Pesquisadores da UFF viajam à Antártica para estudar mudanças climáticas

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Crédito da fotografia: 
Divulgação

 

Não é novidade que fenômenos de variação climática e de aumento da temperatura da Terra, como resultado de uma alteração no equilíbrio atmosférico, têm sido cada vez mais frequentes em todo o mundo. O que nem todos sabem é que outros eventos de transformações radicais na natureza também têm ocorrido, e com uma frequência preocupante, como a elevação do nível do mar e o esvaziamento de lagos. Esse tem sido o caso, por exemplo, do lago Boeckella, localizado na Antártica, local que tem sido frequentado por pesquisadores do Instituto de Geociências e de Física da UFF para investigar essas variações em âmbito planetário.

Através de uma parceria com o Programa Antártico Brasileiro e outros centros de pesquisa estrangeiros, como o Instituto Antártico Argentino, algumas expedições são organizadas até a região durante períodos específicos do ano para coleta de dados geofísicos, oceanográficos e meteorológicos, além de amostras de água e de sedimentos do fundo marinho, de lagos, das geleiras etc. De acordo com uma das coordenadoras do projeto e do Laboratório de Processos Sedimentares e Ambientais da UFF, professora de Geografia Rosemary Vieira, “a ideia é produzir resultados que comprovem como o clima variava no passado e como ele está se comportando no presente”.

Atualmente, o foco das pesquisas gira em torno do colapso do lago Boeckella. Em expedição realizada no início desse ano, a pesquisadora viajou até o norte da Península Antártica, a convite do Instituto Antártico Argentino, para estudar o local. Segundo Rosemary, “o esvaziamento do lago pode ser o primeiro caso deste fenômeno registrado na Antártica. Os esforços agora estão em realizar uma reconstituição dos eventos que levaram a esse desfecho, além de apurar suas causas, possivelmente associadas às mudanças climáticas e as consequentes alterações na área”.

“A imensidão inóspita de gelo nos silencia e faz refletir o quanto somos pequenos e devemos respeitar e nos reintegrar à natureza”, Vanessa Costa

Ainda de acordo com a Rosemary, estudar o fenômeno é importante não somente em nível local, mas também global: “As pesquisas realizadas na Antártica são de extrema relevância porque as alterações climáticas no continente influenciam diretamente nos padrões de temperatura e na incidência de chuvas na América do Sul e, por consequência, no Brasil. E a Península Antártica é uma das regiões com os maiores registros de elevação da temperatura nos últimos 60 anos, cerca de 3°C”.

As alterações climáticas são cada vez mais perceptíveis e frequentes, para os pesquisadores brasileiros e também de outras partes do mundo que montam acampamento em solo antártico: “a precipitação em forma de chuva está aumentando, as temperaturas estão aumentando, os dias com temperatura acima de 0° C estão aumentando, muitas geleiras estão derretendo e de forma rápida”, enfatiza a geógrafa.


Para a doutoranda da Geografia Vanessa Costa, que participa do projeto desde 2010, o trabalho coordenado pela professora Rosemary é um dos que tentam desvendar o quebra-cabeça do passado climático da Terra: “são muitos fatores que envolvem o clima e entendê-los se torna essencial no nosso contexto atual, onde eventos extremos estão realmente ocorrendo. As taxas de dióxido de carbono (CO2) na atmosfera chegaram a um nível nunca visto antes na história da humanidade. Extremos de frio, calor, chuvas e secas são incontestáveis e acarretam problemas sociais que comprometem populações inteiras. A Antártica parece estar muito longe das sociedades, mas ela é uma parte muito importante do sistema Terra, controlando a circulação oceânica e atmosférica do planeta”, ressalta.

Integrar o projeto das expedições à Antártica é, para Vanessa, um grande aprendizado e também uma grande responsabilidade: “primeiro somos treinados pela marinha e fazemos uma bateria de exames. No navio polar temos um médico e um dentista, mas não tem hospital no continente e o resgate é demorado, caso necessário. Por isso, todo cuidado é pouco, principalmente quando estamos em terra trabalhando. Temos que cuidado onde pisamos, se estamos bem aquecido, se alguma parte da roupa molhou... Há casos sérios de necrose devido à umidade a ao frio extremo. Porém, segundo relatos de pessoas que participam há mais tempo das expedições, a Antártica está muito mais quente ultimamente”, acrescenta a aluna.

 

Já de acordo com Rosemary, um dos maiores desafios das expedições é ter que conviver com as baixas temperaturas, os ventos fortes e também o afastamento dos familiares. “Alguns países, inclusive, como o Chile e a Argentina, mantêm militares em suas bases com suas famílias por todo o ano. Nesses locais há escolas, correios, enfim, toda uma estrutura”, explica. Além disso, “cada expedição tem histórias únicas: tempestades intensas, barracas arrancadas do solo por fortes ventanias, inclusive com pessoas dentro...”. Por outro lado, segundo a professora, “também tem as visões maravilhosas das baleias saltando em frente ao navio, dos pinguins em suas colônias e do eclipse da lua. A cada momento, a Antártica proporciona uma mirada especial”.

Os belos eventos da natureza a que a aluna e a professora assistem, nas suas viagens até o continente gelado, não parecem deixar dúvidas quanto à grandiosidade da vida e à urgência em repensar nossos modos de ser humanos: “a imensidão inóspita de gelo nos silencia e faz refletir o quanto somos pequenos e devemos respeitar e nos reintegrar à natureza”, conclui Vanessa.

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