educadores formais, informais e instituições de educação, com o objetivo de que tenham exemplos de aplicações das questões ambientais e de desenvolvimento sustentável. As duas linhas de pesquisa O núcleo trabalha com duas linhas de pesquisa: EcoPolíticas e EConsCiencias. A Eprimeira se dedica ao estudo de documentos que expressam políticas para contribuir com a formação e implementação de agendas de desenvolvimento sustentável em várias escalas – municipal, estadual, nacional, latino-americana e global. “Estamos analisando documentos para avaliar a qualidade textual e os objetivos das agendas com que contribuem, além da incoerência ou coerência desses documentos”, conta a coordenadora. A equipe faz análise de processos de elaboração, para verificar se eles têm transparência, qualidade de governança, processo democrático, se trabalham a questão da participação ou não participação, além de analisar os conteúdos de políticas em diversas escalas que possam contribuir para o desenvolvimento sustentável. A linha EConsCiencias trabalha a Conscienciologia, conhecida como a ciência da consciência. O foco são as práticas político-pedagógicas, que abordam a formação de consciência e condições para que políticas de desenvolvimento sustentável ocorram. “A questão ambiental não se restringe apenas ao que vemos e ao mostrado pelo geoprocessamento, mas abrange o que pensamos, nossos valores, atitudes, arquitetura, etc.”, afirma. O núcleo já orientou pelo menos 33 pesquisas, incluindo projetos de extensão, iniciação científica, monitorias, estágios e trabalhos de conclusão de curso. “O interesse dos alunos tem sido nas políticas públicas, mas o interesse principal do núcleo é a educação”, revela a coordenadora. “O trabalho com a graduação é uma delícia, pois os jovens querem entrar em temas que, na minha geração, ninguém dava importância. É uma oportunidade fantástica quando eles nos procuram para trabalhar”, ressalta. Em suas práticas pedagógicas, a professora utiliza temas que estão em destaque e realiza experimentos sensoriais. “Toda literatura de gestão trabalha o ‘eu’, mas é um ‘eu’ fictício. Nós precisamos agir de forma coletiva. O ambiente de aprendizagem deve ser divertido, prazeroso, deve trabalhar os chacras do coração, mente e sensações”, aponta. “Quando você põe as cadeiras em fileiras, acaba apresentando uma lógica de subordinação, hierarquização e, assim, não conseguimos mudar nossa forma de pensar e agir. O aluno vê apenas as costas do outro aluno, por isso existe uma necessidade sensorial de provocação da mudança de consciência. Devemos trabalhar não só a visão, mas o tato, paladar, audição, o corpo, a autoconsciência, a respiração, a postura, entre outros”, complementa a professora. Entre as ações que fazem parte das agendas de desenvolvimento sustentável estão a Informação, que é voltada à produção de conteúdos em linguagens fáceis que as pessoas possam aplicar no seu cotidiano, relatórios, métodos, práticas pedagógicas, material didático, conteúdo curricular e publicações. A formação inclui cursos de extensão, eventos, cinedebates, políticas públicas e transparência, pois não basta ter uma agenda e não saber como aplicar. Além disso, há o assessoramento, que visa ao atendimento parlamentar, de fóruns, agentes políticos e professores. Aplicativo de busca de políticas públicas O assessoramento terá, em breve, a possibilidade de se aproximar da sociedade, graças ao trabalho da estudante de Ciência da Computação e estagiária de Ciência da Informação, Camille Braga. Ela está fazendo com que o modelo conceitual elaborado pelo núcleo, que analisa políticas e percebe como elas estão colaborando para a agenda de desenvolvimento sustentável, seja transformado num aplicativo para ser usado por todos. “O aplicativo serve para a busca de políticas públicas para o desenvolvimento sustentável e terá vários filtros, em que os usuários poderão selecionar a lei de interesse e, também, poderão digitar palavras-chaves, pois, às vezes, não se sabe o nome exato do documento”, conta Camille. O aplicativo, que está sendo desenvolvido desde 2014 – mas operacionalmente em elaboração desde outubro do ano passado – será lançado em sua versão beta em dezembro de 2016. Ele terá opções de uso para desktop, notebooks e dispositivos móveis. Segundo Patricia, o software está sendo desenvolvido em termo de confidencialidade, para que ninguém se aproprie dele e faça uso comercial, pois o objetivo é que ele seja oferecido de forma gratuita. “Fizemos a parceria com a Superintendência de Tecnologia da Informação (STI), que ajudou na parte do desenvolvimento analítico e fornecerá o servidor”, revela. A bacharel