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Atualizado: 3 horas 10 minutos atrás

O Amor como revolução

qua, 11/11/2020 - 16:07

O espetáculo O amor como revolução é uma obra que aborda centralmente a dimensão do desamparo humano, diante das imprevisibilidades da vida e o quanto o amor se apresenta como o único sentido possível e frutífero para a existência. O narrador relata as histórias de vida de um menino que, muito cedo, precisou lidar com o descontrole humano a respeito de diversas variáveis que interferem na sua existência. O menino, no auge de sua adolescência, num momento leve e descontraído da sua vida, foi acometido por uma neurite óptica bilateral e, repentinamente, perdeu parte significativa de sua visão. Sem que tivesse poder sobre o que estava acontecendo, viu seus planos frustrados e seu cotidiano atravessado por uma doença.

Parte do espetáculo aborda o drama desse menino, sua impotência diante da vida, suas lágrimas de desespero, seu susto diante do imponderável. Contudo, justamente no momento de sua maior fraqueza, o menino descobriu o amor como atitude concreta de cuidado, carinho, consolo e esperança. O amor que apareceu no colo de sua mãe, na solidariedade de seus amigos, no acolhimento de sua escola e em outras situações, que o narrador vai contando. Enquanto conta as histórias, esse narrador vai se transformando nos personagens citados por ele. A narração se materializa em vários momentos da peça.

O drama do menino é o drama universal e essencial da condição humana. O que está evidenciado especialmente neste momento de pandemia. O vírus não cria a fragilidade humana, mas a revela. Tentar controlar todas as variáveis da vida gera ressentimento, mágoa, frustração e imaturidade emocional para lidar com as adversidades. A peça convida todos ao encontro honesto com a dimensão do desamparo humano, mas não para gerar desespero, porém pelo contrário, para gerar esperança. Aceitar a vida no seu imponderável, para viver com intensidade amorosa o tempo presente, é a tônica da peça.

O narrador vai mostrando como o menino se reinventou, ampliou seu olhar sobre o mundo. Em meio às lágrimas, o menino sorriu e aprendeu. A história da peça supera a questão visual e vai ganhando outros contornos com o crescimento do menino e outras questões de sua vida. Aparece a importância dos laços familiares e das amizades sólidas. Também se revela a descoberta do mundo, quando o menino se conscientiza das injustiças e dos preconceitos e passa a apostar na solidariedade.

Ainda entra a temática racial, pois o menino ao longo de sua caminhada redescobre sua negritude e passa a se afirmar orgulhosamente como negro. Enfim, desde a dimensão mais singela e pessoal até a dimensão mais ampla e social, o amor vai se apresentando como uma atitude de empatia diante da vida, de sensibilidade frente ao sofrimento humano e de esperança, mesmo em meio aos momentos de desespero.

Em uma das suas mãos, o narrador carrega uma mala com as memórias de sua vida. Em outra, carrega sementes de seus sonhos. Toda a narrativa se constrói num caminho ou no ato de caminhar. Esta é outra chave de abordagem e interpretação desta peça. O caminho é onde a vida acontece, sempre no tempo presente. O passado é uma referência de aprendizado. O futuro um horizonte de sonhos. O presente é a matéria real na qual a vida se desenrola. Num tempo de isolamento social, medo e ansiedade, esta peça apresenta um olhar de calma diante das aleatoriedades da vida. Demonstra a necessidade de se olhar para dentro, para que cada indivíduo reconheça sua fragilidade e, dessa forma, possa olhar para fora e ser mais capaz de amar a humanidade. A solidão pode ser criativa e criadora de novos rumos. A solidão pode gerar solidariedade e o reconhecimento da fragilidade e humildade é capaz de gerar maior intensidade no viver.

Por fim, a ideia do caminho demonstra que a vida tem ciclos, estações e tempos e que tudo passa. Caminhando fazemos o caminho, vivemos o presente e criamos o futuro. O narrador conta histórias de sua vida (passado), mas a peça se orienta numa dimensão esperançosa (futuro). Ao invés do desespero, a peça propõe esperança, fruto do caminho e do amor. Sempre o amor no seu conteúdo ético, concreto e decisivo. O amor é mais que o lugar de saída ou chegada, ele mesmo é o caminho.

