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Pesquisa inédita analisa as causas da retenção de alunos da UFF

Maior flexibilidade de horários e implementação de melhorias no fluxograma dos cursos. Foram esses os dois pedidos mais frequentes dos estudantes retidos que participaram de uma pesquisa inédita da Pró-Reitoria de Graduação (Prograd), realizada em parceria com o curso de Estatística, a partir da base de dados da Superintendência de Tecnologia da Informação (STI). O estudo “Retenção: perfil do aluno retido e suas percepções sobre as políticas existentes na UFF” buscou conhecer as características comuns a esses alunos e entender as razões pelas quais eles estendem o tempo de conclusão nos cursos de graduação da UFF. O estudo integra um conjunto amplo de medidas implementadas pela administração da universidade com vistas à modernização e racionalização do ensino da graduação.

Retenção no ensino superior é a expressão utilizada tecnicamente para se referir ao processo que resulta na permanência prolongada do estudante na universidade, levando a um atraso no período de integralização – que é o tempo médio que o aluno leva para concluir um curso de graduação. A retenção é um dos fatores que mais interfere na queda da chamada Taxa de Sucesso na Graduação (TSG), indicador calculado a partir da relação entre o número de formados num determinado período e o número de ingressantes de anos anteriores cuja previsão de formatura coincide com o período considerado. Um dos desafios, segundo a pró-reitoria, é reduzir esses atrasos na conclusão. Mais do que números baseados em diretrizes do MEC, eles sinalizam o desestímulo de cada estudante e, em muitos casos, levam ao abandono do curso. “Com base na literatura sobre o tema e pelo que observamos durante a pesquisa, o aluno retido é um provável evadido. Porque se a pessoa que está levando muito tempo para cumprir a grade curricular, ela tende a evadir ou a trocar de curso, o que, estatisticamente, para o curso de origem é uma forma de evasão”, afirma a chefe da Divisão de Projetos Especiais da Prograd, Dulce Pontes.

As causas da evasão e da retenção são bem variadas e não tem necessariamente relação com o aluno ser oriundo de escola pública." Dulce Pontes

Nesse levantamento, realizado nos anos de 2012 e 2013, foram considerados como público-alvo os alunos inscritos em disciplinas com matrícula ativa que não haviam integralizado o curso quando já deveriam tê-lo feito; os que tiveram pelo menos um trancamento de matrícula desde a entrada na universidade; e os que na época da pesquisa cursavam o primeiro ano e que repetiram pelo menos uma disciplina no primeiro período. As informações foram avaliadas a partir de dados das graduações sediadas em Niterói, bem como em cada curso que teve pelo menos mais de dez questionários respondidos. Após a seleção da amostragem, chegou-se ao número de 290 estudantes entrevistados.

Os cursos participantes da pesquisa foram os de Biblioteconomia e Documentação, Geografia, Nutrição, Medicina Veterinária, Letras, Arquitetura e Urbanismo, Química, Produção Cultural, Engenharia Civil e Estatística. Além de saber mais dos entrevistados, que preencheram um formulário com perguntas sobre o perfil socioeconômico e a instituição de origem no ensino médio, o estudo buscou conhecer melhor as percepções de cada aluno acerca do curso, dos professores e da UFF. Os participantes também responderam questões sobre o que impacta negativa ou positivamente o seu rendimento na universidade.

A chefe da divisão da Prograd conduziu a pesquisa em parceria com a professora Ana Beatriz Fonseca, coordenadora do curso de Estatística, que orientou sobre a metodologia para coleta e análise dos dados fornecidos pela STI. Dulce, que é técnica em assuntos educacionais, conta que o levantamento surgiu como um desdobramento de seu projeto de pesquisa no mestrado no Latec/UFF, em 2012, que analisou a evasão e a retenção nos cursos de graduação em Engenharia. Conhecendo o trabalho, o pró-reitor de Graduação, Renato Crespo, pediu a realização de um estudo similar no âmbito da Prograd, a fim de buscar dados concretos sobre outros cursos. A íntegra do estudo em breve será publicado pela Prograd em um livro-relatório. O trabalho deverá ter outros desdobramentos com a criação de um grupo de pesquisa registrado na Capes, coordenado por Dulce e Ana Beatriz, que pretende realizar novas etapas da pesquisa em outros cursos. 