em Ciência Ambiental e integrante do grupo de egressos do Núcleo Girassol, Daiany Ferreira, já catalogou mais de 500 leis municipais. “Nós fizemos uma análise crítica dessas leis, para observar a qualidade do texto e se ele contribui para o desenvolvimento sustentável”, relata Patricia Ashley. A coordenadora Patricia Ashley avalia todo o trabalho de maneira otimista. “Estamos na fase de brotamento do projeto Núcleo Girassol. Éramos sementes e, agora, estamos na fase de fazer nosso jardim florescer”, conclui. On Sustainability 2017 Em janeiro do ano que vem será realizado na UFF o evento Internacional On Sustainability 2017, que será a 13ª Conferência Internacional sobre Sustentabilidade Ambiental, Cultural, Econômica e Social. A professora Patricia, que faz parte da comissão organizadora do evento, explica que muitos alunos envolvidos nos projetos do Núcleo Girassol participarão como coautores de trabalhos. A Universidade receberá participantes de todo o mundo e isso dará visibilidade às ações e práticas desenvolvidas no núcleo.
UFF de Volta Redonda cria ferramentas digitais para crianças autistasO Transtorno do Espectro Autista, popularmente conhecido como autismo, é um Transtorno Global do Desenvolvimento (TGD). Recebe o nome de “espectro” porque é um transtorno que se apresenta em diferentes níveis de comprometimento. Suas principais características são a dificuldade na interação social, dificuldades na comunicação e alterações de comportamento. Segundo dados da Organização das Nações Unidas (ONU), aproximadamente 1% da população mundial, ou uma em cada 68 pessoas, apresenta algum transtorno do espectro autista. A palavra “autismo” deriva do grego “autos”, que significa “voltar-se para si mesmo”. Com o objetivo de auxiliar na aprendizagem de crianças autistas, o Instituto de Ciências Exatas (Icex) e o Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS) da Universidade Federal Fluminense, campus Volta Redonda, criaram o grupo de pesquisa e extensão Ambiente Digital de Aprendizagem para Criança Autista (Adaca). Através de atividades complementares no ensino de matemática, português e música, as ferramentas computacionais do projeto multidisciplinar contribuem também para a inclusão digital dessas crianças. Atualmente, o Adaca conta com quatro docentes, uma fonoaudióloga e 25 alunos (incluindo bolsistas e voluntários) dos cursos de Psicologia, Física Computacional, Matemática Computacional, Engenharia e Ciências da Computação. A equipe de profissionais e alunos investiga e desenvolve ferramentas digitais que podem colaborar para o aperfeiçoamento da comunicação da criança com o transtorno do espectro autista. A família tem um papel crucial que se inicia com o consentimento para que os pequenos possam participar do projeto" - Vera Caminha. Para que o projeto pudesse funcionar, foi necessário obter uma aprovação no Comitê de Ética da UFF. “Para trabalhar com pesquisa que envolva seres humanos, é preciso obter essa aprovação da própria universidade. Portanto, tivemos que submeter o projeto na Plataforma Brasil e esperar o resultado da avaliação para iniciar o trabalho. Além disso, precisamos enviar a cada semestre relatórios parciais das atividades que estão sendo desenvolvidas”, explicou a coordenadora do projeto e professora do Departamento de Física, Vera Caminha. A equipe desenvolveu jogos educativos que estão sendo testados e analisados a partir de seu uso pelos autistas no Laboratório do Ambiente Digital de Aprendizagem para Crianças Autistas (Ladaca). O local é dividido em três ambientes: o Lúdico, o Computacional e o Gerenciamento. O intuito do trabalho é favorecer a socialização e a melhoria da qualidade de vida dos pequenos, fazendo parte da construção de uma sociedade mais inclusiva, justa e humanitária. Os três ambientes do Ladaca O Ambiente Lúdico é o lugar onde se encontram diversas atividades e jogos dedicados ao auxílio na aprendizagem e desenvolvimento das crianças com autismo. Nesse ambiente acontecem intervenções com a terapia através de jogos que são realizados no chão em um tapete emborrachado, com a participação do facilitador, que tenta interagir na atividade de escolha do participante. O Ambiente Computacional é equipado com computadores, onde estão instalados os jogos e atividades do sistema Adaca. Esses desktops possuem webcams que filmam as crianças durante a utilização, para posterior análise de seu comportamento. São gravados também o tempo de cada jogo, todo o movimento com o mouse, cliques certos e cliques errados, dentre outras etapas da atividade. Já o Ambiente Gerenciamento é o local onde é feita a observação dos participantes através das