Em tempos de fragilidade humana exposta, esta peça é um sopro íntegro que respeita a dor, reconhece a lágrima, mas convida ao motor como caminho de esperança e alegria na vida.

 

SINOPSE

Um caminhante, peregrino e viajante com uma mala na mão e uma semente na outra. Uma mala cheia de memórias e surpresas. Sementes que carregam sua história e seus sonhos. O caminhante desbrava um caminho repleto de inquietações e dúvidas. A vontade de desistir, a impossibilidade de voltar, a incerteza de para onde ir. No meio dessas oscilações o caminhante relata de maneira divertida, poética e sensível as histórias mais importantes de sua vida. Compartilha a maior dor que já sentiu quando perdeu grande parte da sua visão, assim como da saudade que sente das pessoas queridas que já não estão mais ao seu lado. No meio dessas lembranças, aparecem histórias simples e profundas, divertidas e surpreendentes e tudo isso vai compondo o caminho do nosso viajante. Assim ele compartilha das suas fraquezas e da sua força, da descoberta de sua negritude e de seu envolvimento com a natureza, das suas experiências de amor junto a amigos e familiares, até uma visita surpreendente a um hospital psiquiátrico penal. Ao final do caminho, o caminhante faz uma das maiores descobertas de sua vida! Mas para saber, só vendo…

 

FICHA TÉCNICA

Texto e atuação: Henrique Vieira
Participação: Miguel Ângelo, Duo Pretas – Ana Lia e Sulamita Lage e Luanda Maia
Direção: Rodrigo França
Direção Musical: Sulamita Lage
Direção de Produção: Fábio França e Mery Delmond
Preparação de ator: Tatiana Tibúrcio
Direção de Movimento: Kennedy Lima
Direção de Fotografia e Filmagem: Marcelo Dias
Cenário: Wanderley Gomes
Figurino Ateliê Ms.Vee
Iluminação: Pedro Carneiro
Audiovisual: Rafaela Lira
Animação: Julia Ungerer Guimarães
Assessoria de Imprensa: Alessandra Costa
Adereço Teatral: Clebson Prates
Fotografia: Júlio Ricardo e Natália Anjos
Contabilidade: Rosângela Rosa
Produtor Executivo: Luiz Henriques
Produtores associados: Lázaro Ramos, Henrique Vieira e Rodrigo França
Realização: Diverso Cultura e Desenvolvimento

27 de novembro de 2020
Sexta | 20h
Transmissão: https://www.youtube.com/CentrodeArtesUFFOficial/
Ingressos a partir de R$15,00, vendidos pelo site do Sympla
Duração: 50 min
Classificação etária: Livre

Categorias: Centro de Artes UFF

Debate: Teatro e consciência negra

qua, 11/11/2020 - 16:00

Integrado às ações referentes ao Mês da Consciência Negra, o debate on-line Teatro e consciência negra, é organizado e promovido pelo Centro de Artes UFF, que convidou três importantes representantes da militância negra teatral da atualidade, principalmente no Rio de Janeiro. São eles, Tatiana Henrique, Rodrigo França e Henrique Vieira (currículos abaixo), que serão mediados por Robson Leitão, diretor do Teatro da UFF.

 

Tatiana Henrique – Mãe e Artista da Presença. Pesquisadora de tradições orais e contação de histórias há 20 anos. Doutoranda em Artes pela UERJ. Atriz em audiovisual e espetáculos teatrais: 12 pessoas com raiva, Os desertos de Laíde, Balé Ralé, Salina – a última vértebra, Gineceu. Diretora de Terra sem acalanto, Dulce Ìyá mi, Coco Verde e Melancia, e experimentações rituais: Òrò, Blues em preto e branco, Vera Crucis, sobre todos os dias e A cura ou Améfrica.

É também professora no curso de Teatro da Faculdade Cesgranrio, RJ. Participou de eventos sobre teatro, narratividade e cultura negra nas instituições: National School of Drama (New Delhi/India), Casa de la Literatura Peruana (Lima/Peru), e em diversas outras brasileiras. É coautora do livro Propostas pedagógicas para o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira (Outras Letras), e Ei, Mulher!, registro cênico e crítico da performance homônima (Metanoia).