Maioria dos retidos é de alunos-trabalhadores

A pesquisa revelou que o perfil da maioria dos entrevistados é de homens solteiros, com idade entre 20 e 25 anos, sem filhos, com renda de dois a cinco salários mínimos (na época, no valor de R$ 625) e que têm algum tipo de atividade remunerada com duração de mais de 20 horas semanais. Aproximadamente 65% dos estudantes pesquisados realizam algum tipo de atividade remunerada, dentro ou fora da UFF. Desses, quase 43% realizam atividades que estão ligadas à UFF, como iniciação científica, estágio, monitoria, e cerca de 57% fora da UFF, em trabalhos formais ou informais.

“As causas da evasão e da retenção são bem variadas e não tem necessariamente relação com o aluno ser oriundo de escola pública. Tem a ver com falta de estímulo, dificuldade pessoal ou dificuldade acadêmica, mas, principalmente, a questão do trabalho apareceu de maneira bastante forte. São muitos os alunos que têm necessidade de se manter exercendo uma atividade remunerada, mesmo não-formal”, avaliou Dulce Pontes.

UFF é a universidade brasileira que mais matricula estudantes no período noturno." Renato Crespo

De acordo com os estudantes, os fatores que mais impactam negativamente o seu rendimento são, além da jornada de trabalho, um fluxograma “engessado”, a distância entre sua casa e a UFF, a relação professor-aluno e existência de poucas atividades práticas. Já os aspectos positivamente impactantes para o rendimento mais citados pelos alunos são a metodologia do professor e a identificação com o curso. Dentre as sugestões apresentadas para melhorar o desempenho no curso, destacam-se a flexibilidade de horários e melhorias no fluxograma.

“Ao quantificarmos a retenção e entrevistarmos cada um dos retidos para saber suas razões, podemos atacar esse problema com ações diretas, lançando programas direcionados para determinadas causas da retenção. Esse é o diferencial”, ressalta o pró-reitor Renato Crespo, destacando que a UFF é a universidade brasileira que mais matricula estudantes no período noturno.

Prograd investe em medidas para combater a retenção acadêmica

Dentre as medidas da Prograd já em andamento para o combate à retenção estão os estudos para a redução de carga horária – como o que vem sendo realizado na Faculdade de Farmácia, cujo curso tem cerca de 1.400 horas acima do mínimo exigido nas Diretrizes Curriculares Nacionais; a oferta de disciplinas à distância por meio do Consórcio Cederj; a criação de acordos e convênios de mobilidade entre universidades, dentro e fora do Estado do Rio de Janeiro; e a realização de cursos de férias. A UFF ofereceu, de modo intensivo nos meses de janeiro e fevereiro últimos, algumas disciplinas básicas em cursos cujo índice de retenção é elevado. “Oferecemos para as áreas de Engenharia, Química e Direito. A ideia é tornar isso uma rotina na UFF, difundindo para a universidade inteira e não só para as disciplinas que causam retenção, mas outras conforme o interesse das coordenações, para que o aluno possa ter a opção de adiantar seu currículo”, explica Crespo, defendendo que o curso de férias também seja uma possibilidade de o aluno agilizar a formação.

Outras propostas da pró-reitoria são: flexibilização do currículo (que o aluno possa escolher mais disciplinas de seu interesse), maior qualificação do programa de tutoria e maior oferta de disciplinas noturnas. “A motivação veio a partir do problema da retenção, mas o maior objetivo desse conjunto de ações é facilitar a vida acadêmica e a escolha dos estudantes, que poderão desenvolver uma boa trajetória na universidade”, afirma o pró-reitor.

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