imagens transmitidas para a máquina servidora por câmeras fixas nas paredes dos ambientes. Todas as informações captadas durante a utilização do ambiente computacional são transmitidas para essa máquina servidora com a finalidade de gerar relatórios estatísticos e análise da aprendizagem. “As crianças são estimuladas no ambiente lúdico e depois são levadas para o ambiente computacional, onde fazem as atividades e jogos propostos e implementados no projeto”, ressalta Vera Caminha. A coordenadora destaca que já foi possível observar resultados positivos sobre o comportamento das quatro crianças atendidas. Elas tiveram uma ótima adaptação na sala lúdica e, com a ajuda dos jogos e brincadeiras, facilmente criaram vínculos que mantiveram as interações contínuas. “Ao chegar ao laboratório, elas se direcionam à sala lúdica com empolgação. Atentos, observam tudo o que está no espaço, sejam os jogos ou outros brinquedos e, em seguida, se direcionam ao que mais chama atenção e começam a brincar”, afirma. Além disso, pretendemos futuramente atender mais participantes no laboratório, oferecer outras disciplinas e estender o projeto para escolas públicas da região (...)" - Vera Caminha. Alunos do curso de Psicologia atuam como facilitadores no Adaca junto às crianças. No ambiente computacional, por exemplo, alguns dos participantes inicialmente tiveram dificuldade na forma de jogar, mas, com o auxílio dos estudantes, aprenderam a executar as tarefas e tiveram sucesso nas demais atividades. Os jogos são trabalhados por níveis, começando do mais fácil e elevando a dificuldade até chegar no nível mais difícil. “Temos duas crianças que conseguiram finalizar todos os níveis sem muita dificuldade. E todas as quatro crianças não oferecem nenhuma resistência na ida ao atendimento no laboratório”, explica. Em uma das crianças, especificamente, os avanços e mudanças no comportamento foram bem expressivos. “Ela aprendeu a noção de esperar, entende quando é a sua vez e quando é a vez do outro, consegue compreender melhor a sua noção de espaço e está mais observadora e calma”. De acordo com Vera, antes do Adaca, esse participante apenas assistia aos vídeos. “Após sua entrada no programa, ele começou a jogar no computador e seus pais começaram, então, a reforçar as atividades desenvolvidas no projeto com alguns jogos disponíveis na internet. Além disso, houve melhora de seus TOCs e estereotipias”, declara. “Algumas famílias relataram a motivação dos pequenos com os jogos do Adaca, sejam eles virtuais ou não, e sempre os incentivam com palmas, músicas ou parabéns quando terminam as atividades”, destaca Vera. Para a coordenadora, o núcleo familiar é muito importante na evolução da criança e no auxílio da manutenção e fortalecimento de vínculos afetivos. “A família tem um papel crucial que se inicia com o consentimento para que os pequenos possam participar do projeto. Além disso, desenvolvemos um trabalho em grupo com os responsáveis, a fim de percebermos o impacto do diagnóstico na vida familiar e o desenvolvimento de estratégias para o favorecimento de suas relações”, enfatiza.  Próximos passos O Adaca atende atualmente quatro crianças com autismo e, em breve, serão incluídas mais quatro crianças que não apresentam o espectro autista, como grupo de controle. Apesar de o projeto estar na etapa piloto, uma aluna do curso de Psicologia já defendeu um trabalho de conclusão de curso, em que foi descrita a sua experiência de atendimento no laboratório. “Estamos fechando os dados obtidos para gerar relatórios científicos estatísticos para futura publicação”, afirmou Vera. De acordo com a coordenadora, após a etapa piloto, os próximos passos do trabalho são: gerar um módulo de atividades e jogos específicos para o auxílio na alfabetização dessas crianças e disponibilizá-los para a plataforma Android, possibilitando que as crianças cadastradas os utilizem fora do ambiente do Ladaca. “Além disso, pretendemos futuramente atender mais participantes no laboratório, oferecer outras disciplinas e estender o projeto para escolas públicas da região, publicar resultados e reiniciar o ciclo, fazendo evoluir sempre o projeto”, ressalta. Na avaliação de Vera, para que as atividades oferecidas no Adaca deixem de ser uma complementação ao ensino de português, matemática e música e passem a fazer parte de uma estratégia mais abrangente na formação dessas crianças, é fundamental levar o projeto para as escolas inclusivas. “Só assim, num ambiente escolar, com um grupo maior e mais específico, poderemos avaliar o real impacto dessas atividades no aprendizado, no desenvolvimento e na socialização dos alunos autistas”, conclui.