Henrique Vieira – Pastor da Igreja Batista do Caminho, ator, poeta, professor, ex-vereador e militante de direitos humanos, Henrique Vieira nasceu em 1987, em Niterói. Formado em teologia, ciências sociais e história, estuda a arte da palhaçaria e é membro do conselho deliberativo do Instituto Wladimir Herzog.

Sobre seu livro O amor como revolução, transformado em peça teatral co-produzida por Lázaro Ramos, o pastor Henrique Vieira reflete sobre o poder renovador do amor, que se traduz em atitudes generosas com o próximo e que pode ser uma força poderosa na construção de uma sociedade mais justa e livre de preconceitos.

 “O amor não é destino, sorte e não pode ser uma idealização, ele é acima de tudo um caminho que se percorre, uma decisão e uma forma de se viver”, diz ele que, aos dezesseis anos, percebeu que a vida nem sempre segue o planejado. Uma inesperada e significativa perda visual alterou radicalmente sua rotina e expectativas para o futuro. “Do encontro com a dor, vieram as primeiras reflexões sobre o sentimento de desamparo e de solidão do ser humano. Expectativas ilusórias, frustrações cotidianas, desejos reprimidos, tudo isso pode alimentar o ódio, e impedir uma vivência mais plena e feliz”, percebeu ele. “Aceitar que os conflitos fazem parte de quem somos pode, paradoxalmente, nos tornar capazes de ações potentes de amor. Para isso, é necessário um exercício de autoaceitação”, completa.

Acreditando no potencial revolucionário dos pequenos gestos e das ações cotidianas, Henrique compartilha suas experiências com o leitor: a prática pastoral desde muito jovem, a arte da palhaçaria, a atuação como vereador na cidade de Niterói, as brincadeiras da infância, as lembranças dos avós, a escola. Para tal, também recupera histórias dos Evangelhos, utilizando as palavras e a trajetória de Jesus como inspiração e meio de comunicação. “O amor como revolução é um desafio necessário em nossos tempos, é um chamado para transformarmos o amor em atitudes concretas que ultrapassam nossa própria existência”, afirma.

Rodrigo França – Ator, dramaturgo, filósofo e cientista social, Rodrigo França não se incomoda com o fato de ser ex-BBB. O reconhecimento do seu trabalho no campo artístico e social, levando para os palcos a força do teatro negro, faz com que ele lide de maneira tranquila com o passado de exposição diante das câmeras.

“Quando fui convidado para participar do reality, eu já batia recordes de público com a peça ‘O Pequeno Príncipe Preto’. Então, não pensei em entrar para divulgar meu teatro. Topei entrar para furar uma bolha. Me lembro que minha mãe, quando viu que eu estava na dúvida, disse: ‘Militar para os seus é fácil’. Essa frase me causou uma inquietação e resolvi encarar”, diz o autor do livro infantil e da peça “O pequeno príncipe preto”, que teve enorme sucesso de público, no ano de 2019.

A militância, segundo Rodrigo, não serve só para lutar e fortalecer movimentos, mas também para provocar incômodo, gerar desconforto. E isso deve valer para ambos os lados. Em 2019, no Big Brother Brasil, Rodrigo foi alvo de racismo dentro e fora da casa, vítima de intolerância religiosa e ataques nas redes sociais.

“O racismo no Brasil é na sutileza, é um racismo velado. Um reality show mostra, de alguma maneira, uma parte micro dessa estrutura que vai se desdobrar em nossa sociedade de uma maneira muito maior. Lá dentro da casa eu percebia o racismo em questões muito simbólicas. Gente que me abraçava e depois ia limpar a roupa, gente que não queria comer da minha comida porque achava que tinha feitiço. E aqui eu nem digo intolerância religiosa, é racismo religioso mesmo, porque é sempre com a cultura afro, sempre com a negritude”, completa Rodrigo, que é também diretor dos espetáculos teatrais “Oboró – masculinidades negras” e “Amor como revolução”, entre outros.

24 de novembro de 2020
Terça | 17h
Transmissão:
https://www.facebook.com/centrodeartesuff/
https://www.youtube.com/CentrodeArtesUFFOficial/

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